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O maior fazendeiro verde do mundo

O empresário Leontino Balbo é dono da maior lavoura orgânica do planeta e cresce num mercado bilionário
Anna Carolina Negri
Balbo, no canavial: sem agrotóxicos, com lucro
 
Por Ana Luiza Herzog  | 17.05.2007

Revista EXAME - 

O paulista Leontino Balbo já se acostumou a receber visitas de estrangeiros curiosos em sua fazenda localizada em Sertãozinho, no interior de São Paulo. Desde que ele conseguiu uma certificação internacional para a produção de orgânicos, em 1997, começou a vir um gringo aqui e outro ali. De um ano para cá, porém, ciceronear os visitantes tornou-se uma de suas principais atividades. Em fevereiro, Balbo mostrou os canaviais a um representante da indústria química alemã Basf. No início de maio, passou um dia com Jeanne Bailey, diretora do departamento de agricultura dos Estados Unidos, e outro com Peter Carstedt, da sueca Sekab, distribuidora de etanol na Europa. Na semana seguinte, Balbo recebeu um grupo de quase 30 parlamentares alemães ligados ao agronegócio. Um dos motivos do aumento do interesse é o barulho em torno de fontes de energia alternativas, que elevou o etanol e os produtores brasileiros ao centro das atenções em todo o mundo. Ao visitar Balbo, autoridades e empresários estrangeiros querem entender como ele resolveu alguns dos principais problemas ambientais relacionados à cultura da cana-de-açúcar -- como a emissão de gases causadores do efeito estufa e a destruição de ecossistemas. "A Native prova que a produção de cana e a biodiversidade podem coexistir", diz Balbo, diretor comercial da empresa. "E é isso que eles querem ver de perto."

A Native, com vendas de 60 milhões de reais em 2006, possui 14 000 hectares de canaviais certificados. Não existe um levantamento oficial sobre lavouras orgânicas. Mas, segundo duas das maiores certificadoras do mundo -- a francesa Eco-Cert e a americana Farm Verified Organics --, trata-se do maior projeto individual de cultivo orgânico em todo o planeta. É também um dos mais bem-sucedidos. A empresa virou referência mundial ao jogar por terra a crença de que a produtividade dos orgânicos é, necessariamente, menor que a da produção convencional. Hoje, cada hectare da Native produz cerca de 104 toneladas de cana, enquanto a média do estado de São Paulo é 84 toneladas (veja quadro). "Estamos trabalhando para chegar a 110 toneladas por hectare", diz ele. Balbo entrou pela porta da frente num mercado que, apenas nos Estados Unidos, movimentou mais de 14 bilhões de dólares em 2006. Atualmente, ele fornece para as maiores fabricantes de alimentos do mundo, como Danone e Nestlé, e já conseguiu colocar sua marca em varejistas renomados, como a americana Wholefoods e o espanhol El Corte Inglés.

Nem sempre foi assim. Sua experiência teve início há 12 anos, quando deixou a faculdade de agronomia para ajudar a tocar os negócios da família, o grupo usineiro Balbo. Ele mesmo desenvolveu boa parte da pesquisa para fazer o plantio de orgânicos dar certo. Nos primeiros oito anos de transição, a produtividade dos canaviais caiu 12% em relação ao cultivo tradicional. "No começo não tinha mais os benefícios do arsenal químico nem havia recuperado a biodiversidade nos canaviais", diz. Aos 46 anos, até hoje ele não tem uma equipe de biólogos e agrônomos e coloca a mão na massa. Balbo é avesso aos simpósios e seminários científicos do setor canavieiro. Também se mantém distante do meio acadêmico. "A ciência do agronegócio hoje é pautada pela indústria química e escolhi outro caminho", diz ele.

Os críticos da viabilidade comercial dos orgânicos costumam argumentar que viver sem agrotóxicos implica contratar centenas de funcionários para fazer o controle de pragas e de ervas daninhas de maneira manual. A experiência de Balbo mostra que não precisa ser assim. O exército que trabalha a seu favor é composto de plantas, fungos, insetos, aves, mamíferos -- e, muito eventualmente, gente. Para manter sob controle a população de saúvas, uma inimiga dos canaviais, por exemplo, Leontino conta com a ajuda de outra espécie de formiga, a lavapé. A predadora da saúva voltou a habitar a usina depois que Balbo desenvolveu um trator, em parceria com um fabricante, que compacta menos o solo e não destrói seus formigueiros. Já a cigarrinha-das-pastagens, responsável por injetar na cana uma toxina que provoca perdas, é combatida pelo Metarhizium, um fungo que a Native coleta nos próprios canaviais e multiplica em labo ratório. Com o plantio nas lavouras da crotalária, um vegetal que fixa o nitrogênio do ar no solo, Balbo parou de comprar adubo nitrogenado. Nos anos 90, antes da conversão ao modelo orgânico, o consumo de apenas uma das usinas era de 216 toneladas de adubo por mês.

Ele quebrou o mito da produtividade
A Native fez crescer sua receita total nos últimos três anos...
(em milhões de reais)
2004 25
2005 40
2006 60
...aumentou suas vendas com a marca própria no varejo nacional...
(em milhões de reais)
2004 2,9
2005 4,7
2006 7
...e derrubou a crença de que a produtividade dos orgânicos é menor que a convencional
(em toneladas de cana por hectare)
Native 104
Média do estado de São Paulo 84

A Native aboliu há cerca de 12 anos a queima da cana e passou a colhê-la crua. A queima, além de gerar gases causadores do efeito estufa, como o óxido nitroso, empobrece a biodiversidade das lavouras. "Num canavial tradicional, não há muita ocorrência de pássaros ou mamíferos selvagens porque os agrotóxicos eliminam os insetos e desestabilizam a cadeia alimentar", diz José Roberto Miranda, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite. "E os que conseguem se alimentar não resistem ao fogo fechado das colheitas." Sem o uso de pesticidas ou queimas, o canavial da Native -- cercado por áreas de preservação ambiental permanente mantidas pela família Balbo -- possui uma diversidade de fauna semelhante à de uma reserva ambiental. Recentemente a Embrapa registrou ali a ocorrência espontânea de 35 espécies de animais ameaçados de extinção. É possível encontrar animais como o tamanduá-bandeira, que com dezenas de espécies de pássaros mantêm equilibradas as populações de formigas e outros insetos.

A riqueza da fauna é também um diferencial lá fora para conquistar clientes. Um deles é a Stonyfield Farm, uma das mais tradicionais marcas de iogurte orgânico dos Estados Unidos, hoje controlada pela francesa Danone. Em 2005, Gary Hirshberg, fundador e principal executivo da empresa, sugeriu a Balbo o interesse em trocar a Native por um produtor do México com preço mais baixo. "Disse a Gary que ele teria então de parar de usar as imagens dos nossos canaviais povoados de raposas e pássaros no material promocional da marca", afirma Balbo. Ele logo voltou atrás. Neste ano, a Native venderá à Stonyfield Farm 9 000 toneladas de açúcar orgânico. "Não compramos apenas o produto mas também as histórias que estão por trás dele", disse Hirshberg a EXAME. Alguns contratos do mesmo tipo começaram a ser fechados no Brasil. A fabricante de cosméticos Natura utiliza álcool orgânico da Native em 70% de sua linha de perfumaria desde o início deste ano. Há duas semanas, a subsidiária brasileira da Nestlé começou a usar o açúcar da empresa nas bebidas à base de soja da recém-lançada linha Sollys.

A aspiração da Native não é crescer apenas em volume. Balbo já negou pedidos de fornecimento ao gigantesco Wal-Mart. A maior parte das vendas externas -- equivalente a 80% do faturamento total -- corresponde à exportação de açúcar orgânico a granel para fabricantes de alimentos. Os produtos da marca própria da empresa, porém, já estão em redes de varejo, como a Wholefoods e o El Corte Inglés. Balbo não revela os valores, mas garante que os clientes estrangeiros geraram lucro para a operação nos últimos anos. Recentemente, as vendas externas foram favorecidas por um aumento de cerca de 30% no preço do açúcar orgânico. O motivo é que muitos produtores desistiram dos orgânicos devido às dificuldades de implantação impostas pelo modelo. A demanda pelo produto, ao mesmo tempo, vem crescendo a taxas superiores a 20% por ano. Atualmente, 1 tonelada do produto pode custar de 520 a 550 dólares, ante cerca de 250 dólares do açúcar tradicional. "Os orgânicos dão mais trabalho", diz Balbo. "Mas fiquei menos exposto às variações do mercado."

 
 
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