Buscar

Olá, .

Sair

Para usar o Portal EXAME você precisa estar autenticado

Entrar
 
 

Avalie a reportagem:

 

  •    
  •    
  •    
  •    
  •    
Fraca
Boa
Excelente

Média dos usuários

Fraca
Boa
Excelente

Perigo dentro de casa

 | 28.11.2005

Uma pesquisa exclusiva mostra como as empresas perdem recursos com fraudes cometidas por seus próprios funcionários

 

Publicidade

Por Camila Guimarães

EXAME 

Logo depois de assumir o comando da TV Cidade, no início de 2004, o engenheiro Marcos Henrique Costa estranhou a falta de documentos sobre algumas operações adquiridas em sete pequenas cidades na Região Norte do país. "Eu não encontrava registro de clientes, contas emitidas, faturas de serviços de manutenção, nada", diz Costa. Ele decidiu então enviar um executivo para descobrir pessoalmente o que estava havendo. O telefone não demorou a tocar com a notícia: não havia rede nenhuma naqueles lugares. "As empresas supostamente compradas por milhões de reais simplesmente não existiam", diz ele. A missão entregue a Costa pelos acionistas -- os fundos HMTF, Laif e os grupos Silvio Santos, Bandeirantes e Diários Associados -- era salvar as contas da empresa de TV paga, internet e transmissão de dados que atua nas regiões Sudeste e Nordeste. O mercado vivia uma profunda crise, e a TV Cidade, endividada em 200 milhões de reais, havia sido declarada insolvente pela gestão anterior. "Aos poucos, apareceram indícios de que não se tratava apenas de erros de administração", diz Costa. "Além das empresas fantasmas, apareceram contratos de compras com preços totalmente fora do mercado e outras coisas estranhas."

Depois de uma investigação feita pela empre sa especializada Kroll, ficou claro que, por trás da deterioração financeira, havia um esquema gigantesco de fraude e corrupção envolvendo funcionários de diferentes departamentos e níveis hierárquicos. As perdas foram calculadas em, no mínimo, 45 milhões de reais, sem contar os 600 milhões investidos desde o início da operação, em 1999, que nunca deram lucro. O caso da TV Cidade é um exemplo extremo de uma tendência preocupante no Brasil. Fraudes, roubos e corrupção não são problemas restritos apenas a figurões de Brasília ou ao noticiário político. Casos em que empresas são usadas por funcionários para fins ilícitos não são incomuns. Uma pesquisa elaborada pela consultoria Ernst & Young com exclusividade para EXAME ouviu executivos de 145 companhias brasileiras com faturamento médio anual entre 250 milhões e 1 bilhão de reais. Mais da metade dos entrevistados afirmou ter descoberto pelo menos uma fraude interna nos últimos cinco anos. A pesquisa mostrou ainda que, em 46% dos casos descobertos, o prejuízo não foi recuperado. "Na percepção das empresas, a possibilidade de ocorrência de fraude é remota", diz José Francisco Compagno, sócio da área de investigação e suporte a litígios da Ernst & Young no Brasil.

Quantificar as perdas é outro desafio ainda não transposto pelos especialistas. Há pouquíssima transparência nesse quesito. Mesmo entre as empresas de capital aberto entrevistadas, os prejuízos não costumam ser relatados aos acionistas. De acordo com a pesquisa, apenas 29% delas lançam esse tipo de perda nos balanços. Segundo cálculos da Ernst & Young, as empresas brasileiras perderam em torno de 4,8 bilhões de dólares com fraudes em 2004. A Kroll estima que, no mundo todo, o prejuízo some algo em torno de 300 bilhões de dólares. São muito raros, porém, os casos que vão parar nos jornais, como o célebre escândalo da Enron em 2001. Também são raros os casos como o da americana Bausch & Lomb, que declarou no balanço de outubro perdas que podem chegar a 22 milhões de dólares devido a fraudes internas na subsidiária brasileira, que fabrica lentes de contato. De acordo com denúncias de um funcionário, os acusados teriam embolsado mais de 5 milhões de dólares destinados ao pagamento de impostos. Foram demitidos o gerente-geral da empresa e o diretor da área de controladoria, além de outros funcionários. Procurada por EXAME, a subsidiária da Bausch & Lomb não se pronunciou.

Os dados da pesquisa da Ernst & Young mostraram que, em 79% dos casos, a iniciativa de cometer a fraude nasce da porta para dentro. "São os funcionários que conhecem os detalhes das operações e sabem como burlá-los", afirma Eduardo Gomide, presidente da Kroll do Brasil. Uma vez perdida a confiança depositada no pessoal, pode ser impossível recuperá-la. No caso da TV Cidade, ao longo dos dois últimos anos -- depois da instauração de mais de 20 inquéritos policiais --, Costa demitiu 100% dos empregados da empresa. Todos, da diretoria aos técnicos de manutenção. "Eu não podia confiar mais em ninguém", diz ele. Com funcionários facilitando a prática de crimes, não foi difícil contagiar também quem estava fora da empresa. As investigações mostraram que, durante vários anos, foram forjados contratos com fornecedores -- superfaturados, evidentemente. De acordo com Costa, os valores estavam inchados em 70%. Como exemplo, ele cita o sistema que emite as contas dos usuários, que custou à TV Cidade cerca de dez vezes o valor médio de mercado. Um dos problemas mais sérios descobertos pelos investigadores da Kroll acontecia com fornecedores de serviços de manutenção da rede. Foram desviados 22 000 clientes de internet banda larga para provedores clandestinos. Assim como no caso dos funcionários, todos os fornecedores também tiveram de ser trocados. Com essas medidas, a TV Cidade conseguiu reverter seu resultado operacional -- de 16,6 milhões de reais negativos em 2000 para 21,3 milhões em 2004. "Foi o primeiro resultado positivo que os acionistas viram em quatro anos", diz Costa. Com a volta de números equilibrados e a renovação de pessoal, a preocupação agora é recuperar a imagem da empresa. "Estamos pensando em mudar o nome da marca e até de endereço", diz ele. Como mostra a pesquisa da Ernst & Young, casos como o da TV Cidade, em que a corrupção vem à tona e é punida, são uma exceção. A regra, por enquanto, ainda lembra um pouco as CPIs de Brasília.


 

Links Patrocinados

 
 
 

Copyright © 2008, Editora Abril S.A. -
Todos os direitos reservados. All rights reserved.