Revista EXAME -
Após um período de grande efervescência, com o lançamento de ações de algumas das maiores companhias brasileiras, o mercado acionário do país começa a viver um novo ciclo -- talvez tão importante e emblemático como o primeiro. A bolsa de valores -- ora vista como alternativa de financiamento apenas para grandes empresas, ora como palco para a festa de especuladores -- passa a fazer parte da realidade de companhias menores. Nos primeiros dez meses deste ano, o faturamento médio das 18 empresas que lançaram ações foi de 346 milhões de reais -- um décimo da média registrada em 2004, quando a Natura abriu seu capital, dando início à temporada de IPOs, sigla em inglês de initial public offerings, ou "ofertas iniciais de ações". Caso esse movimento do mercado financeiro se fortaleça, confirmando previsão dos principais analistas do setor, 2006 entrará para a história como um trailer da próxima fase do capitalismo brasileiro.
A entrada de empresas médias no jogo do mercado acionário -- ambiente que exige regras de boa governança, transparência e comprometimento com resultados -- é um sinal de vigor econômico. Nos últimos dois anos, 23 bilhões de reais foram captados pelo setor produtivo na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) graças ao apetite dos investidores -- a maior parte deles estrangeiros. É dinheiro que foi parar na ampliação de parques fabris, na reestruturação de dívidas e no crescimento da produção. Um dinheiro de longo prazo, muito mais barato do que esse tipo de empresário estava acostumado a pagar.
| Evolução | |
| O tamanho das empresas que abrem capital vem diminuindo | |
| Enquanto o número de aberturas de capital cresce... | |
| 2004 | 7 |
| 2005 | 11 |
| 2006 | 23(1) |
| ...o faturamento médio das empresas cai (em milhões de reais) | |
| 2004 | 3409 |
| 2005 | 665 |
| 2006 | 346(2) |
| (1) Previsão (2) Até outubro Fonte: empresas | |
A abundância de investidores dispostos a apostar numa economia emergente como a brasileira, aliada a uma fartura de projetos de crescimento, explica por que a onda de IPOs perdeu pouco de sua força depois das turbulências do mercado financeiro internacional ocorridas em maio deste ano. Em 2004, houve apenas sete IPOs no Brasil. Em 2005, foram 11, e neste ano deve fechar com 23. Estimativas de analistas do mercado indicam que cerca de 30 companhias podem ingressar na bolsa em 2007 e outras 500 empresas têm condições de ir a mercado nos próximos dez anos. A bolsa de valores de Nova York, a maior e mais tradicional do mundo, tem 2 670 empresas listadas -- metade delas são pequenas e médias.
O maior atrativo do mercado de capitais ainda é o custo do dinheiro. Hoje, o juro médio de um empréstimo bancário para uma empresa que fatura cerca de 300 milhões de reais no Brasil gira em torno de 30% ao ano. O lançamento de ações -- mesmo considerando-se o custo de emissão, o pagamento de auditorias para examinar os balanços e a manutenção de uma área de relações com investidores -- fica bem abaixo disso. Os efeitos positivos na economia real já podem ser confirmados nas empresas que abriram o capital. A construtora Company, com sede em São Paulo, por exemplo, está usando parte dos recursos captados na bolsa para lançar um total de 800 milhões de reais em imóveis novos até dezembro, 78% mais que em 2005. A abertura de capital permitiu que a empresa ampliasse seu modelo de negócios, construindo imóveis também para a classe média, em vez de se concentrar apenas em empreendimentos de alto padrão. "Antes do lançamento de ações, como nosso acesso a financiamento era limitado, olhávamos apenas para a alta renda, porque esses clientes tinham mais condições de nos financiar, comprando seus imóveis antes da construção", diz Luiz Tolosa, diretor de relações com investidores da Company, uma das primeiras empresas médias a entrar na bolsa brasileira. Seu faturamento anual é de menos de 150 milhões de reais.
| Mudança de perfil | ||
| As diferenças entre uma empresa que abriu capital em 2004 e outra que estreou na bolsa neste ano | ||
| As empresas | ||
| All | Abyara | |
| Data da estréia | 25 de junho de 2004 | 27 de julho de 2006 |
| Faturamento(1) | 1,9 bilhão de reais(1) | 37 milhões de reais(2) |
| Valor de mercado | 10 bilhões de reais | 470 milhões de reais |
| Por que há mais empresas médias? | ||
| Elas têm mais interesse em abrir capital e, apesar da crise de maio, ainda há demanda por essas ações | ||
| (1) Em 2005 (2) Previsão para 2006 Fonte: empresas | ||
Os últimos meses foram importantes para tirar as dúvidas de quem ainda achava que a bolsa era um modismo passageiro, uma bolha que estouraria ao primeiro sinal de insegurança no mercado internacional. Coube à catarinense Datasul protagonizar um dos episódios mais relevantes da Bovespa neste ano. A fabricante de softwares foi a primeira companhia brasileira a abrir capital depois da turbulência de maio, quando o aumento do juro básico americano fez a Bovespa cair 10% em apenas uma semana e a impressão de que os investidores sairiam para não voltar ganhou força. O momento era péssimo. Apreensivos, banqueiros e empresários discutiam se ainda valeria a pena manter o cronograma de lançamento de ações. O fundo de capital de risco GP Investimentos adiou sua estréia no pregão, e a fabricante de motos e bicicletas Brasil & Movimento, dona da marca Sundown, cancelou de vez a operação. Ainda assim, a Datasul decidiu manter a oferta. A empresa só conseguiu atrair interessados vendendo suas ações pelo preço mínimo -- e, mesmo assim, as cotações caíram logo após o lançamento. Nos últimos 30 dias, porém, as ações da Datasul subiram 33%. "Esse caso mostrou que a crise não fechou a janela para novas aberturas", diz Caetano Fabrini, superintendente de mercado de capitais do banco Fator.
Após a Datasul, outras duas companhias com faturamento inferior a 200 milhões de reais ingressaram na bolsa: a consultoria imobiliária Abyara e a construtora Klabin Segall, ambas de São Paulo. "Esse deverá ser o tom do mercado daqui para a frente", diz o advogado Antonio Felix de Araujo Cintra, sócio do escritório Tozzini, Freire, Teixeira e Silva, que assessora aberturas de capital. "Teremos estréias mais modestas que no passado, mas a participação de empresas menores é certa." Os analistas apostam que alguns setores da economia irão preponderar nos lançamentos dos próximos meses -- as apostas recaem, principalmente, sobre as empresas de saúde e o agronegócio.
Passada a euforia dos dois últimos anos, o que atrai investidores mais sisudos, hoje, são empresas que conciliam um passado de resultados financeiros consistentes, perspectivas de crescimento e bons níveis de governança corporativa. "Existem dezenas de empresas de médio porte que reúnem essas características", diz Alexandre Bettamio, diretor no Brasil do banco suíço UBS, um dos líderes das aberturas de capital no país. Algumas delas já estão se preparando para ingressar na bolsa. A concessionária de rodovias Ecovias, que faturou 350 milhões de reais no ano passado, está concluindo os registros exigidos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e deve lançar ações nos próximos meses. Outras ainda estão se estruturando para ir a mercado -- é o caso do Centro de Medicina Diagnóstica Fleury, presente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e do laboratório farmacêutico Neo Química, de Goiás.
Apesar de ter ficado mais acessível, a abertura de capital não é uma saída para todas as empresas. O tamanho da oferta faz toda a diferença para o investidor. Lançamentos de menos de 200 milhões de reais são considerados arriscados pelos especialistas, porque limitam a participação de investidores institucionais, que costumam comprar grandes quantidades de ações. "A saída desses investidores pode derrubar os preços dos papéis", diz Vital Menezes, diretor de mercado de capitais do ABN Amro Real.
Para driblar o risco de ter baixa liquidez na bolsa, a solução encontrada por alguns empresários foi aumentar o número de ações vendidas no mercado. Foi o que fizeram a Datasul e a Klabin Segall -- hoje, seus donos controlam menos de um terço das companhias. Trata-se de um movimento inédito. Tradicionalmente, os empresários brasileiros sempre limitaram seus lançamentos de ações a 30% do total de papéis com direito a voto como forma de garantir o controle da companhia. "Percebemos que teríamos de mudar para fazer uma oferta superior a 300 milhões de reais e garantir a liquidez de nossa operação", diz Jorge Steffens, diretor- presidente da Datasul. "A estratégia foi distribuir 60% de nossas ações entre cerca de 2 000 acionistas, pessoas físicas e institucionais, na abertura de capital." Isso não significa, entretanto, que os controladores tenham aberto mão de comandar a empresa -- procedimento comum nos Estados Unidos, mas raríssimo no Brasil. Ainda estão com os fundadores, a família Abuhab, 26% do capital da Datasul, e os 14% restantes foram divididos entre os diretores da companhia. "Com isso, o controle da empresa continua centralizado", diz Steffens.