Como seria de esperar da maior economia do mundo, os Estados Unidos reinam quando o assunto é mercado financeiro. No ano passado, um terço de todos os lançamentos de ações e quase 40% das operações de fusões e aquisições de empresas do mundo aconteceram em Wall Street, o maior centro financeiro do planeta. Também são americanos os bancos de investimento responsáveis por estruturar a maior parte dessas transações -- que movimentaram a cifra recorde de 1,7 trilhão de dólares. Surpreende, portanto, que um país emergente consiga superar os Estados Unidos em algum quesito nessa área. Mas é o que ocorre com o Brasil, pelo menos no que diz respeito à remuneração dos profissionais -- e pelo menos por enquanto. Apesar de o mercado de capitais brasileiro ainda representar uma tímida fração do americano, os salários e os bônus pagos por bancos de investimento já ultra passam os valores de Nova York. Atualmente, presidentes, diretores e até trainees das instituições que operam no país ganham cerca de 20% mais do que seus colegas nos Estados Unidos, segundo estimativas das maiores consultorias de recrutamento e de executivos dos principais bancos ouvidos por EXAME. "A Faria Lima bateu Wall Street", afirma um headhunter, referindo-se à Brigadeiro Faria Lima, avenida da zona oeste de São Paulo onde estão localizados os escritórios dos principais bancos de investimento do país.
As cifras são milionárias. No Brasil, o ganho anual de um presidente de banco de investimentos é de cerca de 4 milhões de dólares. Essa é a média. Executivos top de linha podem receber mais de 10 milhões de dólares no mesmo período. Diretores dos principais bancos recebem, em média, cerca de 2 milhões de dólares por ano, e um analista recém-saído da faculdade ganha 150 000 dólares. O que explica essa surpreendente remuneração dos brasileiros é a falta de mão-de-obra num mercado superaquecido. As operações de compra e fusão de empresas e também as ofertas de ações nas bolsas de valores são dois filões que crescem a taxas chinesas no país. No ano passado, o segmento movimentou 55 bilhões de dólares, mais que o dobro do volume de 2005, segundo um levantamento da consultoria Thomson Financial. "O Brasil é um dos poucos países que fazem cerca de 35 aberturas de capital por ano", diz Gabriel Alonso, vice-presidente executivo do Santander, referindo-se à média dos últimos anos -- em 2007, estima-se que o número de aberturas de capital chegue a 70. "Por isso, é natural que a maioria dos bancos esteja olhando para cá. Nós também estamos investindo." Para entregar esse crescimento, a maioria dos executivos dos bancos de investimento trabalha freneticamente num ritmo superior ao registrado pela média dos bancos nos Estados Unidos. Como 90% do contracheque desses profissionais depende de bônus, mais trabalho quer dizer mais dinheiro no bolso.
| Recompensa milionária | ||
| O mercado financeiro americano é bem maior que o brasileiro(1)... | ||
| Brasil | EUA | |
| Ofertas de ações | 13 bilhões de dólares | 215 bilhões de dólares |
| Fusões e aquisições | 42 bilhões de dólares | 1,5 trilhão de dólares |
| Número de bancos de investimento(2) | 20 | 100 |
| ...mas quem trabalha em bancos de investimento no Brasil ganha mais (remuneração anual em dólares)(3) | ||
| Brasil | EUA | |
| Presidente | 4 milhões | 3,2 milhões |
| Diretor | 2 milhões | 1,5 milhão |
| Analista | 150 000 | 120 000 |
| (1) Números de 2006 (2) Número estimado de bancos que atuam em ofertas de ações e de dívida e em fusões e aquisições (3) Inclui salário e bônus pagos em 2006 Fontes: bancos,Dealogic, headhunters,Thomson Financial | ||
A euforia nos bancos de investimento começou em 2004, com a arrancada da Bolsa de Valores de São Paulo. Nessa época, apenas três bancos de investimento -- Credit Suisse, UBS e Pactual -- mostraram capacidade de atender à nova demanda de empresas, que precisavam de quem estruturasse seus lançamentos de ações. Com a compra do Pactual pelo UBS no ano passado, o mercado ficou ainda mais concentrado. Como esse é um segmento invejavelmente rentável -- calcula-se que as margens de lucro sejam de impressionantes 50% --, as instituições que ficaram de fora do mercado tiveram de ir à luta. Resultado: há uma verdadeira guerra pelos talentos no mercado. "Vivemos uma escassez crônica de pessoal", diz Bruno Padilha, diretor executivo do banco de investimentos do Unibanco. Os bancos que ainda estão engatinhando nesse mercado sabem que a única maneira de entrar rapidamente no jogo é buscar talentos na concorrência. "Com o mercado bastante aquecido, não há tempo hábil para formar pessoas", diz Jorge Maluf Filho, sócio da consultoria Korn/Ferry International.
O momento atual tem produzido mudanças curiosas na cultura de alguns bancos. O Bradesco, a maior instituição financeira privada do país, abriu seu banco de investimentos no ano passado e não vacilou em fazer contratações de peso. Para ser o diretor-geral da nova área, destacou Bernardo Parnes, ex-presidente do Merrill Lynch e responsável pelo family office do banqueiro José Safra até então. O movimento quebrou uma tradição. Foi a primeira vez que o Bradesco preencheu um cargo de alto escalão com um executivo que não veio de seus próprios quadros ou de uma instituição adquirida. O banco também foi a mercado para contratar outros três executivos para sua área de investimento -- Bruno Boetger, que saiu do Citigroup em Nova York, Renato Ejnisman, vindo do Bank of America, e Jaime Singer, ex-Credit Suisse e Pactual. "São reforços necessários à nossa estratégia de crescer nessa área", diz José Luiz Acar Pedro, vice-presidente executivo responsável pelo banco de investimentos. Antes do Bradesco, o Itaú BBA já tinha feito uma incursão na equipe do UBS (hoje UBS Pactual) em março de 2005, levando três executivos.
Diferentemente dos bancos de varejo -- que investem pesado em tecnologia para tentar reduzir os gastos com pessoal --, os bancos de investimento dependem quase que exclusivamente da qualidade de seus profissionais. Mais do que em qualquer outra área do mercado financeiro, nesse setor o relacionamento pessoal entre os executivos das empresas e dos bancos pesa tanto ou mais do que a placa de uma instituição financeira na hora de fechar negócios. "Cativar o cliente é vital em nosso ramo", diz Ricardo Stern, presidente do JP Morgan no Brasil. Segundo especialistas, a maioria das companhias só toma a decisão de abrir capital ou de comprar outras empresas depois de ouvir essa sugestão de um banco de investimentos. Foi o que ocorreu com a rede de laboratórios Diagnósticos da América (Dasa) em 2006. A idéia de fazer uma segunda oferta de ações partiu das instituições financeiras que estruturaram o negócio -- UBS, Itaú BBA, JP Morgan e Unibanco. "Seguimos a recomendação porque confiamos na avaliação dos bancos e, principalmente, nos profissionais que cuidavam da nossa operação", diz Odélio Arouca Filho, diretor da Dasa.
O vigor do mercado transformou os bancos de investimento em uma das primeiras opções de quem está saindo da faculdade. Um exemplo é Ricardo Castro, de 22 anos, recém-formado em administração de empresas na Universidade de São Paulo e analista do JP Morgan. "Quando comecei o curso, queria trabalhar no setor público, mas os bancos de investimento me chamaram a atenção porque oferecem chances reais de crescimento", diz. A rotina, porém, é pesada. São longas jornadas de trabalho que facilmente se estendem pelas madrugadas e pelos finais de semana. Além disso, o ambiente é bastante competitivo. Os profissionais são avaliados constantemente, porque os bônus dependem não só do resultado financeiro dos bancos mas também do desempenho individual de cada um. "Por isso, essas instituições procuram pessoas determinadas, ágeis, que queiram crescer rapidamente mas tenham capacidade de trabalhar longas horas sob pressão", diz Jaqueline Giordano, responsável pela área de carreiras do Ibmec São Paulo.
O cenário é tão positivo que, pela primeira vez em décadas, jovens profissionais que saíram do Brasil para cursar MBAs ou trabalhar no exterior começam a voltar para o país. É o caso de Guilherme Steagall Gertsenchtein. Depois de concluir um MBA na Tuck School of Business, uma das principais escolas de negócios dos Estados Unidos, ele passou uma temporada de dois anos e meio no Morgan Stanley em Nova York. Agora, está sendo transferido para trabalhar em São Paulo. "A opção pelo Brasil está cada vez mais comum -- e ela parte não apenas dos alunos mas também dos bancos", diz o americano Jonathan Masland, diretor da Tuck. "As instituições querem seus profissionais onde os negócios acontecem, e hoje esse lugar é o Brasil."
Por enquanto, poucos profissionais reúnem o que os bancos de investimento precisam. A consultoria de recursos humanos Mercer estima que os bancos não consigam preencher um quarto das vagas que abrem. É o caso da cadeira de presidente do Morgan Stanley no Brasil. Até o fechamento desta edição, o banco não havia encontrado um sucessor para Rodrigo Lowndes, que saiu no fim de fevereiro para montar um fundo de private equity. É natural que uma fase tão próspera -- e atípica -- comece a suscitar dúvidas sobre sua sustentabilidade. A maioria dos executivos prevê alguma piora no futuro. "O mercado de capitais é cíclico. Saltos geralmente são seguidos por quedas", diz Marcos Grodetzky, chefe do banco de investimentos do HSBC. Se isso ocorrer, os salários vão cair e alguns bancos podem até voltar a demitir profissionais, como ocorreu no passado. Ao menos para este ano, porém, as perspectivas são otimistas. "Pelo menos por ora, a Faria Lima deve seguir superando Wall Street", acredita um banqueiro.