Seja para abrir uma churrascaria, seja para fabricar aviões, qualquer empresário que ambicione entrar no mercado chinês deveria ler One Billion Customers -- Lessons from the Front Lines of Doing Business in China ("Um bilhão de consumidores -- lições da vanguarda dos negócios na China", ainda inédito no Brasil), do jornalista americano James McGregor. Correspondente do Wall Street Journal em Pequim nos anos 80 e 90, McGregor viu de camarote o desabrochar do capitalismo chinês. Fluente em mandarim, ele presenciou tanto a criação das mais irresistíveis oportunidades de negócios iniciadas no governo Jiang Zemin quanto a maratona de obstáculos produzidos por burocratas e lobistas com o intuito de infernizar a vida dos forasteiros dispostos a vencer no país. Isso para não falar da pirataria e da corrupção que fazem o mensalão tupiniquim parecer coisa de criança. Misto de reportagem com manual de negócios, o livro narra as investidas, os percalços e os resultados obtidos por grandes corporações, como a IBM, o banco Morgan Stanley e o grupo de mídia News Corp., do bilionário Rudolph Murdoch. McGregor oferece também uma inspirada lista de ensinamentos como este: "Em geral, os executivos que vêm à China têm muito boa vontade, muita confiança e pouquíssima paciência".
Munido de muito sangue-frio, foi só em 1997, quatro anos depois de comprar por 1 bilhão de dólares a rede Star TV, de Hong Kong, que o ultraconservador Murdoch conquistou a confiança do Ministério da Propaganda chinês. O capítulo dedicado a ele é uma bela lição da cultura e etiqueta chinesas. Segundo McGregor, a China é ambivalente com os ocidentais. Por um lado, graças à sua cultura milenar, os chineses consideram todos os demais povos "uns bárbaros". Por outro, padecem de doloroso complexo de inferioridade infligido pelas invasões européias e japonesa da era moderna. Para lidar com tamanha sensibilidade, McGregor recomenda que os ocidentais demonstrem sincera simpatia e tentem minar a mentalidade chinesa de que em qualquer negócio há sempre um lado perdedor.
Pois em 1993, pouco antes de comprar a Star, Murdoch entrou para a lista negra do PC chinês ao afirmar que a revolução tecnológica das comunicações seria "uma clara ameaça aos regimes totalitários". Mas, diante da oportunidade de agarrar um mercado de centenas de milhões de telespectadores, ele resolveu amaciar a língua e cortejar a liderança do PC, que o mantinha na geladeira. Aconselhado por sua segunda mulher, a chinesa Wendi Deng, Murdoch contratou um exército de lobistas e chegou a doar milhões de dólares à fundação filantrópica liderada pelo filho do então primeiro-ministro Deng Xiaoping. No entanto, o sinal verde do PC só veio após um humilhante batismo de fogo. Um ansioso Murdoch finalmente obteve uma audiência com o czar da propaganda Ding Guanzen, na faraônica praça da Paz Celestial. Os dois tiveram uma conversa trivial, em que o empresário elogiou a grandeza da China e ouviu a seguinte pergunta de Guanzen: "Soube que o senhor virou cidadão americano para operar sua rede de TV nos Estados Unidos. Será que estaria disposto a virar cidadão chinês para entrar no negócio de televisão na China?" Depois de alguns segundos de mudo constrangimento, ambos caíram na risada. Foi assim que Murdoch ganhou a permissão para criar a primeira rede regional de TV chinesa, em parceria com o governo. Ironicamente, Murdoch ensinou o regime totalitário de Pequim a controlar a tecnologia e a censurar o conteúdo de TV por satélite, como é o caso da Star.
Mas pouco antes de o livro de McGregor sair nos Estados Unidos, irritado com o que considera "paranóia" chinesa, Murdoch declarou que seus negócios na China tinham batido de frente com "uma muralha de pedra". Isso porque, ao contrário do que sinalizara anteriormente, Pequim recusou seu pedido para expandir a Star para a região noroeste do país. Até agora, Murdoch ainda não recuperou o que investiu. Aliás, boa parte do livro trata da maneira como os chineses costumam usar o capital e o know-how estrangeiros. Depois de obter o que desejam, não raro mudam as regras do jogo e rasgam contratos que consumiram anos de negociações.
Jack Wadsworth viveu isso na própria pele. Um dos mais bem-sucedidos executivos de Wall Stret, ele desembarcou em Pequim em 1992 para abrir o primeiro banco de investimentos do país, o China International Capital Corporation (CICC). Com uma tremenda sede de capital para financiar seu crescimento, os chineses estavam ansiosos para aprender com os americanos como lançar empresas na bolsa de valores por meio das ofertas públicas iniciais (IPOs). Chairman do Morgan na Ásia, o energético mas pouco diplomático Wadsworth tinha carta-branca de seus chefes nos Estados Unidos para formar uma joint venture com o governo chinês. Inaugurado em 1995, o banco nasceu com capital de 100 milhões de dólares e participação de 35% do Morgan.
Foi aí que começaram os problemas. Como sócios majoritários, os chineses apoderaram-se de boa parte da administração do banco, como o RH. Além de contratar uma leva de apadrinhados do PC, sempre que surgia algum atrito eles dinamitavam os americanos. Uma de suas providências foi vazar os salários de executivos ianques, bem mais altos que os dos empregados nativos, aumentando a animosidade entre as duas facções. A derrota mais amarga para Wadsworth viria em 1997, quando o governo chinês resolveu que o Goldman Sachs, arqui-rival do Morgan, e não o CICC, lideraria a IPO da China Telecom na bolsa de Nova York. Finalmente, em 2002, o Morgan Stanley resolveu jogar a toalha, deixando a operação do CICC com os chineses. Mas o negócio valeu a pena para o Morgan. Além de gerar lucros de cerca de 170 milhões de dólares, o pioneirismo do banco hoje lhe garante papel de destaque no lançamento de ações das empresas chinesas. Por mais frustrante que tais histórias possam parecer, McGregor reconhece que a China não pode e não deve ser ignorada. Graças à explosão de sua classe média e à crescente transparência de seus mercados, o ambiente de negócios tem melhorado gradativamente no país. Uma prova disso foi a mínima interferência do governo chinês nas negociações que antecederam a fusão da divisão de microcomputadores da IBM com o grupo chinês Lenovo, em 2004. A IBM tem só 19% do capital da nova empresa, o governo chinês, 46%, e o restante do capital está diluído. McGregor vê o acordo como o melhor laboratório para estudar a performance da China rumo ao capitalismo. "A integração cultural da IBM com o Lenovo será uma aventura -- e a chave para seu sucesso ou fracasso", diz.