O mercado imobiliário espanhol vem evoluindo a taxas acima de 20% nos últimos anos. Além de turbinar o crescimento econômico do país, essa exuberância provocou o surgimento de fortunas espetaculares. Nada menos do que oito nomes ligados ao setor entraram pela primeira vez na lista de grandes bilionários do mundo da revista Forbes, publicada no começo deste ano. Entre eles, o grande destaque coube ao até então desconhecido empresário valenciano Enrique Bañuelos, de 41 anos, classificado na 95a posição do ranking, com 7,7 bilhões de dólares de patrimônio acumulado. Essa fortuna foi erguida com a expansão recente dos negócios de sua imobiliária, a Astroc, e o furor que as ações da companhia provocaram na bolsa de Madri. Mas a festa durou pouco. Nos últimos meses, quase 6 bilhões de dólares de seu patrimônio evaporaram, em meio ao surgimento de evidências de operações armadas pelo empresário para inflar artificialmente a cotação dos papéis da Astroc. Afastado hoje do comando das operações, Bañuelos passou a ser tratado pela imprensa como o Donald Trump espanhol, numa referência ao conhecido ricaço americano que ganhou muito dinheiro no final da década de 80 especulando como empreiteiro de prédios de luxo.
Não há registros na história da Espanha de um movimento de ascensão e queda tão rápido no mundo empresarial. Num primeiro momento, o empreendedor valenciano parecia a prova viva de que também existe o "sonho americano" na estratificada Europa. Filho de uma família operária, Bañuelos ficou órfão aos 9 anos de idade e teve os estudos custeados pela siderúrgica onde o pai trabalhava e onde morreu, vítima de um acidente de trabalho. Formado em administração de empresas, trabalhou como vendedor até montar, em 1995, a Astroc. Ela era considerada uma empresa de segunda linha no ramo até se mostrar uma das mais competentes na estratégia de pegar carona no boom do mercado imobiliário do país. A Astroc entrou em vários negócios milionários e, em sua abertura de capital, em maio de 2006, atraiu para o clube de acionistas gente do porte de Amancio Ortega, proprietário do conglomerado Inditex, dono de marcas como Zara e número 1 no ranking dos milionários espanhóis. Lançados na bolsa ao valor de 8,6 dólares, os papéis da Astroc alcançaram, nove meses depois da estréia, a quase inacreditável cotação de 97,7 dólares -- valorização superior a 1 000%.
| Enrique Bañuelos, presidente da imobiliária Astroc |
| Idade 41 anos |
| Estado civil Casado, dois filhos |
| Origem Valência, na Espanha |
| Ascensão No começo deste ano, entrou para a lista de bilionários da revista Forbes, com a terceira maior fortuna da Espanha |
| Queda Em fevereiro, um grande movimento de venda de ações da Astroc provocou queda de 60% no valor dos papéis da empresa |
| Fortuna 2 bilhões de dólares. Mas já foi avaliada em 7,7 bilhões |
Do relativo anonimato, Bañuelos passou a ser retratado na imprensa a bordo de seu jato executivo na ponte aérea entre Valência e Nova York, onde possui um dú plex com vista para o Central Park avaliado em mais de 90 milhões de dólares. Segundo alguns observadores, a queda do empresário começou a ser desenhada quando ele decidiu ir atrás de um pouco mais de fama e passou a falar o que não devia. Em setembro de 2006, Bañuelos ofereceu uma paella, o prato típico valenciano, a 25 000 pessoas em pleno Central Park. O motivo foi o lançamento de sua fundação de apoio às artes, sediada em Nova York. Pior, em meio à euforia do mercado com os papéis da Astroc, anunciou que iria tomar posições de controle no poderoso banco BilbaoVizcaya (segundo no ranking espanhol, depois do Santander). O negócio não foi para a frente, mas expressava uma dose elevada de soberba, que, de acordo com muitos de seus inimigos, acabou sendo o motivo principal de sua queda. "Ele fala demais, não deixa os outros opinarem quando a prudência e a experiência nos negócios aconselham a escutar", disse a EXAME um empresário que ainda tem negócios com Bañuelos.
A derrocada do negócio começou no final de fevereiro, alguns dias depois de os papéis da Astroc atingirem o preço recorde. Em menos de uma semana, as ações da imobiliária perderam 38% do valor, arrastando consigo a bolsa de Madri e os principais pregões europeus. Por trás desse movimento de queda, o mercado detectou pesadas ordens de venda (entre os acionistas que agiram dessa forma estaria o próprio Ortega). Os pequenos investidores começaram também a vender em massa, provocando um efeito dominó e o "empobrecimento" súbito de Bañuelos. No auge da cotação, sua empresa valia 12 bilhões de dólares, e os 53,77% que possuía, 6,4 bilhões de dólares. Ao final de fevereiro, essa participação valia 3,9 bilhões de dólares.
O golpe final veio com o vazamento de um relatório de auditoria elaborado a pedido da Comissão de Valores Mobiliários da bolsa de Madri sobre as contas da empresa em 2006. Segundo o trabalho, o resultado foi conseguido de forma artificial -- cerca de 60% do lucro saiu da venda de imóveis ao próprio Enrique Bañuelos. A operação de compra e venda de propriedades entre sociedades controladas por um mesmo acionista não é, em si, ilegal, segundo a legislação espanhola. No entanto, embute uma mal disfarçada estratégia para inflar lucros, porque o valor escritural dessas propriedades costuma ser muito menor que o de mercado -- como ocorreu no caso da Astroc. Além disso, os auditores apontavam que 12 grandes projetos da imobiliária corriam o risco de não sair do papel.
Quem o conhecia da outrora pacata praia de Canet d'En Berenguer, em Valência, não se surpreendeu. Bañuelos é o típico produto do que os espanhóis chamam de cultura del pelotazo ("cultura do golpe", numa tradução livre), uma forma de fazer dinheiro a curtíssimo prazo misturando ousadia e boas conexões políticas com poucos escrúpulos. O exemplo mais gritante desse descontrole é Marbella. A antiga capital de verão do jet set internacional nos anos 70 e 80 transformou-se numa central de lavagem de dinheiro e na meca das máfias russas e dos cartéis internacionais da droga num cenário de concreto armado. Um processo aberto sobre os envolvidos no mercado de especulação imobiliária em Marbella no ano passado já implicou a prisão de mais de 60 pessoas, entre prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, diretores de bancos, advogados, policiais e donos de cartórios.
Bañuelos não tem (ainda) problemas com a Justiça espanhola, mas o futuro da Astroc transformou-se numa grande incógnita. Numa tentativa de melhorar a imagem da empresa, o fundador afastou-se da direção e contratou um executivo profissional vindo do mercado financeiro, Juan António Alcaraz, que anunciou nos últimos dias sua estratégia de ação. A Astroc, que deverá mudar de nome, vai ser fundida com as duas imobiliárias compradas no ano passado, Rayet Promociones e Landscape. Até o final do ano está prevista uma ampliação de capital no valor de 1 bilhão de dólares subscrita pelos atuais acionistas para levar a cabo um plano de expansão internacional que inclui o Brasil. Bañuelos ainda é um homem rico e a imobiliária uma empresa relevante, com valor de mercado de 2,2 bilhões de dólares, de acordo com a cotação da última semana de maio. Mas não é mais o dono e senhor absoluto do negócio. Sua participação na companhia caiu para 31%, avaliada em 690 milhões de dólares. Somado a seus bens pessoais, isso resulta numa fortuna atual de cerca de 2 bilhões de dólares. Não é exatamente o patrimônio de um fracassado, mas significa pouco para quem já esteve perto do topo do mundo.

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