Os maiores gargalos para o desenvolvimento do turismo no Brasil foram identificados em uma pesquisa exclusiva de EXAME, que ouviu empresários e executivos das 90 principais empresas do setor. Entre os principais obstáculos à vinda de mais visitantes estrangeiros, 56% dos entrevistados apontaram a violência, 19% destacaram a baixa oferta de vôos diretos do exterior para o Brasil e 9% citaram a precariedade da infra-estrutura.
Veja a seguir mais informações sobre esses três gargalos:
1. Violência
De acordo com especialistas, quando os índices de criminalidade sobem, os de turismo costumam cair. E o contrário também é verdadeiro, como vem demonstrando a Colômbia desde que o presidente Álvaro Uribe implementou, com ajuda dos Estados Unidos, uma política agressiva para conter a delinqüência. De 2002 a 2005, as taxas de homicídios e seqüestros no país vizinho caíram, respectivamente, 38% e 72%. Já a entrada de turistas estrangeiros mais que dobrou, de 566 000 há cinco anos para mais de 1 milhão em 2006. "O segredo do sucesso são as bem-sucedidas iniciativas de combate à violência, somadas à divulgação de destinos e a investimentos em infra-estrutura feitas pelo governo colombiano", afirma Maria Elvira Pombo, cônsul da Colômbia para assuntos comerciais e diretora da ProExport no Brasil.
Com a criminalidade em níveis aceitáveis e o retorno dos turistas, a infra-estrutura hoteleira voltou a receber investimentos na Colômbia. Entre 2002 e 2006, foram nada menos de 18 bilhões de dólares. Dinheiro público injetado na reforma de portos e aeroportos, com destaque para a ampliação do aeroporto de Bogotá, o mais importante do país. Nos últimos cinco anos, o país viu a quantidade de pousos aumentar em 25%, de 18 480 para 23 108.
2. Poucos vôos diretos
A solução deste problema não é fácil, mas uma luz parece vir dos vôos fretados. Conhecidos como charter, eles têm duas particularidades: vêm apinhados de turistas e fazem roteiros que os vôos regulares não costumam fazer. Os charter crescem de forma brutal e, atualmente, já representam 8% do total de desembarques. De acordo com especialistas, é normalmente esse tipo de vôo que abre as portas para a chegada das rotas regulares.
A julgar pelos números da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o Nordeste deverá ser um destino internacional cada vez mais importante. O número de vôos fretados do exterior para essa região aumentou em 370% nos últimos três anos. Percebendo essa tendência, a Transportes Aéreos Portugueses (TAP) se adiantou à concorrência e, há seis anos, abriu as primeiras rotas ligando a Europa diretamente ao Nordeste. A aposta deu certo. Atualmente, são 49 vôos semanais partindo de Lisboa e Porto e pousando em quatro capitais nordestinas – Salvador, Fortaleza, Recife e Natal. Os vôos vêm tendo ótima ocupação – média de 87% em 2006 – e a empresa já analisa novos destinos na região.
3. Infra-estrutura precária
A infra-estrutura brasileira teve avanços significativos nos últimos anos, mas é evidente que ainda há muito trabalho a se fazer. De acordo com 22,5% dos executivos e empresários ouvidos por EXAME, a reforma e a ampliação de aeroportos deveriam ser uma prioridade do governo. A recuperação da malha rodoviária foi citada como fundamental por 21% dos entrevistados. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Base (Abdib), o país precisaria de 87,7 bilhões de reais de investimentos anuais em infra-estrutura. Desses, 16,8 bilhões de reais deveriam ser direcionados aos transportes. Em 2006, apenas 38% desse total foi concretizado.
As estradas são importantes, em primeiro lugar, por terem papel fundamental no acesso dos turistas oriundos do continente sul-americano – com destaque para argentinos, paraguaios e uruguaios –, mas também para o trânsito interno de turistas intercontinentais. Pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) escolheu os 20 melhores trechos rodoviários do país. Dezessete estão sob comando de empresas privadas. Um resultado assim não acontece por acaso. Entre 1996 e 2005, as concessionárias investiram 10,5 bilhões de reais nos trechos que administram. Não há dados de investimentos nesses mesmos trechos quando ainda estavam nas mãos do Estado, mas as melhoras são evidentes.
Os portos também são essenciais para o desenvolvimento do crescente negócio dos cruzeiros marítimos, que hoje representa menos de 4% do turismo estrangeiro por aqui. Estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe-USP) mostra que esse setor avança com velocidade. Cresceu cerca 58% na última temporada e movimentou cerca de 245 milhões de reais, empregando 14 000 pessoas. "Se quisermos estar preparados para esse crescimento, serão necessários grandes investimentos", diz Leonel Rossi, diretor para assuntos internacionais da Associação Brasileira das Agências de Viagem (Abav). "Hoje, apenas Rio de Janeiro, Santos e Salvador têm portos razoáveis", afirma o executivo.