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Todo ano, a cena se repete na época de colheita da safra agrícola: caminhões carregados de grãos fazem fila nos maiores portos do país. É a face mais visível de uma das principais deficiências da infra-estrutura brasileira -- a falta de armazéns para guardar a safra. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil tem hoje capacidade para armazenar 109 milhões de toneladas de grãos, ante uma produção prevista de 121 milhões de toneladas na safra 2005/2006. Esse descompasso faz com que os caminhões funcionem como uma espécie de silo sobre rodas. "A situação é preocupante. Estamos em alerta", diz Denise Deckers do Amaral, superintendente de armazenagem e movimentação de estoques da Conab. Segundo ela, o ideal é que a capacidade total seja 20% superior à safra.
As conseqüências dessa deficiência na armazenagem não se restringem ao congestionamento em direção aos portos. Quem mais perde é o próprio produtor rural. Sem ter onde guardar a safra, ele acaba ficando sem condições de barganhar melhores preços pelo produto colhido. "Assim que termina a colheita, a maioria dos agricultores precisa correr para vender a produção, independentemente do preço que esteja vigorando no mercado", diz Luiz Antonio Fayet, consultor de logística de transporte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O produtor perde também pelo aumento dos custos de transporte, conseqüência direta da precariedade na silagem. "Como todos os agricultores têm de escoar o produto na mesma época do ano, acabam competindo pelo serviço dos caminhões. Isso faz o preço do frete disparar na época da colheita", diz o analista Antonio Sartori, diretor da corretora Brasoja, de Porto Alegre.
A situação dos produtores também é agravada pela distribuição geográfica dos silos existentes. De acordo com a Conab, apenas 11% da capacidade de armazenagem do país está instalada dentro das propriedades rurais. Ou seja, não apenas faltam silos, como os que existem estão, em sua enorme maioria, longe dos locais de produção. Embora esse índice esteja em crescimento -- há cinco anos, somente 5% dos silos encontravam-se nas fazendas --, ainda está muito longe do ideal, que é de pelo menos 25%. Nos Estados Unidos, país que tem estrutura para abrigar um volume superior a duas safras, 65% dos silos e armazéns se encontram nas fazendas. Para o produtor, ter um sistema próprio de armazenagem é a melhor maneira de maximizar receitas e minimizar custos. Ele consegue evitar picos de oferta, reduzir custos com o frete e melhorar a renda. Também pode separar os grãos convencionais dos transgênicos, uma exigência cada vez maior do mercado devido ao avanço das plantas geneticamente modificadas.