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Nos últimos dois meses um fenômeno curioso tem ocorrido no circuito dos empresários e altos executivos brasileiros. Apesar de ser o início do período mais aquecido da economia -- depois de uma Copa do Mundo e de um semestre cheio de feriados --, a maioria dos líderes das maiores companhias do país está "viajando". Explica-se: estar "viajando" é a melhor desculpa que eles encontraram para evitar a visita de um personagem peculiar, que costuma aparecer a cada quatro anos em sua ante-sala: o tesoureiro de campanha. Sempre delicado, o tema das doações eleitorais tornou-se especialmente difícil num ano pós-escândalo do mensalão, que arrastou para a beira do abismo a imagem de algumas empresas, acusadas de financiar campanhas políticas à base de caixa dois. Pesquisa realizada por EXAME com os 300 maiores doadores da campanha de 2002 mostra o tamanho dessa aversão. São companhias que fizeram doações públicas -- e legais -- na última eleição presidencial. Ainda assim, apenas 35% delas aceitaram responder a perguntas sobre as próximas eleições. Quase metade das empresas que responderam à pesquisa (43%) diz que não fará doações neste ano -- e 30% delas admitem que os recentes escândalos de corrupção influenciaram na decisão.
A mudança de postura de uma grande operadora de telefonia ilustra como o trauma do mensalão fechou portas para os políticos no mundo dos negócios. Depois de distribuir recursos não registrados em forma de pagamento de fornecedores e serviços nas eleições passadas, os executivos da operadora neste ano decidiram que não tirarão mais 1 centavo de seus cofres para patrocinar a eleição de quem quer que seja. A justificativa-padrão é que, como concessionária de serviços públicos, a empresa não pode fazer doações. Falando com a condição de não ter o nome revelado, seu presidente é mais sincero. "Não queremos mais nos envolver com esse tipo de coisa", diz ele. Mesmo entre os executivos que fazem doações registradas, legais e legítimas, há cada vez mais medo de falar publicamente sobre o assunto. "Se eu declaro agora que estou contribuindo, muitos candidatos vão bater na minha porta", explica um tradicional doador de campanhas. "Além disso, quem faz doação é estigmatizado. Vou declarar por respeito à lei. Mas já não fico à vontade para discutir o assunto."
Essa positiva mudança de cenário -- que inibe irregularidades comuns em campanhas anteriores --, somada à necessidade de dar uma satisfação à opinião pública, fez com que os dirigentes partidários tivessem um trabalho a mais nessa campanha: estruturar um esquema de arrecadação de recursos que, mais do que ser limpo, pareça limpo, afastando eventuais comparações com Delúbio Soares ou, mais remotamente, PC Farias. Para isso, a primeira providência dos caciques petistas e tucanos foi arregimentar pessoas que pudessem atravessar o período eleitoral sem provocar turbulências. Nenhuma das iniciativas foi 100% bem-sucedida. Do lado do PT, o prefeito licenciado de Diadema, no ABC paulista, José de Filippi Júnior, foi escolhido pela boa imagem como militante e administrador. Petista histórico e membro de comunidades eclesiais de base, Filippi até hoje contribui com o dízimo na paróquia que freqüenta e tem alta taxa de aprovação na cidade que administra. Mas viu-se em meio a uma polêmica logo depois de ter seu nome confirmado na função de tesoureiro da campanha, no início do ano. O Ministério Público de São Paulo anunciou que investigaria a origem de 183 000 reais usados por um tio, Mário Moreira, para pagar uma dívida de Filippi com a Justiça em razão de uma multa relacionada à propaganda da prefeitura de Diadema. Segundo o MP, a investigação, sigilosa, ainda não terminou. Mas Filippi diz que será inocentado.

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