(Quase) como na Borgonha

Surgem no Brasil pequenos produtores que apostam no artesanato de vinhos
Por Ricardo Cesar  | 02.03.2007

Revista EXAME - 

Os amantes de vinhos podem ser divididos em duas esferas ideológicas -- a pragmática e a romântica. A primeira é formada por defensores da tecnologia e da produção em larga escala, combinação cujo resultado é um tipo de vinho moderno, sempre ao gosto dos maiores mercados consumidores. Os ídolos dessa turma são o influente crítico americano Robert Parker e o onipresente francês Michel Rolland, o mais destacado consultor globalizado do mundo. As regiões produtoras onde essa ideologia grassa são a Califórnia e a Austrália. Já o grupo dos românticos é formado pelos adeptos da produção artesanal, que empregam técnicas tradicionais de plantio e vinificação e acham que Parker e Rolland são responsáveis por uma padronização dos vinhos que ameaça antigas tradições. Esse pessoal tem entre seus mais fervorosos defensores os pequenos produtores italianos e franceses. Sua região-símbolo é a Borgonha, conhecida pela infinidade de pequenas vinícolas. Até recentemente, esse embate ideológico não existia entre os produtores brasileiros. Os fabricantes que dominam o mercado, como Salton e Miolo, são exemplares típicos do primeiro grupo (a Miolo usa os serviços de Rolland, por sinal). Nos últimos anos, porém, o pessoal pró-Borgonha começou a surgir. De forma discreta, apareceram no sul do país pequeníssimos produtores artesanais, que fazem quantidades muito limitadas de vinhos -- e a boa notícia é que alguns têm qualidade surpreendente.

O avanço dos pequenos
O que diferencia as microvinícolas das grandes produtoras do país
O que eles fazem Qual o resultado
Colhem e selecionam os grãos manualmente, enquanto as grandes usam máquinas sofisticadas Isso evita que galhos ou grãos defeituosos sejam fermentados por engano, melhorando a qualidade do produto final
Procuram um estilo de vinho que seja “natural” ao clima da região Os vinhos ganham características regionais e não são padronizados
Evitam uso excessivo de barris de carvalho na produção de seus vinhos As características da uva ficam mais evidentes e não são disfarçadas pelo gosto e pelo aroma de madeira
Supervisionam toda a vinificação São vinhos de autor, que levam a assinatura e a marca de quem produz

Em sua maioria, os novos produtores brasileiros são tão apaixonados por vinho que largaram tudo e decidiram estudar enologia para produzir os próprios rótulos. Enquanto uns sonham em sair da cidade para abrir sua pousada na praia, eles decidiram construir vinícolas. Foi o que fizeram o administrador de empresas Luís Henrique Zanini, da Vallontano; Werner Schumacher, da Quinta Ribeiro de Mattos, que durante 26 anos vendeu equipamentos e insumos para vinícolas, mas nunca havia produzido; o economista Álvaro Escher, da Cave Ouvidor; e o publicitário e fotógrafo profissional Marco Danielle, da Tormentas. Todos trabalham com poucos recursos, produção reduzida -- alguns não chegam a 300 garrafas anuais, menos de 1% do volume dos concorrentes de maior estrutura --, nenhuma verba de marketing e, em alguns casos, nem contam com distribuidores. Quem estiver interessado tem de entrar em contato direto para efetuar a compra. É preciso muita curiosidade e persistência para dar-se ao trabalho de descobrir esses vinhos e encomendar algumas garrafas.

O que diferencia esses produtores das vinícolas comerciais é que para eles o vinho não é apenas um negócio, mas um estilo de vida. Escher, da Cave Ouvidor, refugiou-se em um sítio sem eletricidade em Garopaba, em Santa Catarina, onde usa a rara uva peverella para produzir o branco Insólito, um dos vinhos que estão ganhando entusiastas nas rodas de especialistas. Seu método de produção é a antítese dos grandes projetos de Salton e Miolo. Alguns produtores, como Marco Danielle, da Tormentas, exigem que a seleção das uvas que serão vinificadas seja manual, grão por grão -- e não por meio de máquinas, como acontece nas maiores vinícolas. "Quero expressar o que o solo e o clima nos dão", diz Schumacher, da Ribeiro de Mattos. "Meu trabalho é artesanal, nunca vou competir com empresários que têm 700 hectares de vinhedos." O resultado são garrafas que, se ainda estão a anos-luz de ícones da Borgonha, como o Romanée-Conti, entusiasmam alguns conhecedores. Um deles, o músico Ed Motta, escreveu recentemente que o Insólito o "emocionou além da conta" e que o Minimus Anima, da Tormentas, é o tinto brasileiro de maior personalidade que já degustou.

Se os microprodutores brasileiros já começam a conquistar os especialistas, seu estilo nem sempre agradará bebedores habituados aos chilenos e argentinos que invadiram o Brasil na década de 90. Por recusar fórmulas modernas a que os consumidores estão acostumados -- vinhos muito concentrados, com uso intensivo de barris de carvalho e teor alcoólico elevado --, alguns produtos artesanais podem causar estranheza em um primeiro momento. A Villa Francioni, da região serrana de Santa Catarina, é vista como a com mais potencial para agradar ao grande público. A vinícola reúne uma produção extremamente caprichada com métodos modernos de vinificação, o que resulta em vinhos que se encaixam com mais facilidade no gosto popular. Outra vinícola que tem recebido muitos comentários favoráveis de especialistas é a gaúcha Dal Pizzol, espécie de precursora na fabricação de vinhos de qualidade no Brasil. Recentemente, o americano Jonathan Nossiter, autor do documentário Mondovino e notório defensor do jeitão da Borgonha, levou uma garrafa do Dal Pizzol Merlot da safra 1981 para que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, o degustasse às cegas (ou seja, sem que soubesse de que vinho se tratava). Boni, dono de uma das maiores adegas do país, chutou alto. "Ele achou que era um Saint-Emilion, uma sub-região de Bordeaux", diz Nossiter. Para um brasileiro que sonha em fazer vinhos como na Borgonha, ver seu produto confundido com um Bordeaux não chega a ser má notícia.

 
 
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