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O petróleo e deles

| 21/09/2006

Novo golpe contra a Petrobras na Bolívia mostra como a empresa -- e o país -- tornaram-se reféns da política do PT

 

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Por Malu Gaspar e Ursula Alonso Manso

exame

Nas últimas eleições da Bolívia, diante da iminência da chegada ao poder de Evo Morales, os técnicos da Petrobras traçaram diversos cenários a respeito do futuro dos negócios da empresa no país. Esse trabalho foi discutido em reuniões do conselho de administração da companhia, com a participação da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Caso se confirmasse a previsão mais pessimista -- vitória de Morales e cumprimento integral da promessa de reestatizar o setor de energia --, o estudo antevia vida difícil para a empresa e pregava a adoção de medidas para não ser surpreendida com ações autoritárias por parte do governo boliviano. Tal conselho jamais foi levado muito a sério. Morales assumiu o poder contando com o apoio do presidente Lula e recebeu tratamento de parceiro comercial do presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli. O resultado está aí. Ao ignorar sinais óbvios de confusão à vista, o governo não apenas produziu o maior desastre de sua política externa. Ele também transformou a companhia em refém de uma situação complicada, sem alternativa de saída e com a perspectiva de um enorme prejuízo.

O primeiro grande ataque contra a Petrobras ocorreu em maio, quando Morales nacionalizou a indústria do petróleo e mandou o Exército ocupar as instalações da empresa. Agora os bolivianos decretaram que as duas refinarias da Petrobras no país deveriam entregar seu fluxo de caixa à estatal boliviana YPFB. Na prática, a medida transforma a empresa numa mera prestadora de serviços, depois de ter investido mais de 100 milhões de dólares no negócio. Com a nova regra, todo o faturamento das refinarias vai para os cofres da estatal boliviana. Ela irá deduzir as despesas e entregar de volta à companhia brasileira um lucro pela operação, cujo montante ainda vai ser definido -- pasmem -- unilateralmente no futuro. "Perdemos o controle do caixa", afirmou um perplexo Gabrielli ao tomar conhecimento do teor das medidas.

Mais uma vez, a exemplo da invasão das tropas em maio, o governo brasileiro foi pego de surpresa. O ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, reclamou por ficar sabendo do decreto pelos jornais bolivianos, e o chanceler Celso Amorim estava no único lugar do mundo onde não poderia estar. Numa agenda que retrata com exatidão as prioridades da atual política externa brasileira, Amorim encontrava-se em Cuba, no papel de observador da reunião do Movimento dos Países Não-Alinhados, cuja estrela, ironicamente, era o próprio Evo Morales. Diante das cobranças para uma reação firme contra o novo ataque à Petrobras, o presidente Lula desabafou num jantar com alguns empresários: "Que querem que eu faça, invada a Bolívia?" A resposta óbvia a tal indagação é não -- o Brasil não pode mesmo enviar tropas a La Paz para recuperar as refinarias. Mas é exatamente aí que reside o problema atual, a absoluta falta de alternativas do Itamaraty ante a afronta do país vizinho. Mais do que o reconhecimento de um desastre diplomático, a declaração presidencial mostra que a comédia de erros da política externa do país deixou o governo sem saída em relação ao problema.

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