Revista EXAME -
A essência do mundo contemporâneo, segundo o jornalista britânico Francis Wheen, pode ser resumida em uma expressão -- mumbo jumbo. O termo em inglês, que representa conceitos complicados e até misteriosos que no fundo não dizem nada, ilustra a principal mensagem do livro Como a Picaretagem Conquistou o Mundo, obra mais recente de Wheen. A versão em português, em que mumbo jumbo foi traduzido por picaretagem, chega às livrarias brasileiras três anos após a publicação original. A picaretagem a que o autor se refere diz respeito à erosão do bom senso e à valorização de banalidades em planos tão diferentes quanto a política, os negócios e a cultura de massa. Wheen, que ganhou projeção como escritor nos anos 90 ao publicar uma conceituada biografia de Karl Marx, afirma que vivemos atualmente cercados por falsos profetas. Em seu esforço para apontar evidências, ele não poupa figuras como o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan e o guru do mundo dos negócios Tom Peters. O livro é escrito de forma criativa e com uma linguagem fluente e divertida, que a tradução não compromete.
O primeiro capítulo dedica-se a desfilar alguns equívocos econômicos dos anos 80. O ex-ator hollywoodiano Reagan, por exemplo, aparece como um "incorrigível criador de fantasias". Wheen conta que ele ganhou as eleições com a promessa inacreditável mas irresistível de diminuir impostos, aumentar os gastos com defesa e ainda assim chegar ao equilíbrio orçamentário dentro de um ou dois anos. Tudo isso com base na teoria do economista Arthur Laffer, colega de Milton Friedman na Universidade de Chicago. A realidade não poderia ter ficado mais distante. Durante os oito anos de Reagan na Casa Branca, os Estados Unidos passaram de maior nação credora do mundo para principal devedora.
| Como a Picaretagem Conquistou o Mundo |
| Editora Record, 362 págs. |
| Autor |
| Por que ler Com informação, inteligência e humor, o livro é um guia para entender as contradições do mundo contemporâneo |
| "O sono da razão gera monstros, e as duas últimas décadas produziram monstros em abundância. Alguns são claramente sinistros, outros aparecem simplesmente cômicos" Sobre a tese principal do livro |
Wheen também descarrega um dilúvio de citações hilárias sobre títulos de livros, teses furadas e frases de efeito no melhor estilo "me engana que eu gosto". No caso do mundo dos negócios, o precursor da picaretagem, segundo o autor, é o guru Tom Peters. Em 1982, ele se tornou célebre ao lançar o livro Em Busca da Excelência, que enaltecia as melhores empresas dos Estados Unidos e buscava os segredos do sucesso. Peters falou a coisa certa na hora certa. Os americanos estavam cansados de ouvir sobre o milagre japonês e mostraram-se ávidos por saber mais sobre as estrelas do capitalismo americano. A história tratou de revelar a inconsistência das projeções contidas no livro. Cinco anos depois -- e 5 milhões de exemplares vendidos --, dois terços das empresas indicadas como as mais prósperas apresentavam desempenho medíocre. As 39 corporações julgadas péssimas pelas medidas de excelência de Peters superaram as expectativas de mercado. Mas, erros à parte, o mal estava feito. Depois dele, surgiram levas de gurus capazes de fazer fortuna ao espalhar mundo afora frases inspiradoras como "vá fundo e continue a ir fundo" ou "transforme os negativos em positivos".
De todos os consultores que de quando em quando enfeitiçam o público, coube a Deepak Chopra os comentários mais ácidos. Segundo o autor, Chopra, um endocrinologista que se especializou em meditação transcendental, conseguiu explorar como ninguém o misticismo para fazer fortuna. Em 1993, tornou-se guru instantâneo após promover o livro Corpo sem Idade, Mente sem Fronteiras no programa da popular apresentadora de TV americana Oprah Winfrey. Nas 24 horas seguintes ao programa, ele vendeu 137 000 exemplares. Em uma semana, chegou a 400 000 cópias. Hoje, Chopra ganha mais de 20 milhões de dólares por ano com seu império espiritual comercial. É como se o Iluminismo, lamenta o autor, nunca tivesse ocorrido. Mas essa é apenas a ponta do iceberg, já que na virada do século as publicações de auto-ajuda geraram 560 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, essa indústria -- se incluirmos seminários, treinamentos individuais, CDs e vídeos -- alcança um faturamento de quase 2,5 bilhões de dólares. Entende-se assim por que tantos gurus se digladiam em busca de seu quinhão nesse mercado. O que parece confirmar uma lei citada por Wheen: a única maneira de enriquecer com um livro do tipo "fique rico" é escrevendo um.