Revista EXAME -
Quando foi anunciado no ano passado que Marcus Agius, de 60 anos, seria a partir de 1o de janeiro o novo presidente do Barclays, começaram os comentários na City, o coração financeiro de Londres, de que havia cheiro de venda no ar. Agius, casado desde 1971 com uma filha do banqueiro Edmund de Rothschild, tinha sido até aquela data o principal nome da filial londrina do banco de investimentos Lazard, um dos dez maiores em fusões e aquisições, onde havia trabalhado por 35 anos. O tempo provou que os boatos da City estavam certos quanto ao anúncio de uma aquisição, mas errados nos nomes dos bancos envolvidos. A maioria apostava que o Barclays, terceiro maior banco da Inglaterra, seria comprado por alguma grande instituição americana, como o Bank of America, mas não foi isso que aconteceu. Em março, o Barclays anunciou que quer adquirir o holandês ABN Amro e dar origem ao quinto maior banco do mundo, com um valor de mercado de 170 bilhões de dólares. Se as conversas resultarem no fechamento do acordo, Agius, um experiente negociador de fusões e aquisições, provavelmente perderá o cargo poucos meses depois de assumi-lo. Uma das exigências dos holandeses, aceita pelo Barclays, é indicar o nome do presidente. Agius teria de se contentar com a vice-presidência do novo banco.
Hoje, o Barclays aparece como o principal candidato à compra do ABN. Mas esse ainda é um negócio de desfecho imprevisível. O banco holandês, dono no Brasil do Real, vem atraindo a cobiça de várias instituições ao redor do mundo. Na última semana de março, sir Fred Goodwin, presidente do Royal Bank of Scotland, foi questionado por jornalistas sobre a veracidade dos boatos de que o banco sob seu comando teria interesse no ABN. Goodwin evitou uma resposta conclusiva, mas negou-se a descartar a possibilidade de uma oferta. Na linguagem cuidadosa dos banqueiros, a frase foi interpretada como uma demonstração de interesse. Uma reportagem do jornal inglês The Financial Times no final de março mencionou o HSBC e o Santander, além do próprio Royal Bank of Scotland, como prováveis candidatos a comprar o banco holandês. Consultado por EXAME, o Santander enviou uma mensagem com uma frase dita por seu presidente, Emilio Botín, no começo de fevereiro: "Não consideramos nem estudar grandes aquisições". O Citibank, maior instituição financeira do mundo, também andou na bolsa de apostas, até seu nome aparecer como um dos assessores do Barclays na atual negociação, o que representa um obstáculo a uma eventual oferta. Um alto executivo de um dos maiores bancos brasileiros confirmou a EXAME que pelo menos outro grande banco americano considerou seriamente a aquisição do ABN recentemente.
| Com presença global, o ABN Amro é cobiçado por Barclays, HSBC, RBS, Santander... | |
| O ABN Amro é forte no meio-oeste americano, na Holanda e no Brasil. Confira a divisão regional do lucro | |
| América do Norte | 1,1 bilhão de euros |
| Holanda | 951 milhões de euros |
| Brasil | 663 milhões de euros |
| Resto do mundo | 310 milhões de euros |
| O Barclays e o ABN estão na fase de negociação exclusiva. Uma eventual fusão entre os dois bancos daria origem à quinta maior instituição financeira do planeta em patrimônio | |
| Banco/País | Patrimônio (em dólares) |
| 1 - CITIGROUP Estados Unidos | 79 bilhões |
| 2 - HSBC HOLDINGS Reino Unido | 74 bilhões |
| 3 - BANK OFAMERICA CORP. Estados Unidos | 74 bilhões |
| 4 - JPMORGAN CHASE ET CO. Estados Unidos | 72 bilhões |
| 5 - BARCLAYS/ABN AMRO Reino Unido/Holanda | 65 bilhões |
| Se o Barclays fechar o negócio, sairá da 41a posição para a quinta no ranking brasileiro medido por ativos totais | |
| Banco | Ativos totais (em reais) |
| 1 - BANCO DO BRASIL | 281 bilhões |
| 2 - BRADESCO | 210 bilhões |
| 3 - CEF | 200 bilhões |
| 4 - ITAÚ | 196 bilhões |
| 5 - BARCLAYS/ABN AMRO | 118 bilhões |
| Fontes: ABN Amro Bank, The Banker e Banco Central | |
O mês de abril será eletrizante para quem acompanha a negociação. No dia 18, acaba o período de conversações exclusivas entre o Barclays e o ABN. Ao fim desse prazo, as partes terão de anunciar se continuarão as tratativas. Quase uma semana depois, no dia 26, haverá a reunião anual do ABN na qual a proposta de um de seus acionistas -- o fundo de hedge The Children's Investment Fund (TCI) -- irá à votação. O fundo quer a venda completa do ABN ou de algumas de suas operações (veja quadro na pág. 110). A pressão do TCI não necessariamente é benéfica para o Barclays. O fundo tem dado sinais de que não se contentará com a primeira oferta que surgir e quer saber o que têm a dizer os demais interessados.
O ABN é uma instituição com operações globais e, em alguns lugares, bastante rentáveis. O banco está presente em 53 países e tem 20 milhões de clientes. No Brasil, o Real é muito mais que apenas um defensor do desenvolvimento sustentável. Está em quinto lugar no ranking dos maiores bancos e é considerado um exemplo de gestão. Nos Estados Unidos, o ABN controla o LaSalle Bank, a maior instituição financeira com sede em Chicago, com forte presença em todo o meio-oeste. Na Ásia, o ABN tem 3 milhões de clientes, a metade deles na Índia, um dos países mais promissores entre os emergentes. O maior problema do holandês ABN é justamente a operação na Holanda, onde uma diretoria considerada pouco eficiente toca os negócios e o mercado tem poucas perspectivas de crescimento. Já o Barclays é forte na Europa, na África do Sul e em algumas regiões dos Estados Unidos. "A grande vantagem dessa aquisição para o Barclays é aumentar sua exposição em países onde ele não existe", diz Nick Hill, analista da Standard & Poor's, em Londres.
Dada a importância do Real no mercado brasileiro, analistas e banqueiros locais acompanham com atenção as negociações na Europa. Se o Barclays conseguir fechar a aquisição e decidir ficar com o Real, o mercado aposta que o impacto no Brasil será pequeno, porque não haverá sobreposição de atividades -- o Barclays praticamente não tem presença no país. "Com a fusão, a maior mudança é que o Real passará a ter acesso ainda mais fácil às linhas de crédito internacional", diz Luís Santacreu, analista de bancos da consultoria Austin Asis.
Para o Barclays, o malogro das negociações na Europa seria má notícia, porque voltariam os boatos sobre sua venda a um banco maior. Agius, o presidente do Barclays, está fazendo tudo para descer um degrau na carreira.