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Para entrar na Rússia, é preciso ter estômago

 | 29.11.2005

Nos dias que correm, todo mundo parece fascinado pela China. Recentemente, minha empresa formou uma
joint venture com os chineses, mas planejamos investir na Rússia também. Que oportunidades o senhor vê ali? (Pergunta feita por um executivo britânico)

 

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Por Por Jack Welch
Com Suzy Welch

EXAME 

Para fazer negócios na Rússia com a necessária tranqüilidade é preciso ter estômago e capacidade para enfrentar riscos. O nível de oportunidades no país é elevado, mas a possibilidade de decepções é igualmente grande. Talvez possamos dizer o mesmo em relação à China. A questão é que, na comparação com a China, a Rússia possui menos pontos positivos.

Em primeiro lugar, o que a Rússia tem de bom? Bem, é verdade que o país é muito menor que a China -- a população chinesa já ultrapassou a casa do bilhão, enquanto a Rússia conta 140 milhões de habitantes. Por outro lado, o mercado russo é maior do que o de qualquer outra nação européia, sem falar no Japão. Não há dúvida de que há algum tipo de transformação econômica em andamento na Rússia. O crescimento do PIB local alcançou médias superiores a 6% anuais nos últimos seis anos. Compare-se esse valor com os percentuais da França ou da Alemanha. Em relação à renda pessoal, os ganhos foram superiores a 12%. O responsável por todo esse crescimento é o colossal estoque de reservas naturais do país: madeira, minérios e, principalmente, petróleo. O fato é que a Rússia possui um volume de petróleo de tal magnitude que pode torná-la não apenas auto-suficiente em energia, mas também um exportador de peso. O quadro fica sombrio, porém, quando consideramos outros aspectos. Cerca de um quarto da economia russa se desenvolve na informalidade, em meio a um emaranhado de corrupção e em franca hostilidade a todo tipo de regulamentação que possa tornar o ambiente de negócios limpo e transparente. Sempre fizemos críticas ásperas à regulamentação, marca registrada da burocracia. Contudo, para um investidor externo, não há exemplo de país que contrarie mais essa idéia do que a Rússia. É sem dúvida muito difícil fazer negócios em um país que não tem regulamentação alguma.

A Rússia, é óbvio, não combate a ilegalidade. Já na China deparamos com um verdadeiro batalhão de piratas. Muitos países estrangeiros que tentaram fazer negócios em solo chinês foram impedidos (ou submetidos a coisa pior) pelo que poderíamos considerar como violações flagrantes da lei da propriedade intelectual. A ilegalidade na China, porém, seria mais ou menos sub-reptícia se comparada à da Rússia, o que, para nós, é um (pequeno) sinal de que é menos tolerada oficialmente.

Duas outras comparações entre Rússia e China merecem rápida menção. A primeira diz respeito às atividades industriais. Na China, elas prosperam, enquanto as fábricas russas continuam atoladas numa situação de precariedade lamentável herdada do comunismo. Simplesmente não houve investimento significativo que as catapultasse para o século 21. Enquanto isso, na China novas fábricas surgem aqui e ali voltadas para o futuro.

A segunda comparação remete à questão da estratificação social. Há muito di nheiro na Rússia, mas a distribuição da riqueza não mudou quase nada desde a época dos czares. Algumas pessoas têm fortunas imensas, ao passo que a maior parte da população, sobretudo a que vive na vasta zona rural do país, tem muito pouco. Praticamente inexiste uma classe média. A China, por sua vez, conta com mais de 100 milhões de consumidores -- número que não pára de crescer e é quase a população total da Rússia. Cada vez mais, o poder de compra dessas pessoas tornará possível a consolidação de uma economia sadia e sustentável.

Não queremos, porém, passar a idéia de que a Rússia não vale a pena e a China é o que há de melhor para os negócios. Os dois países atravessam um período de grandes transformações. A Rússia está tentando criar um misto de capitalismo e democracia, embora recorra a uma estratégia totalitária para enfrentar a ilegalidade e o flagelo do terrorismo. Os chineses estão criando uma forma de sociedade sem paralelo anterior: uma economia regida pelo mercado (isto é, livre), dentro de uma superestrutura comunista que restringe a liberdade pessoal. Quem sabe no que isso vai dar daqui a dez anos? E daqui a 50 anos, então? Contudo, se pararmos para analisar friamente a situação, veremos que a China tem algumas vantagens adicionais para o investidor externo. Para começar, o território chinês é quase dez vezes maior que o russo. Em segundo lugar, a cultura chinesa é mais empreendedora. Por experiência pessoal, constatei que há na China um número maior de pessoas do que na Rússia que estão dispostas a vencer -- são indivíduos criativos, ousados e ambiciosos. Em terceiro lugar, a base de exportação da China é mais atraente em razão de sua vasta capacidade instalada e de seu avanço tecnológico.

Por fim, e talvez seja este o aspecto mais importante de todos, os chineses estão voltados para as indústrias do futuro: eletrônica, equipamentos médicos e outras formas de tecnologia. Depois do petróleo, as principais indústrias da Rússia estão no setor de construção de máquinas e de metalurgia. São áreas que parecem estar mais em sintonia com o passado do que com o futuro. São esses os motivos pelos quais minha empolgação pela Rússia é menor do que o entusiasmo que temos pela China. Seja como for, sua empresa não está errada em querer investir na Rússia. Talvez seja uma decisão muito inteligente. O tempo dirá. Quanto à China, o tempo já mostrou que vale a pena investir no país. Em um mercado global como o de hoje, ninguém pode ignorar os chineses. Já o mesmo não se pode dizer da Rússia, ainda que a economia do país esteja em expansão. Contudo, se você dispõe dos recursos que lhe permitem absorver o risco de fazer negócios com os russos, por que não?

(Jack e Suzy Welch são autores do best-seller internacional Paixão por Vencer. Para fazer perguntas aos autores, escreva para agendadolider@abril.com.br)

 
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