Revista EXAME -
Na sede do Skype, a empresa de telefonia pela internet que chacoalhou o formato -- e os custos -- das ligações de telefone, cada sala recebe o nome de um super-herói. A do presidente e fundador Niklas Zennström foi batizada de Colossus, um herói da série X-Men cujo corpo tem um estranho tipo de aço orgânico no lugar dos músculos. Colossus é capaz de sobreviver a quase tudo: tiros, explosões de dinamite e até ataques nucleares. Apesar de grandalhão e mal-encarado, é sensível, gentil e movido por fortes convicções morais. Quem conhece Zennström pessoalmente logo entende o motivo da escolha do nome para sua sala. Guiado pela crença de que a internet vai mudar o mundo, esse sueco de 40 anos criou duas empresas que desafiaram setores inteiros da economia. O programa de troca de arquivos musicais KaZaA é um dos responsáveis pela encruzilhada em que se encontra hoje a indústria fonográfica.
| Niklas Zennström, presidente do Skype |
| Idade 40 anos Nacionalidade Sueco Família Casado, sem filhos |
| Fortuna pessoal 1,3 bilhão de dólares |
| Formação acadêmica Administração de empresas e ciências da computação pela Universidade de Uppsala, na Suécia |
| Negócios que criou KaZaA (2000), vendido por 600 000 dólares Skype (2003), vendido por 2,6 bilhões de dólares Joost (2007) |
E as ligações gratuitas (ou extremamente baratas) do Skype ameaçam os lucros das companhias do setor de telecomunicações e fazem com que elas se mexam em busca de alternativas. Embalado por esses dois sucessos, Zennström prepara agora um novo negócio, o Joost, que vai oferecer programação de TV de graça pela internet e promete desagradar a mais um grupo de empresas -- as emissoras de TV. Sua história é uma prova do poder competitivo da verdadeira inovação, aquela que transforma idéia em produto e produto em dinheiro. "Estamos explorando apenas algumas possibilidades da internet. Esse é um caminho sem volta, em direção ao melhor. Um processo que vai beneficiar as pessoas e também a economia como um todo", disse Niklas Zennström a EXAME, numa entrevista concedida na sede do Skype em Londres.
O arrojo de seus empreendimentos colocou Zennström no hall da fama do mundo da tecnologia, a ponto de ser cotado como o próximo Bill Gates, numa referência ao multibilionário dono da Microsoft. Pode ser um tremendo exagero, mas é assim que Zennström é visto hoje. Não é raro também ser chamado por termos como serial entrepreneur (empreendedor em série, paródia à expressão serial killer, ou assassino em série), cyberpunk, Robin Hood da internet ou simplesmente Zennström, o destruidor. Rótulos à parte, o fato é que as empresas desse sueco de olhar estrábico e ar professoral pertencem hoje a um seleto grupo de negócios que, graças a um altíssimo grau de inovação, estão virando de cabeça para baixo modelos de negócios tradicionais. Ao lado do próprio Gates, de Steve Jobs, da Apple, e dos meninos do Google, Zennström tornou-se um dos mais reverenciados ícones do universo digital. Com o KaZaA, ele mudou a maneira como as pessoas ouvem música. Com o Skype, Zennström revolucionou a forma como as pessoas fazem suas ligações telefônicas. O potencial da empresa é tamanho que o site de leilões virtuais eBay comprou-a em 2005 por 2,6 bilhões de dólares, apenas dois anos depois de ter sido criada por Zennström e seu sócio, o dinamarquês Janus Friis. A única condição imposta foi que ele permanecesse à frente do negócio.
| Os alvos dos vikings |
| O sueco Niklas Zennström e o dinamarquês Janus Friis atacaram o modelo de negócios dos setores de telecomunicações e fonográfico. Agora se preparam para investir contra as emissoras de televisão |
| SETOR FONOGRÁFICO |
| Como foi o ataque Em 2000, criaram o KaZaA, programa que promove a troca de arquivos de vídeo e música pela internet Amaior vitória O programa bateu o recorde de downloads no verão do hemisfério norte de 2001, quando foi baixado por 3,5 milhões de usuários — o que significa um novo usuário por segundo Empresa vendida por 600 000 dólares em 2002 para a Sharman Networks |
| TELECOMUNICAÇÕES |
| Como foi o ataque Depois de vender o KaZaA, a dupla criou, em 2003, o Skype, site que permite ligações telefônicas gratuitas por meio da internet A maior vitória Neste ano a empresa prepara-se para bater a marca de 200 milhões de usuários — crescimento de 107% em comparação com o ano anterior Empresa vendida por 2,6 bilhões de dólares em 2005 para o eBay Como será o ataque O novo empreendimento da dupla, o Joost, está em fase final de testes.Trata-se de um site no qual pode-se acessar gratuitamente programas de TV — intercalados por propaganda O principal trunfo Antes mesmo de entrar em operação, o Joost já tem acordos com 31 anunciantes, como Coca-Cola, Nike e Unilever. Para os Estados Unidos, a empresa já fechou acordos com mais de 100 provedores de conteúdo, como CBS e Viacom |
Apesar de fazerem parte do mesmo fenômeno, as distâncias entre o Vale do Silício, onde está a maioria das bem-sucedidas empresas de tecnologia, e Londres, sede das companhias de Zennström, vão muito além dos 8 700 quilômetros que separam os dois lugares. Enquanto na sede do Google é possível ver funcionários andando de patinete e passeando de pantufas, no Skype não há nada disso. Quem espera um arranha-céu, digno de uma grande corporação, também se decepciona. No escritório da companhia, localizado em um prédio pequeno do centro da capital inglesa, o ambiente é sisudo como em qualquer outro local de trabalho da cidade. Nada ali denuncia a existência de uma empresa que vem colocando à flor da pele os nervos dos executivos das companhias telefônicas ao redor do planeta. Os funcionários ocupam uma grande sala comum, em tons de cinza, chegam às 9 da manhã e saem, impreterivelmente, às 6 da tarde. Não se ouvem conversas entre os profissionais que fazem o Skype -- só os sons dos teclados --, e eles normalmente almoçam em suas mesas, olhando para a tela do computador. No Joost, que fica num prédio a poucas quadras do Skype, o cenário é semelhante: sem luxo, sem graça e com poucas cores. A grande diferença é a presença de Molly, uma cadelinha da raça jack russel, que circula livremente, recebendo afagos dos cerca de 30 funcionários que trabalham ali. "As grandes companhias da internet não precisam vir necessariamente do Vale do Silício. Esse é o lado bom da tecnologia. Hoje, você pode ter um pequeno grupo de pessoas em uma sala, criar um software e ter um grande impacto", diz Zennström.
Desde criança, a subversão de regras é um comportamento recorrente de Zennström. Ele explica essa compulsão pelo novo como um subproduto de sua criação na Suécia, um país de 9 milhões de habitantes e poucos empreendedores. Uma das exceções, além de Zennström, é o bilionário Ingvar Kamprad, criador da rede de lojas de móveis Ikea e considerado um ídolo pelo fundador do Skype. Para Zennström, o fato de ter nascido num país onde todos usufruem de boas condições de vida funcionou como um estímulo ao contrário. Em vez de se contentar com o que era acessível a todos, Zennström tornou-se um insatisfeito e, como muitos empreendedores, um inconformado com a falta de iniciativa a seu redor. Durante a infância, sua principal diversão era construir aviões que vinham em kits de montar. Mas com um detalhe: sem olhar para o manual e procurando construir uma aeronave que fosse diferente da mostrada na embalagem. Nesse esforço para sair do convencional, os americanos exerceram uma forte influência em sua formação. Ele morou nos Estados Unidos em duas oportunidades. Na adolescência, em um programa de intercâmbio, e na faculdade, quando cursou um ano de ciência da computação na Universidade de Michigan. "Se você quer fazer alguma coisa grande, precisa sair da Suécia", diz Zennström. "É uma sociedade que não inspira o sucesso."
O ímpeto empreendedor surgiu com mais força aos 34 anos. Na ocasião, Zennström era o responsável pela área de internacionalização da Tele2, empresa sueca de telefonia. Ao perceber as possibilidades geradas pela internet, ele decidiu pedir demissão e montar o próprio negócio. "Era hora de fazer algo por mim, e não mais pela companhia", diz. Foi então que ele convidou o colega Janus Friis, que também trabalhava na Tele2, para a empreitada. Nenhum dos dois tinha a menor idéia de que tipo de empresa iriam abrir e de que atuação ela teria. O princípio foi duro. Durante quatro meses, Zennström, sua mulher, Catherine, e Friis dividiram um apartamento em Amsterdã, na Holanda. As contas da casa eram pagas com o salário de Catherine, que trabalhava em instituições de caridade. Quando o telefone tocava, Zennström sabia que eram credores. Depois de iniciar o KaZaA, cuja inspiração veio do Napster (um dos primeiros a oferecer música de graça pela internet), a situação não melhorou muito. Como a base do programa era a troca de músicas online sem o pagamento de direitos autorais, a dupla acumulou uma série de problemas com a Justiça. Passaram a ser perseguidos por advogados e, um dia, um motociclista jogou sobre Zennström uma intimação judicial. Ele não pegou o papel e saiu correndo. "Eu me senti pequenininho", diz.
A dificuldade com o KaZaA foi convencer as gravadoras a fazer parcerias naquele momento. A indústria fonográfica americana tinha acabado de derrotar na Justiça o Napster. Com o site fora do ar, os internautas migraram em massa para o KaZaA, que se tornou o inimigo número 1 das gravadoras. Nenhuma das ações judiciais conseguiu impedir definitivamente o funcionamento do programa, mas uma delas, movida pela associação das gravadoras americanas, transformou Zennström em persona non grata nos Estados Unidos. Ele ficou cerca de cinco anos sem entrar no país. Em 2002, depois de provar que o KaZaA não fornecia conteúdo ilegal mas apenas um meio para que arquivos fossem trocados, Zennström vendeu a empresa por 600 000 dólares, dinheiro que ele usou para pagar antigas dívidas e para aplicar em seu novo investimento: o Skype. A idéia de fazer um negócio que barateasse o custo das ligações telefônicas surgiu quase por acaso. "Eu passava muito tempo falando com os programadores do KaZaA na Estônia e com o Janus, que morava em Copenhague. Gastava uma fortuna em telefone. Por isso pensei: 'Por que não usamos a mesma tecnologia do KaZaA para transmitir voz?' ", diz.
O que chama atenção nos negócios de Zennström é que, apesar do alto grau de inovação, nenhum deles parte de uma idéia completamente original. Programas de computador semelhantes ao KaZaA, ao Skype e ao Joost já existiam na internet bem antes que o sueco os colocasse no ar. Mas eles eram conhecidos e utilizados apenas em grupos muito restritos de aficionados. O sueco e seu parceiro Friis souberam como ninguém empacotar essas tecnologias de uma maneira atraente e acessível a um enorme grupo de pessoas. A diferença básica entre suas invenções está na facilidade de uso. "Para mim, um programa é bom quando até minha mãe consegue usar", diz Zennström. Tanto o KaZaA quanto o Skype são exemplos de como essa filosofia funciona bem. Poucos meses depois de lançado, o KaZaA já era o programa mais baixado da internet. Desde 2000, quando foi criado, 390 milhões de usuários já baixaram o programa. O Skype, criado três anos depois, está perto de bater a marca de 200 milhões de usuários. "A tecnologia está inaugurando uma nova fase do próprio capitalismo, que colocará um ponto final no modelo de produção massificado do século passado", diz Shoshana Zuboff, professora de Harvard. "Os consumidores de hoje exigem um tratamento mais individualizado. As empresas que realmente entendem esse conceito se perguntam: 'O que o consumidor realmente quer? Como podemos oferecer isso?' "
Para responder a essas perguntas, Zennström e Friis apostaram em duas frentes. A primeira foi o princípio do compartilhamento de dados, uma tecnologia conhecida como peer-to-peer. Ligados por uma espécie de rede virtual colaborativa, os computadores transferem informações uns aos outros, sem depender de um servidor central para armazenar dados. Isso significa um sistema mais rápido e econômico. Foi essa tecnologia, associada à facilidade de uso, que fez do KaZaA um sucesso -- e ainda abriu uma brecha jurídica que possibilitou a seus advogados alegarem que o programa não abriga conteúdo ilegal. No caso do Skype, permitiu uma economia brutal em infra-estrutura já que não é necessário montar uma rede de servidores para manter o sistema funcionando. A Vonage -- companhia telefônica que oferece ligações pela internet nos Estados Unidos, no Canadá e na Inglaterra -- gasta cerca de 400 dólares para adicionar um usuário. Para o Skype, esse custo é de menos de 1 centavo. O segundo pilar desse processo foi a intensa utilização de marketing viral. Toda a base da propaganda do Skype apoiou-se na recomendação que um usuário fazia a outro. "Para que falassem de graça, era preciso um companheiro do outro lado da linha", diz Barbara Kahn, professora de marketing da escola de negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia.
Se a internet permite a criação de negócios que vão do zero ao bilhão de dólares em um curto espaço de tempo, também exige um ritmo muito mais acelerado de inovações. As ligações gratuitas do Skype já estão em processo de "comoditização", e hoje seus principais concorrentes -- Yahoo! e Microsoft -- oferecem produtos semelhantes. Nos Estados Unidos, a guerra de tarifas tem levado a uma redução dos preços, que já eram baixos. É por isso que o sucesso das empresas de Zennström não é capaz de lhe trazer tranqüilidade. Mesmo depois de ter se tornado bilionário com a venda do Skype (sua fortuna pessoal é estimada em 1,3 bilhão de dólares), sua rotina mudou pouco. Como presidente da empresa, é comum começar o dia com uma reunião durante o café da manhã e terminar com um jantar de negócios às 10 da noite, um ritmo bem diferente do restante de sua equipe. Mesmo aos sábados e domingos, responde e-mails e recebe ligações de trabalho -- sempre pelo Skype. "Quando estou desconectado, fico muito estressado", diz. Depois de ter conquistado reconhecimento e uma base de clientes invejável, o maior desafio de Zennström agora é fazer seus negócios darem lucro baseados no modelo de serviços grátis. O Skype registrou o primeiro lucro somente no início deste ano e, ainda assim, a empresa não divulga os valores. O Joost, antes de começar, já sofre ameaças de processos milionários. Não é à toa que a sala de Zennström ganhou o nome de Colossus, o super-herói com nervos de aço. Ele vai mesmo precisar de sangue-frio para provar que está certo.