Recordista em títulos mundiais e em tempo de permanência no topo do ranking da Fifa, a seleção brasileira de futebol agora vem se tornando também um fenômeno fora dos campos. O prestígio esportivo do escrete ajudou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a transformar o time numa máquina de fazer dinheiro. No ano passado, entre contratos de patrocínio, cotas de amistosos e vendas de direitos de transmissão, a seleção amealhou cerca de 35 milhões de dólares. É o equivalente a cinco vezes o faturamento registrado em 1994. A pouco mais de dois meses do início da Copa da Alemanha, a CBF se prepara para aumentar ainda mais suas receitas. Nas próximas semanas, a entidade deve fechar um contrato com uma multinacional da área de licenciamento para a fabricação e a venda de produtos com a grife do time. O acordo vai render 2 milhões de dólares, além de royalties pelos itens vendidos. "A seleção é hoje o produto de marketing do futebol mundial que mais se valoriza", afirma Marcelo Campos Pinto, diretor executivo da Globo Esportes, braço da emissora que cuida da compra e da venda de direitos de transmissão. Muito mais significativo do que as cifras envolvidas é o movimento por trás delas. O futebol se transformou num grande negócio -- com seus altos e baixos -- no mundo desenvolvido. No Brasil, onde os clubes não conseguiram acompanhar esse movimento, a seleção talvez seja o único exemplo de paixão aliada a resultados financeiros.
Mais da metade da receita anual da seleção é garantida por três grandes contratos de patrocínio -- com a marca de material esportivo Nike, a cervejaria Ambev e a companhia de telefonia celular Vivo. Outra fatia importante do faturamento vem das cotas pagas ao time pelos amistosos disputados no exterior. Nesse caso, vem sendo também registrado aumento substancial de valores ao longo dos últimos anos (veja quadro abaixo). O jogo mais caro da história aconteceu em março deste ano, quando a federação russa pagou 1,5 milhão de dólares para ver as estrelas comandadas pelo técnico Carlos Alberto Parreira enfrentar a seleção local, no Lokomotiv Stadium, em Moscou. É quase o equivalente ao cachê de um show de estrelas do rock, como os Rolling Stones e o U2.
| A multiplicação dos lucros | ||
| Depois da conquista do tetracampeonato na Copa de 1994, os valores envolvidos nos negócios da seleção deram um salto formidável | ||
| 1994 | 2005 | |
| Patrocínios (em dólares) | 3,4 milhões | 26 milhões |
| Cota média por amistoso | 150 000 dólares | 800 000 dólares |
| Direitos de transmissão por amistoso | 400 000 dólares | 600 000 dólares |
Os direitos de transmissão de cada uma das partidas disputadas pela seleção são vendidos pela CBF à Rede Globo, que tem contrato de exclusividade para os canais abertos. A emissora paga 600 000 dólares por evento à entidade. No ano passado, por exemplo, a equipe disputou quatro amistosos e recebeu da emissora o total de 2,4 milhões de dólares. Até mesmo os pe ríodos de treinos e concentrações são usados hoje para aumentar os lucros da CBF. Nas semanas que antecedem a estréia na Copa da Alemanha, a seleção vai receber 1,2 milhão de dólares para se hospedar no luxuoso Park Hotel Weggis, na região de Lucena, na Suíça. O pacote inclui a realização de dois jogos-treinos no país.
A transformação do mundo da bola num negócio milionário, ocorrida na década de 80, ajudou a seleção a atingir o atual patamar de faturamento. Graças à sua hegemonia nos gramados, o time alcançou patamar privilegiado de visibilidade no mais popular e globalizado esporte do planeta. Isso gerou a multiplicação de valores de todos os negócios que envolvem a seleção. O time se beneficia também por reunir hoje uma série de craques internacionalmente consagrados. Principal estrela da equipe, Ronaldinho Gaúcho é considerado o jogador com maior valor comercial do mundo, segundo estudo divulgado em março pela consultoria alemã BBDO. O trabalho avaliou que a imagem do meia da seleção brasileira e do Barcelona vale atualmente 47,6 milhões de euros. Na lista dos dez mais da BBDO, aparece ainda outro brasileiro, o atacante Ronaldo, cotado a 29,8 milhões de euros.
Como administradora da seleção, a CBF tem aproveitado esse cenário favorável para fechar bons acordos comerciais. "Até a década de 80, o time era sustentado por verbas do governo", afirma Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Aos poucos, as estatais foram sendo substituídas por empresas privadas, como a Pepsi. Os valores dos contratos de patrocínio alcançaram novo patamar quando a Nike se tornou parceira da seleção, em 1996. Até hoje a multinacional americana contribui com parte substancial do faturamento da equipe: são 12 milhões de dólares por ano. O contrato acaba de ser renovado até 2018. Uma cláusula prevê bônus de 6 milhões de dólares em caso de vitória nos mundiais de 2010, 2014 e 2018. Além do direito de ser a fornecedora de material esportivo do time, a Nike pode explorar a imagem da seleção em uma série de produtos. No mês passado, por exemplo, a empresa lançou uma linha de quatro relógios com as cores e o escudo da seleção. Cada modelo custa cerca de 600 reais.
O aumento do faturamento do time brasileiro nos últimos anos veio acompanhado de uma série de denúncias de irregularidades nos principais contratos firmados por Ricardo Teixeira. Os negócios foram alvo, nos últimos anos, de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), uma no Congresso e outra no Senado. O relatório final das investigações, divulgado em 2001, apontou indícios de 17 crimes envolvendo os principais dirigentes do futebol brasileiro, como evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. O Ministério Público Federal deu prosseguimento às investigações, mas os processos ainda não foram concluídos. No mês passado, surgiu mais um problema. O promotor Rodrigo Terra, do Ministério Público do Rio de Janeiro, pediu o afastamento do presidente da CBF por causa de possíveis irregularidades ocorridas na venda de ingressos no Brasil para os jogos da seleção na Copa do Mundo da Alemanha. A CBF indicou para realizar a comercialização a agência de turismo Planeta Brasil e outras três operadoras que pertencem ao empresário Wagner Abrahão, do Rio de Janeiro. Segundo denúncias de alguns consumidores, as empresas só estariam vendendo os ingressos mediante a compra de pacotes de viagem para a Europa. "Isso fere os direitos do torcedor, e o presidente Ricardo Teixeira, que deveria garantir transparência e agilidade à venda dos ingressos, deve ser punido pela situação", afirma Terra. O pedido de afastamento do cartola da seleção por causa do imbróglio ainda não havia sido analisado pela Justiça até o fechamento desta edição. Como se vê, ainda falta muito para que o negócio seleção brasileira atinja o patamar de excelência que seus jogadores mostraram nos gramados ao longo da história.