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Um Google para a sua empresa

Sistemas de busca corporativos capazes de encontrar informações no caos de dados das companhias prometem ser a próxima grande onda de inovação tecnológica
Germano Lüders
Lervik, da Fast: dados em tempo real
 
Por Ricardo Cesar  | 16.03.2007

Revista EXAME - 

"Eu não busco, eu encontro", é uma das mais famosas frases atribuídas a Pablo Picasso, que a teria usado para sintetizar sua facilidade de criar obras-primas. Se atuasse como executivo de uma grande empresa, contudo, dificilmente o pintor espanhol teria dito o mesmo, ainda que fosse um homem de negócios tão genial -- e imodesto -- quanto foi como artista. Achar dados dispersos pelos diferentes departamentos, armazenados em sistemas que nem sempre conversam entre si ou escondidos nos computadores espalhados nas mesas dos funcionários, é tarefa extenuante e nem sempre frutífera. À primeira vista, pode parecer um problema menor. Não é bem assim. Estima-se que o tempo médio gasto procurando informações -- na forma de relatórios, e-mails, planilhas e assim por diante -- seja o equivalente a 10% dos custos com salários de empresas que fazem uso intensivo de conhecimento, como as de mídia e tecnologia. Segundo a consultoria IDC, uma companhia americana desses setores que emprega 1 000 profissionais perde, em média, o equivalente a 5 milhões de dólares todos os anos procurando dados que deveriam estar à mão. É por isso que, depois da febre dos software de gestão empresarial e dos programas para gerenciar o relacionamento com os clientes, a próxima grande onda tecnológica que se desenha é uma espécie de Google corporativo, um sistema de interface simples -- apenas uma caixinha e um botão de OK --, mas poderoso o suficiente para encontrar as informações relevantes soterradas na montanha de dados que é, no fundo, toda e qualquer empresa.

É impossível não notar a ironia: a dificuldade de encontrar informações valiosas advém justamente da disseminação da informática no ambiente de trabalho. Hoje basta um simples comando para criar qualquer arquivo. Cada e-mail, cada mensagem instantânea, cada texto inserido num website é, a rigor, um novo documento. Fotos, vídeos e apresentações multimídia passeiam pela internet e pelas redes empresariais e são copiados e armazenados nos computadores. Estima-se que 20 bilhões de gigabytes de dados digitais tenham sido criados apenas em 2006. Para ter uma idéia do que isso significa, um DVD completo armazena 4,7 gigabytes. Peneirar a informação exata não é uma tarefa simples. E, como no caso da web, quem resolver o problema pode ganhar muito dinheiro -- haja vista a fortuna do Google, que ajudou a organizar o caos das mais de 12 bilhões de páginas que existem na internet. Numa conferência com líderes empresariais no ano passado, Bill Gates, o fundador e presidente da Microsoft, afir mou que os dispositivos de busca são "a última milha da produtividade".

Agulha no palheiro
Por que as empresas precisam de mecanismos de busca e por que isso é um desafio complexo
- Os dados das companhias estão dispersos em vários sistemas diferentes, que nem sempre conversam entre si
- Muitas informações importantes podem estar no PC de um funcionário, não em bancos de dados organizados
- Além de ser precisa, a busca deve considerar a hierarquia de quem procura as informações. Há dados que somente a alta direção pode acessar
- Um dos principais critérios de relevância usados na web — a quantidade de links de outras páginas que apontam para um documento — não funciona dentro de uma empresa

Grandes empresas, tanto internacionais como brasileiras, já começam a vasculhar o assunto. O laboratório Bristol-Myers Squibb usa um sistema da fornecedora americana Autonomy para garantir que equipes que desenvolvem medicamentos não refaçam etapas de pesquisa já realizadas e documentadas. Os relatórios enviados à Food and Drug Administration, órgão americano que regula o mercado de fármacos, também passaram a ser mais precisos, evitando atrasos no processo de aprovação. A operadora celular Vivo tem um departamento de inteligência que coleta informações sobre a empresa e os concorrentes, que vão de reportagens a balanços financeiros. Até recentemente, esses dados eram enviados em forma de apresentações ou planilhas a alguns executivos. Agora, eles podem ser consultados por todos os funcionários que tiverem acesso à intranet da empresa. Bastam algumas palavras em português e um clique do mouse. "Os dados estão disponíveis para os profissionais de negócios e marketing no momento em que eles necessitam", diz Daniel Baima, gerente de inteligência de mercado da Vivo. Petrobras, Ericsson, Pfizer e GE são outras empresas que investem pesado em projetos de busca corporativa.

Ainda não surgiu um Google do mundo empresarial, mas já há muitos candidatos. A Autonomy, representada no Brasil pela e-Office, é um deles. Outro é a norueguesa Fast, que começou com um site de pesquisas na web, mas hoje se dedica integralmente a ajudar companhias que precisam achar agulhas em seus palheiros. "As empresas perceberam que há um enorme valor nos dados dispersos por seus departamentos", diz John Lervik, executivo-chefe da Fast. A fornecedora, que tem capital aberto na bolsa de Oslo e faturamento de 163 milhões de dólares anuais, disputa um mercado que vai de 650 milhões a 1,5 bilhão de dólares anualmente, dependendo da metodologia e da definição adotadas. Ainda é pouco diante dos 30 bilhões de dólares movimentados pelas pesquisas na web aberta, mas a velocidade de crescimento é muito maior que em setores já estabelecidos, como ERP e CRM, só para mencionar duas siglas que fazem parte do dia-a-dia das grandes empresas.

É claro que o próprio Google também está de olho nessa oportunidade. O mercado empresarial ainda é uma parte ínfima do faturamento da gigante de buscas, que foi da ordem de 10 bilhões de dólares em 2006, e representa uma chance de diversificar as receitas. Mas reproduzir a eficiência conquistada na web dentro das redes empresariais está longe de ser algo simples. É preciso criar novos parâmetros de pesquisa. Uma das formas que o Google usa para determinar que resultados exibir é a quantidade de links existentes na internet que levam a determinado site. Quanto mais links apontam para um endereço, mais relevante ele deve ser. Só que dentro de uma empresa isso não funciona tão bem. Um documento importante pode estar guardado em sigilo, sem que haja indicações de sua existência espalhadas pela rede empresarial. Outro problema é que as grandes companhias gostam de comprar sistemas atrelados a contrato de serviços, como atualizações e suporte técnico, para garantir que seu funcionamento seja constante. Diferentemente dos tradicionais fornecedores de software empresarial, como Oracle e IBM, o Google não tem essa cultura. É preciso montar toda uma estrutura de serviços e de parceiros comerciais, um processo trabalhoso e que exige investimentos pesados. "Tradicionalmente, atuamos quase como uma empresa de mídia. Investimos em tecnologia de qualidade para atrair audiência para nossos serviços", diz Berthier Ribeiro-Neto, diretor de engenharia do Google Brasil. "Isso tem uma lógica. Distribuir produtos para companhias tem outra. Mas queremos estar nos dois mundos."

 
 
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