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O homem verde do Vale do Silício

O investidor John Doerr ficou bilionário apostando cedo em empresas como Amazon, Sun e Google. Agora, ele só pensa em energia
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Por Sérgio Teixeira Jr.  | 03.05.2007

Revista EXAME - 

Em uma página pessoal que mantém no site de sua empresa, o megafundo de capital de risco Kleiner, Perkins, Caulfield e Byers, o investidor americano John Doerr lista algumas de suas preferências. Sabe-se, por exemplo, que sua navegação na internet começa no site de notícias do Google, que seus heróis são seus pais e que seu lema é "Família em primeiro lugar". Ele também diz quais foram suas leituras recentes. Entre os títulos está Yes, Your Teen Is Crazy ("Sim, seu adolescente está louco", numa tradução livre), livro escrito por um psicólogo que argumenta, essencialmente, que os adolescentes são realmente malucos. A indicação do livro é intrigante. Nos últimos meses, Doerr tem repetido ao redor do planeta a história de sua conversão à causa verde. Sua filha de 16 anos disse-lhe num jantar: "Papai, estou com medo e furiosa. Sua geração criou esse problema e acho bom você consertá-lo". O problema, claro, é o aquecimento global. Foi graças a essa frase de sua filha "louca" que Doerr, um investidor lendário do Vale do Silício, hoje só quer saber de energias renováveis. "É a mãe de todos os mercados", disse ele numa recente entrevista. "Talvez seja a maior oportunidade de negócios do século 21."

Sócio do fundo KPCB há 25 anos, Doerr tem uma capacidade de fazer bons negócios que beira o sobrenatural. Ele colocou dinheiro nas seguintes empresas: Compaq, AOL, Amazon.com, Netscape, Sun Microsystems e Google. Fundos de capital de risco, como o KPCB, têm duas características marcantes. A primeira é o tipo de investimento. Compram-se participações nos estágios iniciais de desenvolvimento das empresas. Ou seja, Doerr apostou nessas companhias muito antes de elas se tornarem conhecidas. O segundo ponto fundamental do capital de risco é sair na hora certa, de preferência com a abertura de capital na bolsa. Sua seqüência de hits rendeu-lhe uma fortuna superior a 1 bilhão de dólares e um lugar cativo no topo do ranking anual da revista Forbes que elege os Midas do mundo da tecnologia. Mas Doerr agora quer ser conhecido como Tistu, o menino do dedo verde. Ele vem dando cada vez menos atenção à tecnologia da informação e cada vez mais a projetos que envolvam energias renováveis. É companhia freqüente do cantor Bono Vox e do ex-vice-presidente americano Al Gore. Levantou um fundo de 200 milhões de dólares para investir em soluções tecnológicas que ajudem a salvar o planeta. E fez algo que sempre foi considerado tabu no ambiente antiintervencionista do Vale do Silício: meteu-se em política.

John Doerr, do fundo KPCB, um dos investidores mais influentes do mundo
Idade
56 anos
Formação
Engenheiro elétrico com mestrado pela Universidade Rice e MBA em Harvard
Experiência profissional
Fundou uma empresa de software para design, a Silicon Compilers, e passou seis anos na Intel, onde trabalhou como engenheiro e com vendas. Depois, entrou para a empresa de capital de risco Kleiner, Perkins, Caufield e Byers
Maiores sucessos
Foi um dos primeiros investidores em empresas como Compaq, Netscape, Sun, Google,Amazon e Symantec
Maiores fracassos
Friendster (rede de relacionamentos superada pelo MySpace), GO Corp. (empresa que lançou o primeiro computador de mão) e sites como myCFO.com
Membro do conselho
Google,Amazon, Intuit, Homestore e Sun
Fortuna pessoaL
1 bilhão de dólares

Novas formas de geração de energia existem aos montes. Todas têm algo em comum: custam caro. Para que a promessa da "tecnologia verde" se torne realidade, será necessário contar com subsídios e regulamentações -- em outras palavras, depender de favores do governo. "Os mercados são incrivelmente importantes, mas não são perfeitos", disse Doerr numa entrevista recente. Para que a revolução da energia verde de fato aconteça, uma mãozinha vai ser necessária. Quando o estado da Califórnia decidiu ampliar as pesquisas com células-tronco, Doerr doou 6 milhões de dólares à campanha. Foi a maior contribuição de um indivíduo -- que, não por acaso, estava muito interessado no incentivo que a medida daria às empresas de biotecnologia. No ano passado, ele criou a Rede de Inovação Greentech, grupo que reúne acadêmicos, empreendendores e empresários, cujo objetivo é basicamente fazer lobby por leis que fechem o cerco sobre os grande emissores de CO2. Quanto mais severas as restrições ao dióxido de carbono, maior a oportunidade para quem lida com energias renováveis. O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, é um dos alvos freqüentes da pressão de Doerr -- e também um dos mais ferrenhos defensores de limites às emissões de gases causadores do efeito estufa. Os detratores de Doerr dizem que ele cruza uma barreira ética importante ao misturar política com negócios que podem ser extremamente lucrativos. A favor do megainvestidor é preciso dizer que ele não é o único interessado no sucesso das alternativas ao petróleo -- muito pelo contrário.

"CONTAR COM O APOIO DE JOHN é muito importante", disse a EXAME John Melo, CEO da Amyris Biotechnologies, empresa que levantou 20 milhões de dólares em capital de risco no KPCB e em outros dois fundos e que tem Doerr em seu conselho de administração. "Ele tem experiência mais que comprovada e vai nos ajudar a crescer." A Amyris é um exemplo claro da influência que um capitalista de risco pode ter num novo negócio. A empresa nasceu com a intenção de criar novas drogas para o combate à malária e chegou a receber investimentos da Fundação Gates, instituição filantrópica criada por Bill Gates. Quando os investidores tomaram conhecimento da tecnologia -- que, numa simplificação exagerada, envolve o uso de um micróbio manipulado em laboratório para obter do açúcar o princípio ativo do remédio antimalária --, perceberam que a técnica poderia ser usada para a geração de biodiesel. Melo, que era presidente de uma unidade ame ricana da British Petroleum, foi levado para a presidência da empresa. "O biocombustível que produzimos é quase 30% mais eficiente que o etanol", diz Melo, um português que fez carreira nos Estados Unidos. "Somos o futuro dos combustíveis." Entre as outras 14 empresas que receberam a atenção de Doerr estão a Altra, uma produtora de etanol, e a Miasolé, que criou um filme de baixo custo que pode revestir telhados e acumular energia solar.

Essas companhias são só alguns exemplos da transformação que acontece no Vale do Silício. As empresas de tecnologia da informação continuam por lá, é claro, mas ao que tudo indica os empreendimentos ligados às novas fontes de energia vieram para ficar. A Cleantech Venture Network, associação que reúne investidores verdes, calcula que, só no berço das companhias de alta tecnologia, mais de 500 milhões de dólares foram injetados em negócios ligados a energia no ano passado. A CVN calcula que nos Estados Unidos e na Europa o valor total chegue a 3,6 bilhões de dólares. Todos estão de olho em um mercado de 5 trilhões de dólares, valor estimado para os negócios de energia em todo o mundo. Diante do apetite dos investidores e do prêmio que se desenha no horizonte, a temida palavra "bolha" já começa a ser ouvida. Doerr, que viveu intensamente a montanha-russa da internet no fim da década passada, não parece preocupado. Ele diz que a palavra correta é "boom". "Algumas das inovações mostram seu valor no longo prazo." Ou, como disse Ray Lane, seu sócio no KPCB: "Bolhas são comuns. Elas acabam mal para quem chega tarde. Para quem chega cedo, não é tão mau".

 
 
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