Revista EXAME -
As reuniões que acontecem toda segunda-feira, às 7 e meia da manhã, na sede do grupo Pão de Açúcar, no bairro dos Jardins, na zona sul de São Paulo, são consideradas uma das principais tradições da empresa. Comandados pelo presidente do conselho de administração, o empresário Abilio Diniz, os encontros são chamados internamente de plenárias por reunirem cerca de 250 executivos, entre diretores e gerentes. Esses eventos sempre foram vistos como uma oportunidade para que os executivos ouçam diretamente de Abilio as diretrizes do Pão de Açúcar e se manifestem a respeito delas -- além, claro, das cobranças por melhor desempenho. Nos últimos tempos, vários membros dessa confraria passaram a se incomodar com um silêncio incomum de Abilio nas reuniões. Apesar de ele continuar sempre presente, quem passou a desempenhar o papel de coordenador dos encontros foi o presidente do grupo, o executivo paulista Cássio Casseb, que assumiu o posto no fim do ano passado. O comando das sessão é o sinal mais evidente do poder que Casseb passou a deter no grupo Pão de Açúcar.
É fácil entender por que a voz de Casseb soa com certo ruído nas reuniões. Ex-presidente da administradora de cartões de crédito Credicard e do Banco do Brasil, ele está empenhado em duas frentes: fazer a maior rede de supermercados do país voltar à antiga boa forma e combater o avanço dos concorrentes. Para isso, vem avançando como rolo compressor sobre o excesso de custos do Pão de Açúcar. Como em todo processo de enxugamento de despesas, os cortes têm sido grandes na folha de pagamento -- e Casseb optou justamente por atacar o topo da hierarquia do grupo. Cerca de uma centena de gerentes e dez diretores já foram demitidos (outros 20 executivos pediram demissão por discordarem da nova ordem na casa). Duas baixas recentes foram a de Cesar Suaki, diretor executivo comercial, e a do francês Jean Henri Duboc, diretor executivo da unidade hipermercados. Suaki, que antes da chegada de Casseb chegou a ser apontado como um dos possíveis candidatos a assumir a presidência do grupo Pão de Açúcar, aceitou convite para se tornar diretor-geral do negócio atacado do grupo mineiro Martins. Duboc, que antes havia passado pelo Carrefour, assumirá a partir de janeiro um cargo na matriz francesa do grupo Casino, sócio de Abilio no Pão de Açúcar. "O trabalho está insuportável. Todo mundo tem medo de ser demitido. Nos corredores, fala-se em redução de até 30% dos cargos de diretoria e de gerência", diz um diretor da área comercial.
| Choque de gestão |
| Principais medidas adotadas por Cássio Casseb na reestruturação do grupo Pão de Açúcar |
| Centralização de serviços As áreas como controladoria, marketing e tesouraria que existiam nas unidades Extra, Extra Eletro, Pão de Açúcar, CompreBem e Sendas foram unificadas para reduzir a duplicidade de funções |
| Corte nos níveis hierárquicos A empresa passou a ter dois níveis de diretoria, em vez dos três que existiam anteriormente. O objetivo é tornar as decisões mais ágeis e aproximar os gerentes do alto comando |
| Revisão nas estratégias de negociação Os compradores do grupo foram orientados a ouvir mais as propostas de fornecedores, em vez de brigar apenas pela redução dos preços |
| Renovação de pessoal Gerentes e executivos com mais de 15 anos de casa, com baixo desempenho, estão sendo demitidos para renovar a equipe e reduzir os salários, até 30% mais altos que a média do setor |
| Reforço em departamentos estratégicos Com a queda da margem de rentabilidade do setor de alimentos, ganham força as áreas com maior potencial de lucratividade, como bazar e eletrônicos |
Reestruturações de empresa, em geral, têm dois efeitos imediatos. O primeiro é a criação de uma poderosa indústria de boatos -- que fazem com que medidas do tamanho de uma marola sejam encaradas como tsunamis. Em entrevista a EXAME, Casseb garantiu, por exemplo, que não vai cortar 30% dos cargos de diretoria e gerência. "A parte mais pesada dos cortes já passou", diz. O segundo é um processo de satanização do executivo que lidera essas mudanças. A situação fica ainda mais difícil se esse profissional vier de fora do grupo. Naturalmente, o sentimento de corporativismo e de resistência às mudanças torna-se maior. O problema é que, muitas vezes, só um "estrangeiro" consegue enxergar o que realmente precisa ser feito para que a empresa retome o caminho do crescimento. "O Pão de Açúcar precisa evoluir", afirma Casseb. "Já prevíamos uma certa resistência, porque a companhia está num momento de transição para uma administração mais moderna. Como fui contratado para fazer a reestruturação, sou visto como o malvado."
Independentemente do nome que receba -- transição, reestruturação ou coisa que o valha --, a verdade é que o Pão de Açúcar precisava de uma mudança de orientação em sua gestão. Nos últimos cinco anos, a empresa teve um crescimento fabuloso, mas a lucratividade caiu. Desde 2000, o número de lojas aumentou de 400 para mais de 500 e o faturamento cresceu 80%, de 9 bilhões de reais para mais de 16 bilhões no ano passado. A expansão foi possível graças ao fôlego financeiro do grupo Casino, que se associou ao conglomerado brasileiro em 1999 e no ano passado fez nova injeção de capital ao assumir o controle acionário da empresa -- mesmo sem deter o cetro de controlador, Abilio continua no comando da operação. "O problema do Pão de Açúcar é que o grupo inchou demais com a política de aquisições dos últimos anos", diz o consultor de varejo Eugênio Foganholo. "As compras deram musculatura para a empresa tomar a liderança do Carrefour. Em contrapartida, a rede aumentou as despesas operacionais, que reduziram a rentabilidade do negócio." Segundo Foganholo, essa distorção é revelada pelo percentual do lucro líquido sobre o faturamento, que caiu de 4,4% em 2000 para 1,9% em 2005.
Além de cortar gastos, a redução no quadro de executivos teve outro propósito bem evidente: dar mais agilidade e organização ao processo de tomada de decisões da companhia. Até o final do ano passado, cada bandeira do grupo -- Pão de Açúcar, CompreBem, Extra, Extra Eletro e Sendas -- tinha autonomia para gerir de maneira independente áreas como controladoria, marketing e tesouraria. Ou seja, essas unidades funcionavam como se fossem empresas isoladas, o que gerava confusão e desperdício de oportunidades. Isso agora acabou. Todas as decisões são tomadas na sede do grupo por uma única equipe. Além da falta de unidade no comando, o excesso de aquisições deixou o organograma da empresa inchado. Antes de Casseb, havia três níveis de diretoria e dois de alta gerência. Agora, são apenas dois níveis de diretoria e um de alta gerência -- daí a expressão "batalha contra os feudos", utilizada por quem defendia as mudanças. Também foram tomadas algumas medidas simbólicas para mostrar que os tempos são de mais sobriedade nos gastos. Foi cortado um benefício que previa pagamentos de despesas pessoais dos executivos, com cobertura de até 20% do salário. Além disso, a frota de carros à disposição de diretores e gerentes está sendo substituída por veículos mais simples, e os gastos de celulares pagos pela companhia estão mais controlados.
| Os cinco maiores | |
| O grupo Pão de Açúcar lidera o ranking das principais redes de supermercados do país | |
| Redes | Faturamento(1) (em reais) |
| Grupo Pão de Açúcar | 16 bilhões |
| Carrefour | 12 bilhões |
| Wal-Mart | 11 bilhões |
| Cia. Zaffari | 1,5 bilhão |
| G. Barbosa | 1,2 bilhão |
| (1) Dados de 2005 Fonte: Abras | |
Parte do projeto de reestruturação do Pão de Açúcar foi inspirado num modelo criado pela Ambev -- e já tinha sido rascunhado antes da chegada de Casseb ao grupo. Um dos pilares desse plano é oferecer bônus polpudos a executivos que apresentem os melhores projetos de redução de custo. Graças a isso, a estrutura vem diminuindo a passos largos. Em dez meses, foram fechadas 20 lojas da bandeira Pão de Açúcar que apresentavam maus resultados. Uma atenção especial tem sido dedicada ao Rio de Janeiro, espécie de calcanhar-de-aquiles do Pão de Açúcar. Casseb acaba de nomear o executivo Jorge Herzog para comandar todas as operações fluminenses agrupadas sob a divisão Sendas Distribuidora -- que envolve Sendas, ABC CompreBem, Extra e Pão de Açúcar. Nos bastidores, comenta-se que a meta de Herzog é tentar fazer o que o grupo até hoje não conseguiu: aumentar a participação no mercado carioca e, sobretudo, recuperar o espaço que a bandeira Sendas tinha e perdeu para outras redes nos últimos anos. Desde 2001, a participação da Sendas encolheu de 18% para cerca de 7%.
Para dar uma chacoalhada na empresa, o choque de gestão de Casseb está combinado ainda a três outras estratégias operacionais: redução de preços, reforço em segmentos estratégicos e revisão no jeito de negociar com fornecedores. São elas que deverão sustentar o crescimento da rede em 2007. Os cortes de custos realizados até agora garantiram economia de 2% sobre as vendas -- ganho que será revertido para a redução dos preços nas lojas. "A estratégia é mudar a percepção do consumidor de que o preço dos produtos na rede é 15% mais caro que a média do mercado, embora esse percentual seja próximo de 3,5%", diz Casseb. Com relação ao reforço nos segmentos estratégicos, o grupo Pão de Açúcar deve dar cada vez mais espaço em suas gôndolas a produtos das áreas de bazar e eletrodomésticos -- cujas margens permitem maior rentabilidade do que a dos alimentos. A idéia é passar da atual proporção de 26% para 35% até 2010. A rede também vai investir forte em marcas próprias e venda de importados -- que devem quadruplicar em volume até o fim de 2008. Discretamente e apesar das resistências, Casseb tem conseguido avanços importantes. Mas, passados apenas dez meses desde sua chegada -- e em se tratando de uma empresa tão complexa como o Pão de Açúcar --, ainda é cedo para avaliar se as medidas conseguirão surtir os efeitos desejados.