Revista EXAME -
A venda das 1 600 lojas da rede de restaurantes McDonald's na América Latina por 700 milhões de dólares, fechada há duas semanas, trouxe para o centro das atenções um personagem que, até então, havia se movimentado com absoluta discrição nos bastidores da negociação. Trata-se do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, sócio do Gávea Investimentos e agora também sócio da operação latino-americana da maior cadeia de fast food do mundo. Para quem acompanhou o processo de compra, ficou claro que a participação de Armínio na negociação ajudou -- e muito -- o colombiano naturalizado argentino Woods Staton a fechar o negócio. Apesar de Staton ter implantado o McDonald's na Argentina e ter excelente trânsito na matriz da empresa, em Chicago, boa parte do mercado apostava numa vitória do banco Pactual, o outro interessado no negócio. Armínio ajudou Staton a ganhar a disputa, primeiro, porque colocou dinheiro no consórcio num momento em que a proposta do Pactual pelo McDonald's era muito superior financeiramente. E, em segundo, mas não menos importante, seu nome e reputação agregaram a Staton credibilidade para fazer mudanças numa operação deficitária e administrar a difícil relação com os franqueados do McDonald's.
A entrada do Gávea num negócio do porte do McDonald's chama a atenção para um novo traço da personalidade de Armínio Fraga: o de "empresário". Desde que foi inaugurado, em agosto de 2003, o Gávea esteve sempre no topo dos rankings de fundos de investimento com apostas em papéis -- ações, títulos, câmbio. Em maio do ano passado, no entanto, o fundo passou a apostar também em café, transporte aéreo, terminais de contêineres, shopping centers e, a partir de agora, hambúrgueres. Todos são negócios cujo sucesso, além de um ambiente macroeconômico estável, depende de boa gestão e de visão de mercado. Hoje, o Gávea tem dois fundos, com 1,4 bilhão de dólares, para investimento nesses negócios. Ao montá-los, além de diversificar sua atuação, Armínio entrou também para o clube dos gestores de fundos de private equity -- que compram participações em empresas para vendê-las com lucro mais adiante. Sua estratégia é ser sócio minoritário nos negócios, mas com poderes para influenciar as decisões e cobrar resultados. Embora não seja o caminho natural de toda gestora de recursos, no caso do Gávea, o movimento faz todo o sentido (pelo menos essa é a opinião de seus colegas de mercado). "Ele conseguiu maximizar o potencial do 'ativo' Armínio Fraga num mercado que é muito lucrativo, mas não aceita qualquer um", diz um gestor independente do Rio de Janeiro. Procurado, Armínio não concedeu entrevista a EXAME.
O "ativo" Armínio Fraga é a face glamourosa de uma estratégia disciplinada e paciente desenvolvida por um grupo de 12 profissionais comandados por Luiz Fraga, primo e sócio do ex-presidente do BC, egresso do fundo de investimento Latin vest. Entre eles estão Piero Minardi (ex-Darby Overseas) e Christopher Meyn (ex-Latinvest), que prospectam oportunidades nos setores-alvo do Gávea e acompanham mais diretamente as empresas, atuando nos conselhos e comitês internos. Armínio e Luiz Fraga definem estratégias e participam das negociações mais complicadas. "O Gávea traz uma perspectiva macroeconômica bastante sofisticada. Eles nos ajudam a prever os cenários e a planejar a parte financeira", diz Henrique Cordeiro Guerra, diretor executivo do grupo de shopping centers Aliansce, que tem dez empreendimentos no Brasil e em abril vendeu 23,5% do negócio ao Gávea. Uma vez sócio, a principal preocupação do time de Armínio é garantir um nível razoável de governança corporativa. Em todas as aquisições feitas até agora, o Gávea tem seguido um padrão de conduta cujo objetivo final é levar a empresa à bolsa de valores. A Aliansce, por exemplo, entrou com pedido de registro de companhia aberta à CVM logo depois de associar-se à gestora de Armínio Fraga.
| Os outros negócios do Gávea |
| Nos últimos dois anos, o ex-presidente do BC Armínio Fraga investiu em setores que vão de logística a shopping |
| Multiterminais Em fevereiro, os fundos do Gávea compraram, por 125 milhões de reais, 25% da empresa, que fatura 206 milhões de reais por ano |
| BRA Em dezembro de 2006, o Gávea comprou, com outros seis bancos e fundos, 45,9% da companhia aérea |
| Aliansce Shopping Centers Em abril, foram adquiridos 23,5% da Aliansce, que administra 15 shopping centers e faturou 2,5 bilhões de reais em 2006 |
| Fonte: empresas |
O mesmo caminho será seguido pela operadora de terminais de contêineres Multiterminais, na qual o Gávea tem participação de 25%, comprada por 125 milhões de reais. Outra na fila dos IPOs é a companhia aérea BRA, em que o Gávea, com seis outros fundos estrangeiros, adquiriu 45,9% do capital. Seu próximo investimento será na empresa resultante da fusão entre as usinas de álcool Vale do Rosário e Santa Elisa. Armínio planeja aplicar 200 milhões de reais no negócio, mais uma vez como minoritário. E as perspectivas de lucro são excelentes. Calcula-se que, com a abertura de capital, a empresa poderá valer até 4 bilhões de reais. Ainda não se sabe onde exatamente a compra do McDonald's se encaixa nessa estratégia, mas o plano do Gávea é esperar de quatro a cinco anos para se desligar dos negócios em que investiu. Esse será o tempo necessário para saber se a turma de Armínio é realmente tão boa nos negócios como no mercado financeiro.