EXAME
Bill Gates, fundador, principal acionista e arquiteto-chefe de software da Microsoft, enviou recentemente um e-mail a todos os funcionários da companhia. Intitulada "Serviços de software pela internet", a mensagem aponta uma mudança radical no negócio de venda de programas de computador. A fortuna da Microsoft foi feita com a venda de programas a grandes empresas e de software pré-instalado nos micros. Agora, segundo Gates, a publicidade online e as assinaturas podem ser uma maneira alternativa de distribuir e obter receitas com software. "Essa 'onda de serviços' causará rupturas", escreveu Gates. "Temos concorrentes que vão aproveitar essa oportunidade para nos desafiar, mas temos uma chance clara de ser os líderes."
Quando Bill Gates fala, o mundo da tecnologia costuma escutar com atenção. O problema é que, mais uma vez, ele falou por último. Há dez anos, outro e-mail de Gates usava metáforas marítimas para alertar sobre o maremoto da internet. Na época, a Microsoft estava acossada pelo crescimento da Netscape e pela explosão da web, e a mensagem foi vista como uma reação tardia -- embora depois vitoriosa. Agora, diante do sucesso de empresas como Google, Yahoo! e Salesforce.com, Gates finalmente reconhece a importância desse novo modelo de vendas para a indústria de software. Quem se senta diante do computador usa cada vez mais programas que não estão instalados em seu micro, mas em algum servidor na internet. Uma busca no Google, por exemplo, envolve um programa complexo, que roda em milhares de computadores e está em constante evolução. Mas seu uso é gratuito -- as receitas publicitárias pagam a conta. Hoje as verbas de anunciantes na web somam cerca de 15 bilhões de dólares, mas esse valor pode ser multiplicado por 10 até 2015.
O movimento para transformar o software em um serviço, também conhecido como Web 2.0, já é realidade há algum tempo. Até o memorando de Gates, porém, era praticamente ignorado pela Microsoft. Não é para menos. Dos 39,8 bilhões de dólares que a empresa faturou no último ano fiscal, a imensa maioria veio do modelo antigo, especialmente das licenças de uso do sistema Windows e do conjunto de programas Office. Os primeiros passos no mundo dos serviços são cautelosos. A empresa vai lançar no ano que vem, em sistema de testes e apenas nos Estados Unidos, um serviço chamado Office Live, espécie de sucessor do portal MSN. A versão gratuita será baseada em publicidade e permitirá que pequenas empresas tenham contas de e-mail e ferramentas para a construção de sites. Haverá também uma versão paga, sem anúncios e com mais recursos. Mas, apesar do nome, o Office Live não será uma versão online de programas como Word e Excel. "A idéia é que os serviços complementem o software que os usuá rios têm no PC", diz Osvaldo Barbosa, diretor do MSN no Brasil.
Concorrentes consideraram o anúncio dos serviços e a mensagem de Gates uma jogada de marketing. Marc Benioff, fundador da Salesforce.com, uma das mais bem-sucedidas empresas de aluguel de software pela internet, respondeu com outro memorando. Disse que a Microsoft está diante da obsolescência de seu modelo de negócios e que os serviços, em vez de Live (vivo), deveriam ser batizados de Dead (morto). A empresa de Benioff, fundada em 2001, oferece sistemas para as empresas gerenciarem a relação com consumidores, chamados CRM. Em troca de uma mensalidade, os clientes acessam o programa pela internet. Em apenas cinco anos, o faturamento subiu de 5 milhões para 175 milhões de dólares.
| A corrida da Microsoft | ||
| Como na briga com a Netscape, a empresa saiu atrasada na oferta de serviços pela web. Confira algumas das novidades anunciadas pela Microsoft e o que os concorrentes já oferecem | ||
| Iniciativa |
Microsoft
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Concorrentes
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| Software pela Web | Vai oferecer via internet programas para pequenas empresas, como e-mail, construção de sites e CRM | A Salesforce.com lançou a idéia há quatro anos e domina o mercado de CRM para pequenos negócios |
| Publicidade | O software pela web vai ser pago com receitas de publicidade | Google e Yahoo! saíram na frente e detêm a maior parte das receitas publicitárias online |
| Personalização | Lançou uma página que pode ser personalizada pelo usuário, com webmail, notícias e antivírus | Já existem diversos sistemas similares, inclusive o dos competidores diretos Google e Yahoo! |

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