Revista EXAME -
Cada vez que um amigo faz sucesso", escreveu o americano Gore Vidal, "eu morro um pouco." A sensação descrita por Vidal tomou conta da patota formada pelos banqueiros de investimento brasileiros em janeiro. Muitos deles estavam dominados por uma obsessão -- descobrir qual foi o tamanho do bônus distribuído a seus colegas do Credit Suisse (CS). Pode-se dizer que ele foi alto, invejavelmente alto. O CS teve em 2006 um dos melhores anos da história dos bancos de investimento no Brasil, e a bolada prometia ser proporcional à imensa quantidade de negócios fechados pela instituição. Na segunda-feira 29, o sigiloso anúncio do bônus foi feito aos funcionários do banco, e os boatos começaram a se espalhar entre os concorrentes como fogo em capim seco. Segundo cálculos conservadores, o CS distribuiu cerca de 250 milhões de reais para sua equipe (cerca de 350 pessoas trabalham no banco). Se fosse pela média -- e não é numa instituição essencialmente meritocrática como o CS --, cada um deles receberia mais de 700 000 reais em bônus. Com essa estima tiva, queixos caíram e, principalmente, cotovelos doeram. "Deve ser o maior bônus da história do Brasil", diz um banqueiro.
Em 2006, o mercado brasileiro viveu a crista de duas ondas. A primeira foi a série de aberturas de capital e emissões de ações, a maior de todos os tempos no país. Foram 42 operações e um volume superior a 13 bilhões de dólares em ações vendidas, o dobro do ano anterior. A segunda onda foi a de fusões e aquisições, também a maior já vista. Ou seja, os bancos de investimento, cuja função é basicamente assessorar negócios como esses, tiveram trabalho de sobra. A comparação com a situação de quatro anos atrás impressiona. Em 2003, estima-se que o total pago em comissões aos bancos não passava de 150 milhões de dólares. Hoje, chega a 800 milhões de dólares. E nenhum banco de investimento ficou com uma fatia tão grande desse bolo quanto o Credit Suisse. No ano passado, liderou tanto o ranking de fusões e aquisições quanto o de emissões de ações -- e esse domínio é algo raro de acontecer. O CS participou de algumas das transações mais importantes do ano, como a aquisição da Inco pela Vale do Rio Doce e a fusão entre a Americanas.com e o Submarino, além de 23 emissões de ações. O banco suíço também enfiou os dois pés na área de administração de recursos ao comprar no final do ano a corretora Hedging-Griffo, quarta maior do país, por 295 milhões de dólares. Procurados por EXAME, os executivos do banco não deram entrevista.
| Como eles conseguiram |
| As características que levaram o Credit Suisse à liderança do mercado brasileiro |
| Aquisições bem-sucedidas |
| A compra do mítico Garantia, em 1998, é vista como a mais eficaz do mercado brasileiro. Recentemente, o Credit Suisse adquiriu o controle da corretora Hedging-Griffo, a quarta maior do país |
| Visão do mercado |
| O banco foi um dos primeiros a apostar na explosão do mercado de capitais, em 2004 — e fez mais de 30 emissões de ações |
| Gosto pelo risco |
| O Credit Suisse toma atitudes que seriam vistas com reserva por outros bancos, entre elas empréstimos a empresas prestes a emitir ações |
A explicação para o desempenho do Credit Suisse -- e para o tamanho do bônus de seus funcionários -- pode ser encontrada no DNA de sua subsidiária brasileira. Em 1998, o CS comprou o mítico Garantia (o banco de Jorge Paulo Lemann) e manteve sua cultura, baseada em dois pilares: o gosto pelo risco na condução dos negócios e a remuneração baseada no desempenho individual. Pode-se dizer, inclusive, que a união de CS e Garantia levou esses dois pilares a uma espécie de paroxismo. Entre os maiores bancos de investimento do mundo, o CS é tido como um dos mais agressivos e também é o que destina a maior fatia de seu faturamento à remuneração dos empregados (55% do total em 2005. A média do setor é 45%). "Os suíços herdaram funcionários competentes, acostumados a um ritmo elevado de trabalho e extremamente competitivos", diz Claudio Haddad, um dos ex-sócios do Garantia e atual presidente do Ibmec, uma das mais respeitadas escolas de negócios do país. A soma das duas culturas criou um ambiente de trabalho exigente ao extremo. Trabalha-se mais de 15 horas por dia, é obrigatório ir ao banco nos fins de semana e a competição interna é estimulada. "A gente tem a cultura do tubarão com sangue na boca", diz um funcionário do CS. "Quem traz mais dinheiro para o banco ganha mais." Quem traz menos ganha pouco e tem vida curta na instituição. Um funcionário ouvido por EXAME deixou o banco dois meses antes do anúncio do bônus porque o nível de tensão atingiu um patamar considerado insuportável.
Apesar do desgaste de materiais causado pelo excesso de trabalho, o estilo CS-Garantia tem se provado um sucesso nos últimos anos. No final de 2003, o banco foi um dos únicos a apostar que o mercado de capitais seria uma nova (e imensa) fonte de negócios -- e a estrutura do Garantia, com sua tradicional corretora e uma conceituada equipe de análise de empresas, dava à companhia condições de avançar nesse segmento. O presidente do CS, Antonio Quintella, contratou um velho conhecido do Garantia, o banqueiro José Olympio Pereira, que aumentou a equipe da área de investimentos de seis para mais de 20 pessoas. A aposta não rendeu frutos em 2004, mas o fluxo de mandatos começou a estourar no ano seguinte. Em 2006, o banco teve participação de mercado de 34% nesse segmento. Boa parte dos negócios realizados pelo banco desde então tem a marca do gosto pelo risco. Em alguns casos, os banqueiros pegam negócios vistos pelos concorrentes como arriscados demais. Um exemplo recente é a abertura de capital da Santos Brasil, que opera o maior terminal de contêineres do país. Antes da ida à bolsa, o Credit Suisse emprestou mais de 300 milhões de reais para que Daniel Dantas e mais dois sócios comprassem a fatia dos outros acionistas da companhia, uma operação complexa que ligava o pagamento de parte da dívida à possível valorização das ações depois do IPO. "Poucos bancos teriam estômago para fazer um negócio como esse", diz o diretor de um banco de inves timento. "Se o humor do mercado virasse, eles poderiam perder dinheiro."
No Brasil, o Credit Suisse disputa as primeiras posições palmo a palmo com seu maior rival, o também suíço UBS. Onde um está, o outro está logo atrás. Com a compra do Pactual, no ano passado, o UBS atingiu um porte comparável ao do CS -- e, curiosamente, comprou um banco com perfil semelhante ao do Garantia. "Garantia e Pactual têm a mesma origem e um estilo de atuação muito semelhante", diz o advogado Paulo Aragão, ex-sócio do Garantia. Os bancos suíços fizeram praticamente o mesmo número de emissões de ações em 2006, e apenas a Goldman Sachs está entre os dois no ranking de fusões e aquisições. "A compra do Pactual pelo UBS tem muito a ver com o sucesso do CS-Garantia", diz um concorrente. Além disso, os dois bancos entraram com força na área de administração de recursos -- o CS com a compra da Hedging-Griffo e o UBS com a área de asset management do Pactual.
O poderio do Credit Suisse no Brasil chama ainda mais a atenção quando se analisa o desempenho do banco no mundo. Nos rankings globais de fusões e aquisições e emissões de ações, o CS aparece longe das primeiras posições -- em sétimo ou sexto lugar. Isso faz as receitas no Brasil mais relevantes para o banco do que as operações locais dos concorrentes. Lá fora, a imagem do CS já foi arranhada quando a mistura de gosto pelo risco com prêmio ao desempenho individual atingiu um padrão explosivo. O mais grave episódio foi a condenação de Frank Quattrone, seu mais famoso banqueiro nos Estados Unidos, em 2004. Quattrone notabilizou-se como um dos protagonistas da bolha da internet -- foi ele o responsável por grande parte dos IPOs de empresas de tecnologia americanas. Estima-se que tenha ganho até 100 milhões de dólares por ano no final dos anos 90. Sua ascensão teve um final barulhento, quando, durante uma investigação sobre operações nebulosas com ações de empresas que levava à bolsa, enviou um e-mail à sua equipe sugerindo que destruísse documentos comprometedores. Foi condenado a 18 meses de prisão. Depois de uma batalha judicial, as acusações foram suspensas, e Quattrone anunciou recentemente que voltará ao mercado financeiro. O dano à imagem do CS, porém, estava feito. "Esse é o risco de momentos de euforia do mercado", diz um executivo com experiência no mundo das finanças. "O nível de seriedade dos negócios começa a baixar e a tolerância com conflitos de interesse começa a aumentar, já que todos correm para aproveitar a bonança antes que ela acabe." No Brasil, porém, o banco de investimento dirigido por José Olympio Pereira vem passando longe desse tipo de embaraço à reputação. O mesmo não se pode dizer do braço de gestão de fortunas da companhia. No ano passado, a operação de private banking do CS foi acusada pela Polícia Federal de lavagem de dinheiro e remessa ilegal de divisas ao exterior -- um executivo do banco chegou a ser preso. O caso ainda está na fase de investigações.
O grande desafio do CS é reflexo de uma velha regra do capitalismo: é difícil ganhar muito dinheiro sozinho por muito tempo. Os concorrentes preparam uma investida no mercado brasileiro, e o principal ataque, claro, virá do UBS Pactual -- que já começou o ano na dianteira das operações de abertura de capital. "Nossos dois bancos se complementaram", diz Rodolfo Riechert, diretor do UBS Pactual. "Agora, o Pactual tem acesso à estrutura global e ao financiamento do UBS, e vamos ficar ainda mais fortes." O primeiro lugar em fusões e aquisições é visto como o mais difícil de segurar. Ao contrário dos IPOs, essa não é uma área tradicional do banco no Brasil (o CS ficou em 17o lugar no ranking de 2005), e o desempenho em 2006 foi muito influenciado pela fusão mamute da Vale com a Inco. O maior ataque, porém, vai acontecer na rentável área de mercado de capitais, na qual todos os bancos pretendem investir. "UBS Pactual e CS largaram antes de todos e estão três voltas na frente", diz um concorrente. "Mas, a partir do segundo semestre de 2007, eles terão de disputar mandato a mandato com muito mais gente boa." Se a competição realmente se acirrar, é natural que as comissões pagas aos bancos nessas operações (cerca de 4% do total ofertado na bolsa) caiam com outros bancos que tentam se estabelecer, tornando as operações menos lucrativas para os atuais líderes. A esperança dos suíços é que o mercado cresça ainda mais e mitigue os efeitos do ataque da concorrência. Os primeiros sinais de 2007 mostram que essa esperança é fundamentada. CS e UBS Pactual já têm mais de 30 mandatos de emissões de ações na fila, um indício de que o mercado continua em expansão acelerada. Se esse crescimento se confirmar, é possível que o CS ganhe mais dinheiro do que no ano passado -- e, com isso, a inveja dos concorrentes demore ainda mais para passar.