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Como escolhemos os modelos

Em sua sexta edição, o GUIA DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA reflete a evolução da responsabilidade social no país
Por Cynthia Rosenburg  | 30.11.2005

Revista EXAME - 

Simon Zidek, presidente da AccountAbility -- organização internacional que promove a ética e a transparência na prestação de contas das empresas --, afirma que as companhias preocupadas em adotar práticas de negócios responsáveis costumam passar por estágios clássicos em seu aprendizado. Um deles é o defensivo: a empresa se preocupa com o comportamento ético somente depois de ser criticada publicamente por práticas inadequadas. É o que aconteceu, por exemplo, com a Nike, que passou a promover boas condições de trabalho em sua cadeia de suprimentos depois de ter sido alvo de escândalos nos anos 90. Algumas companhias evoluem para o estágio gerencial, no qual os executivos responsáveis pelas operações começam a adotar estratégias que vão além da mera conformidade. Poucas empresas, porém, atingem o estágio estratégico, no qual a responsabilidade social está completamente integrada à visão de negócios e se transforma em vantagem competitiva.

No ponto mais alto da responsabilidade social, as empresas se antecipariam a demandas da sociedade, buscando nesse processo o apoio de outros parceiros, como governos e organizações da sociedade civil. Uma declaração recente de Jeffrey Immelt, presidente mundial da General Electric (GE), dá uma idéia do tamanho dessa ambição. Em meados de 2005, a GE anunciou que vai investir 1,5 bilhão de dólares por ano num programa de desenvolvimento de tecnologias limpas. O objetivo é fazer com que todos os produtos da empresa -- de lâmpadas residenciais a turbinas de aviões -- tenham o menor impacto possível no meio ambiente. "Ao se voltar para novas preocupações globais -- como a escassez de água ou a necessidade de encontrar fontes renováveis de energia --, a GE poderá contribuir para a solução desses problemas e, ao mesmo tempo, encontrar novas oportunidades de crescimento", declarou Immelt na ocasião.

A popularidade das boas práticas
Veja algumas das principais estatísticas das empresas inscritas no guia em 2005
Governança
94%
possuem conselhos de administração, com auditoria independente
92%
contam com sistemas formais para a avaliação dos membros do conselho
Transparência
58% auditam as informações sobre os aspectos sociais e ambientais
50% afirmam comunicar de maneira transparente a estratégia da empresa
30% elaboram balanço social todos os anos
Funcionários
73% empregam moradores das regiões em que operam
60% possuem processos formais de promoção da diversidade
Meio ambiente
76% têm um profissional da área de meio ambiente
50% promovem a reciclagem de resíduos após o consumo
33% declaram identificar riscos ambientais relacionados ao negócio
Fornecedores
58% declaram saber como fornecedores tratam questões relacionadas aos direitos humanos e ao meio ambiente
51% incluem a responsabilidade corporativa na avaliação de fornecedores
Governo
34% contribuem regularmente para projetos executados pelo governo
20% prevêem punições a funcionários envolvidos em corrupção de agentes do governo

As seis edições do GUIA EXAME DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA são um retrato da maneira como o tema responsabilidade social vem evoluindo no Brasil. Uma das principais mudanças na pesquisa deste ano reflete um aspecto importante desse aprendizado. Até o ano passado, as empresas participantes da pesquisa eram convidadas a descrever os projetos sociais apoiados ou desenvolvidos por elas em suas re giões de atuação. Neste ano -- com o objetivo de ressaltar que a responsabilidade social é uma forma de gestão, e não diz respeito somente ao investimento na comunidade --, as companhias foram chamadas a descrever suas práticas de administração no relacionamento com todos aqueles que interagem com elas -- funcionários, fornecedores, consumidores e clientes, entre outros. A resposta dada a esse chamado -- mais de 1 000 práticas foram inscritas -- mostra que as empresas no país evoluíram consideravelmente no entendimento do que é a administração responsável.

Empresas-modelo
Neste ano, 222 empresas de todos os portes e regiões do país participaram do levantamento do guia EXAME, realizado em parceria com o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Essas companhias responderam a um questionário baseado na versão 2005 dos Indicadores Ethos. O questionário de 34 perguntas é dividido em sete temas:

* valores e transparência
* relacionamento com funcionários
* meio ambiente
* fornecedores
* consumidores e clientes
* comunidade
* governo e sociedade.

As respostas apontam, entre outros aspectos, o nível de integração das empresas com os diversos públicos, o tratamento dado à transparência e à comunicação nesses relacionamentos e a adoção de práticas de negócios voltadas para a promoção da sustentabilidade -- entendida como a necessidade de buscar resultados do ponto de vista não somente econômico-financeiro, mas também social e ambiental.

As 30 companhias com melhor pontuação no questionário foram analisadas por um grupo formado por alguns dos maiores especialistas nacionais em responsabilidade social empresarial. Nessa análise -- que envolveu também uma avaliação do conjunto das práticas de gestão descritas por essas empresas -- pesaram critérios como a integração da responsabi lidade social à gestão e o entendimento dos princípios do desenvolvimento sustentável. Com base nessa avaliação foram apontadas as dez empresas-modelo desta edição do GUIA DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA. É importante ressaltar que o número de práticas de gestão inscritas não foi um critério na escolha -- e, sim, a qualidade das ações.

Em 2005 -- assim como já havia acontecido no ano anterior -- não foi escolhida uma representante das pequenas empresas, uma vez que nenhuma delas atingiu a pontuação necessária para fazer parte da lista.

Destaques regionais
Com o objetivo de dar visibilidade a empresas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul do país, o guia aponta todos os anos destaques regionais. Os critérios adotados na escolha desses destaques são os mesmos das empresas-modelo. Neste ano, não houve destaques para as regiões Norte e Centro-Oeste, uma vez que as companhias dessas regiões não atingiram a pontuação mínima necessária.

Os números do Guia 2005
222 empresas de todo o país responderam ao questionário baseado nos Indicadores Ethos 2005
10 empresas foram apontadas como modelo em responsabilidade corporativa cinco delas são controladas por grupos brasileiros
2 empresas uma do Nordeste e outra do Sul foram apontadas como destaques regionais
Mais de 1 000 práticas de gestão foram descritas em sete categorias 13 dessas práticas foram escolhidas como destaque
1 empresa esteve presente nas seis edições do GUIA EXAME DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA: a Natura

As notas
Veja a comparação entre as notas médias das dez empresas-modelo e das 222 empresas inscritas nesta edição do guia
Empresas modelo
Empresas inscritas
Valores e transparência
8,6
6,9
Funcionários
8,2
5,9
Meio ambiente
9
5,8
Fornecedores
7,9
4,3
Consumidores/clientes
9,2
7,3
Comunidade
8,1
7
Governo e sociedade
5,5
4,5
Nota média
8,1
6

Práticas de gestão
As cerca de 1 000 práticas de gestão inscritas pelas empresas participantes foram analisadas por uma equipe de instrutores do Uniethos, parceiro educacional do Instituto Ethos. Desse total, cerca de 400 ações alcançaram a pontuação mínima exigida e foram classificadas para constarem desta publicação. Alguns exemplos de possíveis práticas em cada uma das sete categorias são descritos a seguir:

Valores e transparência:
* Políticas relacionadas à adoção de compromissos éticos na organização -- como a elaboração de manuais de condutas éticas ou a adoção de um sistema de auditoria interna para a verificação dessas condutas na prática.
* Boas práticas de governança corporativa, como o tratamento justo aos acionistas minoritários ou a participação de conselheiros independentes no conselho de administração.
* Elaboração de um balanço social ou documento semelhante.

Relacionamento com funcionários:
* Adoção da gestão participativa.
* Existência de políticas e programas voltados para a promoção da diversidade no ambiente de trabalho.
* Programas voltados para saúde, segurança e desenvolvimento profissional.

Meio ambiente:
* Gerenciamento do impacto no meio ambiente e do ciclo de vida de produtos e serviços.
* Programas internos ou externos de educação ambiental.

Relacionamento com fornecedores:
* Adoção de critérios de responsabilidade social e ambiental na avaliação de fornecedores
* Controle do trabalho infantil ou do trabalho forçado na cadeia produtiva.
* Apoio ao desenvolvimento de pequenos fornecedores.

Relacionamento com consumidores /clientes:
* Transparência na política de comunicação comercial.
* Conhecimento e gerenciamento dos danos potenciais de produtos e serviços.

Relacionamento com a comunidade:
* Gerenciamento do impacto da empresa nas regiões de entorno.
* Envolvimento com a ação social.

Relacionamento com o governo e a sociedade:
* Transparência nas contribuições para campanhas políticas e adoção de práticas anticorrupção e antipropina.
* Apoio ou participação em projetos sociais governamentais.

A análise dos instrutores envolveu critérios como a clareza de objetivos na condução da prática, a existência de indicadores de resultados, a inovação e o impacto das ações nos negócios. Com base na pontuação, foram apontadas 13 práticas de destaque, que o leitor conhecerá no site do Guia de Boa Cidadania Corporativa.

 
 
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