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Uma característica comum a todos os países em crescimento acelerado é o ritmo intenso de investimentos em obras de infra-estrutura. Nações como China e Índia vivem atualmente uma febre de construções de novas usinas hidrelétricas, portos, estradas, ferrovias e saneamento básico, num gritante contraste com o marasmo do setor no Brasil. Chineses e indianos têm motivos para comemorar -- e nós para ficar preocupados. Os serviços e produtos gerados pelos setores de infra-estrutura -- energia, petróleo e gás, transportes, telecomunicações e saneamento básico -- funcionam como órgãos vitais em qualquer sistema econômico. "Sem infra-estrutura, o Brasil literalmente pára", diz Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE). É aí que reside um dos pontos mais débeis da economia brasileira. De acordo com extenso estudo da consultoria McKinsey sobre os principais problemas que afligem a economia brasileira, a precariedade da infra-estrutura, fruto de décadas de descaso e pouco investimento, tornou-se uma das maiores barreiras ao crescimento do país. (Outros obstáculos à prosperidade -- a informalidade, as deficiências macroeconômicas e a insegurança jurídica -- foram temas de reportagens anteriores da série Caminhos para o Crescimento, que termina nesta edição.)
Não faltam indicadores para justificar o diagnóstico (veja quadro ao lado). Nos transportes, 70% da malha rodoviária brasileira está em condições ruins ou péssimas de rodagem. Esse é um dos principais motivos das perdas da produção de grãos, que chegam a 12% da safra de arroz e a 7% da de soja. No setor de saneamento, o retrato é igualmente desolador -- 27% das residências brasileiras não têm acesso a rede de tratamento de esgoto e 11% não têm água tratada, o que faz com que mais de 1 000 crianças sejam internadas diariamente pelo fato de viver sem boas condições sanitárias. Na área de energia, o alerta é máximo. Especialistas do setor e o próprio governo estimam que, para o país crescer 4,5% ao ano, será preciso adicionar desde já 4 100 megawatts de eletricidade ao ano -- sem isso, o risco de um novo apagão nos próximos anos é enorme. Um levantamento do Instituto Acende Brasil, que reúne investidores do setor energético, mostra que as usinas licitadas no ano passado somaram apenas 740 megawatts. "A incerteza sobre o fornecimento de uma coisa tão básica como energia diminui a competitividade do Brasil e afasta novos investimentos", afirma Heinz-Peter Elstrodt, sócio-diretor da McKinsey no Brasil. "Isso se traduz em menos crescimento e, conseqüentemente, menos bem- estar para a população."
Segundo o estudo da McKinsey, ainda é possível evitar os dois apagões que rondam a economia -- o de energia e o de transportes. O primeiro passo é fazer o diagnóstico correto do problema. "É fundamental que o governo entenda que é impossível resolver a infra-estrutura sem investimentos do setor privado", diz Paulo Fleury, diretor do Centro de Estudos em Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo a Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), o Brasil precisa investir 88 bilhões de reais a cada ano para equacionar os problemas. Estima-se que o governo investirá apenas 24 bilhões de reais neste ano -- e nada indica que esse montante crescerá significativamente nos próximos anos.