Nas últimas décadas, a China conquistou o mundo com produtos inacreditavelmente baratos. Para isso, as empresas locais não precisaram fazer inovações espetaculares ou investir em fábricas no estado da arte. Bastou que elas explorassem um recurso até agora encontrado em abundância no país: a mão-de-obra de custo extremamente baixo. Com essa tremenda vantagem competitiva, a China literalmente arrasou mercados ao redor do planeta. Foi o que se viu, por exemplo, nos setores de calçados, eletrônicos e vestuário. Mais recentemente, é a indústria automotiva que se encontra em polvorosa diante da ofensiva de concorrentes que pagam a um operário menos de 2 dólares por hora, comparados aos mais de 30 dólares dos salários de gente que executa as mesmas funções nos Estados Unidos e na Europa.
O ciclo vertiginoso de transformações do capitalismo chinês, no entanto, reservou uma armadilha para o próprio país. A China cresceu tanto nos últimos anos que as indústrias locais e as multinacionais que lá investem estão tendo dificuldades para recrutar gente para vários setores, sobretudo nos cargos mais graduados. Parece um absurdo falar em escassez de braços num país com 1,3 bilhão de habitantes. A situação é mais surrealista ainda quando se considera a taxa de desemprego atual de 10% registrada nos centros urbanos. Mas é o que vem ocorrendo. Apesar do esforço impressionante do governo em melhorar a educação da população -- o investimento em 2004 foi de 50 bilhões de dólares --, a capacidade da potência asiática de formar gente qualificada não acompanhou o ritmo alucinante de sua evolução econômica. O resultado é que a elite da mão-de-obra vem sendo extremamente valorizada, o que a leva a trocar de emprego com muita velocidade, sempre por causa de propostas melhores. Esse cenário tem gerado um aumento médio considerável no custo do operário do país.
| Inflação trabalhista | ||
| O custo médio do salário dos empregados em algumas cidades do país | ||
| Renda média de um operário (por ano) | Aumento em 2005 | |
| Pequim | US$ 2 800 | 9% |
| Chengdu | US$ 1 500 | 10% |
| Wuhan | US$ 2 700 | 9% |
| Xangai | US$ 3 000 | 9% |
| Chongqing | US$ 1 800 | 11% |
| Guangzhou | US$ 3 400 | 8% |
| Suzhou | US$ 2 400 | 10% |
O "paradoxo chinês", como os especialistas apelidaram o fenômeno, vem sendo detectado em várias pesquisas. A consultoria Hewitt Associates, por exemplo, produziu um trabalho mostrando que o custo da mão-de-obra chinesa havia crescido 10% em média em 2005 (veja quadro ao lado). Um novo levantamento, conduzido pelo Bureau Nacional de Estatísticas da China, órgão de pesquisa do governo, revelou que o custo dos contracheques continua subindo no país. Segundo esse estudo, os salários aumentaram 14% no primeiro semestre de 2006. De acordo com os especialistas, não há sinais visíveis no horizonte de que essa onda irá arrefecer. "Estamos assistindo ao fim da era do trabalho barato", diz Hong Liang, economista do banco de investimentos Goldman Sachs na China.
As empresas têm se desdobrado para absorver os aumentos. Estudo do escritório da Câmara Americana de Comércio na China mostra que 48% das multinacionais no país reduziram as margens de lucro para evitar o reajuste dos preços de seus produtos. O que não se sabe é até quando elas suportarão essa situação. A pressão para repassar o aumento do custo de mão-de-obra para o consumidor tende a se intensificar nos próximos meses -- o que provoca arrepios nos quatro cantos do mundo. Um estudo do Citigroup mostra que, mesmo que aconteça lentamente, a subida dos salários pode pôr fim à principal vantagem competitiva dos produtos made in China que inundaram o mercado nos últimos anos. O gigante asiático não seria o único prejudicado. Segundo o trabalho, o fenômeno tem potencial para provocar aumento das taxas de inflação no mundo inteiro.
Nas cidades chinesas, cresce a cada dia o número de placas à procura de profissionais nas portas das fábricas. Na província de Guangdong, no sul do país, existem 2,5 milhões de vagas em aberto. Sobra trabalho em vários setores. Estima-se que a China tenha déficit de 100 000 especialistas em redes de computadores e escassez de 230 000 contadores. Nos próximos cinco anos, o país vai precisar de 75 000 novos gerentes -- hoje, tem apenas 5 000 profissionais qualificados para o ofício. Quando aparece uma pessoa com um bom currículo, o problema passa a ser o assédio da concorrência. De acordo com a Heidrick & Struggles, consultoria especializada em recrutamento, é comum uma empresa perder um terço dos funcionários durante o ano. Nas fábricas cujas produções são voltadas para a exportação, o índice de rotatividade chega a 50%. Gerentes talentosos trocam de emprego a cada 15 meses, atraídos por aumentos de até 100% no salário.
Para escapar desse círculo vicioso, as montadoras General Motors e Honda e a fabricante de celulares Motorola resolveram deixar as cidades mais desenvolvidas -- e caras --, como Xangai e Pequim, localizadas na costa do país, para desbravar o interior. Mudaram para cidades menores, onde os salários são mais em conta. Mas é apenas um paliativo, pois o custo da mão-de-obra no interior também vem crescendo. Outras multinacionais passaram a olhar com carinho para os demais países do Sudeste Asiático. A Intel é uma delas. Com 300 milhões de dólares para investir em uma nova linha de produção, a fabricante de processadores optou por Ho Chi Minh, no Vietnã. O motivo da escolha foi o diferencial de custo na produção.
O gargalo educacional é o principal motivo para a escassez de talentos. Um estudo da McKinsey revelou que apenas 10% dos recém-formados em áreas importantes têm formação suficiente para ocupar seu cargo. Tome-se como exemplo a engenharia, profissão escolhida por um terço dos alunos chineses. Do 1,6 milhão de jovens engenheiros, apenas 160 000 têm condições de trabalhar em grandes empresas. O maior problema, dizem os especialistas, é que as universidades chinesas dão ênfase à teoria em detrimento da prática e ensinam técnicas arcaicas aos olhos do mundo globalizado. Quem consegue se destacar em meio à multidão é disputado a tapa. Exemplo disso é o caso do engenheiro Jason Zhang. Formado há apenas três anos em Xangai, Zhang já mudou duas vezes de trabalho e quintuplicou seu salário. Atualmente, ocupa o cargo de programador da IBM. "É muito fácil encontrar um bom emprego em meu país", diz ele.
A médio e a longo prazo, outros fatores podem agravar ainda mais o déficit de mão-de-obra nas cidades. Um deles é a política adotada pelo governo chinês a fim de amenizar a miséria das famílias nas áreas rurais. O governo aumentou subsídios e diminuiu impostos cobrados dos pequenos agricultores. Resultado: hoje, 200 milhões de camponeses preferem viver nas zonas rurais a se submeter à dura vida nas metrópoles. Com isso, as indústrias se ressentem, no momento, também da falta de operários com baixa qualificação. Pior: a exemplo de gerentes e outros cargos mais altos, os operários começam a ficar mais valorizados por causa da escassez de gente nas fábricas. A evolução da taxa de natalidade no país é outro complicador. Desde o final da década de 70, o governo adotou a política que permite apenas uma criança por família. Em termos de contenção do problema da explosão populacio nal, a medida foi um sucesso. Mas, nos próximos anos, terá um efeito negativo. Um estudo do governo chinês mostra que a parcela da população economicamente ativa vai atingir o ápice em 2021 e, a partir de então, diminuirá.
O governo de Pequim já implementou algumas políticas para mudar o jogo. Para atender à demanda imediata por mão-de-obra qualificada, incentiva a volta dos 200 000 chineses que trabalham ou estudam no exterior. O governo de Xangai, por exemplo, ajuda na recolocação profissional e na busca por uma boa escola para os filhos dos trabalhadores que retornam ao país. Em outra frente, a China vai dobrar a verba da educação. Até 2010, serão investidos por ano 102 bilhões de dólares nos ensinos fundamental, médio e superior. O governo também estimula a parceria entre instituições chinesas e escolas consagradas dos Estados Unidos, como a Universidade Harvard. "O problema é que os resultados só serão sentidos em dez ou 15 anos", afirma Teresa Woodland, da Câmara Americana de Comércio. Enquanto isso, as empresas se viram como podem. Muitas buscam profissionais no exterior. Desde 2003, dobrou para 150 000 o número de estrangeiros que trabalham na China.
Apesar dos problemas, há pelo menos um aspecto positivo na falta de trabalhadores qualificados. A luta para manter os funcionários no emprego pode acabar com outro símbolo do mercado chinês de trabalho: as sweatshops. Por muitos anos, as "fábricas de suor" exploraram os funcionários em jornadas ininterruptas de até 16 horas num ambiente quente, barulhento e muito poluído. Hoje, como a população do campo é muito mais reticente a migrar para a cidade em troca de qualquer trabalho, as fábricas oferecem alguns benefícios, como sistemas de ar refrigerado e dormitórios modernos e razoavelmente limpos. Por causa disso, alguns analistas não são tão catastróficos na análise das conseqüências da inflação de custos trabalhistas. Segundo eles, a China apenas repete hoje o que já aconteceu em países como o Japão e a Coréia. A história mostra que, assim que começam a se desenvolver, essas nações abandonam produtos baratos e se concentram em itens que incorporam mais tecnologia. Dentro dessa lógica, a China estaria se preparando para entrar num novo capítulo de sua impressionante evolução econômica.
