Revista EXAME -
Há 20 anos, o pedaço do Brooklyn perto da ponte Williamsburg, em Nova York, era cheio de lixo e bandidos. Sem maldade, a única coisa realmente boa do lugar era sua vista para Manhattan. Foi para lá que se mudou, em 1984, o jornalista Steve Hindy, atraído pelo aluguel baixo. Hindy acabara de abandonar a carreira como correspondente de guerra da Associated Press no Oriente Médio. Ele queria cuidar dos três filhos num lugar onde os mísseis não passassem por cima da casa e cultivar um passatempo, a produção caseira de cerveja, cujos rudimentos aprendera com diplomatas americanos na Arábia Saudita, onde é proibida a venda de bebidas alcoólicas. O que era brincadeira virou um negócio. Com um sócio, o financista Tom Potter, e 500 000 dólares de investidores, Hindy criou a Brooklyn Brewery e venceu outro tipo de guerra -- a do mercado de cervejas num dos mais disputados territórios do mundo.
A Brooklyn Brewery entrou na lista das 40 maiores cervejarias americanas e não dá sinais de que vá sair. Como Hindy e Potter contam em seu livro Beer School ("Escola da cerveja", sem tradução no Brasil), um lançamento da editora John Wiley & Sons que virou sucesso entre os empreendedores americanos, a cervejaria é prova de como pode dar certo algo que, em princípio, tinha muitas razões para dar errado. Os sócios não eram do ramo. Num setor que exige capital intensivo, eles não tinham dinheiro.
Hindy e Potter estão num mercado que só cresce. Cem anos atrás havia nos Estados Unidos 2 000 cervejarias. Com a Lei Seca, o mercado se afunilou até chegar a 100 companhias. Recentemente, o número subiu para 1 450. O crescimento da população dá espaço para mais. No ano passado, as microcervejarias e pubs com produção própria venderam nos Estados Unidos 7 milhões de barris, 9% mais que em 2004, com faturamento de 4,3 bilhões de dólares. Hindy e Potter apostaram num mercado no qual há muitos pequenos, mas é difícil entrar no pedaço em que estão brigando os grandes e tornar-se um deles.
Como isso foi possível? Um dos segredos do sucesso da Brooklyn Brewery foi associar-se ao lugar onde nasceu. Nova York fez um trabalho de recuperação de zonas deterioradas e de erradicação do crime -- o programa Tolerância Zero. Hindy e Potter se engajaram na revitalização do Brooklyn. Até hoje, a cervejaria abre as portas para clientes e amigos às sextas-feiras e para visitação aos sábados, o que fez dela um ponto de encontro. Entre outros eventos, promove uma feira livre e um festival de hip hop no verão. A empresa beneficiou a comunidade e foi por ela beneficiada, quando seu logotipo -- desenhado por Milton Gleiser, criador da célebre maçã que simbolizou a campanha de renovação da cidade -- valorizou-se com a revitalização do Brooklyn, para onde se mudaram muitos artistas e empresários.
Hindy descobriu que suas qualidades como correspondente serviam para muita coisa. "A determinação para conseguir uma história é semelhante à requerida num negócio", diz. No livro, ele afirma que a distância que o jornalista mantém do assunto de sua reportagem, um método para não perder a objetividade, também é semelhante à necessária para tomar as melhores decisões. E, segundo Hindy, sempre há a possibilidade de que o produto ajude a fazer do mundo um lugar melhor, como ele acreditava que suas reportagens faziam.
Hindy conheceu Potter num parque. Eles corriam e jogavam golfe juntos. Potter não achava que uma cervejaria no Brooklyn fosse assim tão bom negócio, mas gostava de beber a cerveja na casa do amigo enquanto viam jogos de beisebol. Simpatizou mais com a idéia quando viu os números do crescimento das microcervejarias nos Estados Unidos. Definiram a sociedade em termos simples. Hindy seria o vendedor, o homem de marketing, o relações-públicas. Potter, o gerente, o homem dos números, o captador de recursos. Combinaram que o poder seria dividido meio a meio e estabeleceram condições claras pelas quais um deles poderia sair, para que uma eventual separação não prejudicasse a companhia.
Uma das lições do livro: monte uma equipe sólida. Na Brooklyn Brewery, ela começou a ser formada com um mestre cervejeiro respeitável, importante não só na produção como para dar credibilidade ao plano apresentado aos investidores. Outra adição importante foi a de um advogado capaz de lidar com a Máfia, problema bem maior do que hoje em Nova York. Era preciso motivar os funcionários. Para isso, os dois sócios investiram no orgulho da empresa. Assim, o marketing é embasado na participação em festivais de música e eventos de degustação, aplaudidos pela mídia. A inauguração da sede própria em 1996, com a presença do então prefeito Rudolph Giuliani, foi vista como sinal efetivo da importância da cervejaria.
Com dois anos de vida da empresa, distribuidores de outros estados começaram a procurar a Brooklyn Brewery. Uma distribuidora própria foi montada e mais tarde vendida por 10 milhões de dólares para remunerar os investidores. Como o comprador se tornou sócio, Hindy e Potter embolsaram o dinheiro, sem perder o sistema que haviam criado. Os primeiros investidores na Brooklyn Brewery receberam quatro vezes o valor investido. Em 2004, Potter vendeu sua cota de ações com direito a voto. Saiu rico. Hindy, que continua na empresa, resume: "Isso é o que eu chamo de um final feliz".
| O que não pode faltar na receita |
| As lições do jornalista Steve Hindy e do financista Tom Potter para construir um negócio de sucesso |
| 1 - Acordo pré-nupcial Divida o capital e o poder entre os sócios, mas crie regras para que um possa comprar a parte do outro |
| 2 - Fique bem acompanhado Mostre seriedade aos investidores, montando uma equipe com especialistas e um bom advogado |
| 3 - Invista no orgulho Motive os funcionários. Isso começa por entusiasmá-los com a qualidade do próprio produto |
| 4 - Cubra todas as frentes As pequenas ações de marketing são tão importantes quanto as grandes investidas publicitárias |
| 5 - Seja objetivo e realista Não se deixe apegar demais à sua criação. É possível que no futuro você resolva vendê-la |