A solução para salvar os negócios de um dos ícones da indústria automobilística americana é fugir dos Estados Unidos. Assim pode ser resumido o plano de emergência que a GM anunciou no fim de novembro para tentar reverter uma das mais profundas crises de sua história. Nos próximos dois anos, a empresa deve fechar dez linhas de montagem, nove delas em solo americano. Com o fim dessas fábricas, serão demitidos cerca de 30 000 funcionários -- o equivalente a 10% de sua força de trabalho. Ao colocar em prática esse plano, a montadora tenta romper o ciclo de insucessos que se abateu sobre seu negócio. A GM, que já deteve mais da metade do mercado de automóveis nos Estados Unidos, deve fechar 2005 com sua pior participação na história: 26,4%. Enquanto isso, os gastos com aposentadoria e seguro-saúde dos operários americanos não param de aumentar. Neste ano, já somam 4 bilhões de dólares. A combinação entre vendas declinantes e custos crescentes com a mão-de-obra produziu a catástrofe financeira da qual a GM tenta agora escapar. "A situação era insustentável", afirmou a EXAME Peter Zion, da consultoria Stratfor, referência na área de análises econômicas. O exemplo da GM deve ser seguido em breve pela Ford, outra congênere em situação difícil. Seu prejuízo acumulado no ano é de 1,2 bilhão de dólares. O fechamento de fábricas nos Estados Unidos e a demissão em massa de operários devem fazer parte de seu plano de ajuste, previsto para ser divulgado em janeiro de 2006.
O plano de emergência da GM e as dificuldades de outras montadoras são a faceta mais visível de um fenômeno estrutural da economia americana: o intenso processo de desindustrialização. Há uma clara tendência de diversos setores industriais de desativar as linhas de produção nos Estados Unidos. Nas últimas décadas, setores como o têxtil e o de tecnologia transferiram boa parte de suas unidades para o Oriente, sobretudo China e Índia. Com isso, conseguiram fazer frente ao desafio de competir com seus pares asiáticos, cuja mão-de-obra chega a ser dez vezes mais barata do que a americana. A Nike, maior empresa mundial de acessórios esportivos, foi uma das pioneiras dessa diáspora. Logo no início dos anos 90, a empresa transferiu suas fábricas para a Malásia. A manobra permitiu a redução de custos e a manutenção do preço dos calçados na faixa dos 100 dólares. Se tivesse permanecido em solo americano, o valor médio do produto não sairia por menos de 300 dólares, estima a companhia. Dell, IBM, Intel, GE e Gilette, entre outras, seguiram o exemplo da Nike. De maneira geral, permaneceram nos Estados Unidos somente as unidades de pesquisa, desenvolvimento, marketing, finanças, logística e design dessas empresas. "O computador Dell, o tênis Nike e os aviões Boeing continuam sendo desenvolvidos por americanos. Mas isso não significa que tenham de ser produzidos por eles", afirmou a EXAME o professor de economia José Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, um dos maiores estudiosos desse fenômeno.
O processo de transferência de fábricas para outros países, no entanto, não deve ser entendido como um sinal de fraqueza dos Estados Unidos. Há perdas de empregos e dificuldades em recolocar essa massa de trabalhadores, mas o fato é que o processo de desindustrialização é um sintoma de vigor das economias modernas. Em geral, essa mudança de perfil ocorre quando a renda per capita atinge 10 000 dólares (a americana chegou a esse patamar na década de 60). Nesse estágio, abastecida com a maior parte dos bens de consumo, a população passa a desviar seus gastos para o setor de serviços. "Nenhum americano vai comprar uma dezena de geladeiras, não importa quão rico ele seja", diz Palma. O resultado é que, nos últimos 30 anos, a participação da indústria no produto interno bruto (PIB) americano caiu de 32% para 19%. No mesmo período, o setor de serviços cresceu de 60% para 80%. Fenômeno semelhante vem ocorrendo no Japão e nos países mais desenvolvidos da Europa.
| Mudança de perfil | |||
| Enquanto a participação da indústria pesada no PIB americano caiu nos últimos 30 anos, houve crescimento substancial do setor de serviços no mesmo período | |||
| Participação no PIB | |||
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Indústria
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Serviços
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Agricultura
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| 1975 |
32%
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60%
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8%
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| 2005 |
19%
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80%
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1%
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| Fontes: Fiesp, Bureau of Economic Analysis e CIA World Factbook | |||