Revista EXAME -
Todos os dias o espanhol Bernard Roca faz uma teleconferência com funcionários em Madri, Barcelona, Casablanca e Cidade do México. Todos trabalham para o grupo de restaurantes Thaï Gardens, do qual Roca é um dos sócios. A quinta filial da rede foi inaugurada em São Paulo em janeiro de 2006 e, desde então, vem sendo supervisionada pelo próprio Roca e por sua sócia, a chefe de cozinha tailandesa Tasanai Phian-o-Pas, mais conhecida como Madame Tas. O investimento chegou a 2 milhões de euros, e hoje a filial paulista do restaurante emprega quase 50 pessoas. As unidades do Thaï Gardens no México e no Marrocos contam com sócios locais, mas para abrir o empreendimento no Brasil seus donos optaram por não incluir outros parceiros. "Temos a nossa filosofia, entendemos que é um investimento de longo prazo", diz Roca. Ele e Madame Tas passam dez meses por ano no país. Nas próximas semanas, Roca vai se mudar do apartamento alugado para um próprio, já que pretende ficar em São Paulo "até que a equipe esteja bem fechada".
Os sócios do Thaï Gardens são exemplos de imigrantes que vêm chamando a atenção da maior parte dos países em desenvolvimento: são empreendedores globais, para quem as fronteiras não representam um impedimento à expansão de seus negócios. O Brasil, graças a uma resolução normativa do Conselho Nacional de Imigração, recentemente capacitou-se para atrair em maior escala esse tipo de imigrante-empreendedor, com a concessão do visto de permanência para o estrangeiro que investir em um negócio no Brasil. A norma existe há quase dez anos, mas ganhou força em 2004 com a mudança no valor mínimo de investimento, que passou de 200 000 para 50 000 dólares. Caso o novo negócio crie pelo menos dez empregos, o valor exigido pode ser ainda menor. Com uma barreira de entrada que é um quarto do montante original, o número de autorizações concedidas quintuplicou -- em 2006, 1 033 estrangeiros com esse perfil foram aceitos. "Neste ano, esperamos duplicar o número", diz Izaura Miranda, diretora do departamento de estrangeiros do Ministério da Justiça. "A atração de investimentos estrangeiros é uma tendência de todas as economias em desenvolvimento."
A mudança representa um primeiro -- e tímido -- sopro de modernização numa área em que o Brasil prima pelo corporativismo e pela falta de visão estratégica. A busca por empreendedores e bons profissionais de fora sempre fez parte da política de muitos dos países hoje desenvolvidos, Estados Unidos à frente. Nesses lugares, o ponto de partida é reconhecer que os melhores cérebros são, por definição, bem-vindos. Foi com essa concepção que os americanos abriram os braços, em meados do século passado, para milhares de acadêmicos e cientistas que fugiam da Europa conflagrada. Com o fim do comunismo, novamente receberam profissionais capacitados saídos do bloco soviético. É o que estão fazendo agora, com a atração de indianos e chineses com boa formação educacional. Como norma, os americanos classificam cada estrangeiro em busca de visto em diferentes categorias, de acordo com a qualificação profissional. Todos os enquadrados na categoria mais alta são aceitos -- independentemente da existência de uma empresa oferecendo emprego. "O capital humano é o principal motor do crescimento", diz o economista Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. "Faz todo o sentido receber gente qualificada de fora, até porque nosso sistema educacional não forma o número necessário desses profissionais."
No Brasil, ao contrário, é quase sempre difícil que as portas do mercado de trabalho se abram para estrangeiros -- por melhor que seja sua qualificação profissional. Embora o governo tenha facilitado a entrada de empreendedores, ele ainda não parece disposto a mexer no aspecto mais importante, que é a política de concessão de vistos permanentes para trabalhadores qualificados. Hoje, a solicitação para trazer um profissional estrangeiro está sujeita à análise do Ministério do Trabalho, que exige que uma empresa brasileira justifique a necessidade do candidato. Isso porque, segundo o pensamento das autoridades, estrangeiros só devem ser aceitos no caso de não existir nenhum brasileiro apto a realizar a mesma função. O processo de concessão de vistos é lento e burocrático, o que acaba complicando a vida de quem precisa importar trabalhadores. Em Recife, a empresa de software Centro de Estudos e Sistemas Avançados enfrentou um processo tão longo para contratar um programador alemão que desistiu da idéia. "Três meses depois de dar entrada no pedido, o projeto já tinha começado, e ainda não tínhamos conseguido. Acabamos chamando um estagiário intercambista, que em 30 dias já estava trabalhando", diz Silja Oliveira, gerente de capital humano da empresa. No ano passado, foram emitidos menos de 1 000 vistos para profissionais com alta capacitação -- ante mais de 60 000 nos Estados Unidos. Não surpreende que haja apenas 870 000 estrangeiros morando no país, o equivalente a 0,5% da população brasileira -- nos Estados Unidos são 12%. É a menor proporção da história do Brasil -- e não combina com um país que busca aumentar seu cacife no jogo da globalização.