Em qualquer país do mundo, os setores mantidos protegidos da competição externa lutam para não perder seu privilégio. No Brasil não é diferente. Uma década e meia após a primeira grande queda de barreiras comerciais ocorrida desde a abertura dos portos promovida por dom João VI, o país continua a ser -- em muitas áreas -- um bastião do protecionismo. A imposição de obstáculos é uma bandeira dos nacionalistas, sob o argumento de que não podemos nem devemos esmagar setores inteiros da economia brasileira. A história mostra, porém, que as lufadas de globalização fizeram mais bem do que mal ao país. As empresas que sobreviveram ficaram mais produtivas. As mercadorias ganharam qualidade. Os preços caíram. O consumidor ganhou. Estamos falando, é claro, da concorrência leal -- na qual o mais produtivo vence o ineficiente.
É verdade que o Brasil evoluiu muito desde o final dos anos 80, quando se vivia um modelo quase soviético e menos de 5% do que se consumia vinha de fora. Mas há muitas barreiras a derrubar caso o país queira realmente ser considerado um mercado aberto. A tarifa média aplicada na importação de artigos industrializados, hoje próxima de 11%, esconde casos em que a proteção supera os 100% na etapa final de uma cadeia produtiva complexa (veja quadro ao lado). "Os níveis de proteção atuais de alguns setores não têm justificativa econômica", diz Maurício Mesquita Moreira, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
O maior exemplo de protecionismo ainda existente é o do setor automobilístico. A tarifa média de importação para carros e caminhões é 34%. Mas as barreiras vão muito além. Um estudo feito por Honório Kume, coordenador de comércio exterior e política comercial do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que a tarifa de proteção efetiva que preserva o setor chega a 124%. Nessa conta, computam-se todas as tarifas que incidem sobre peças e demais insumos necessários à produção. O resultado são carros mais caros e um mercado que há anos não apresenta um crescimento significativo. Especialistas dizem que a proteção, somada à escala baixa, faz com que o consumidor brasileiro pague por um carro médio o mesmo que um italiano paga por um de luxo.
Fato semelhante ocorre no setor siderúrgico. "As usinas cobram uma 'taxa de conforto' na venda de aços planos que pode chegar a 15% do preço", diz Paulo Butori, presidente do Sindipeças, o sindicato das indústrias de autopeças. "Alegam que, com o fornecimento local, há economia com frete, seguro, risco de atrasos na entrega e custo financeiro de estoque, necessários no caso de importação." No início do ano, quando o preço do aço subiu devido ao aquecimento da economia global, as montadoras de veículos travaram uma queda-de-braço com as siderúrgicas, argumentando que a alta no insumo estava levando a uma perda de competitividade no mercado externo. Em março, o governo eliminou as alíquotas de importação de alguns tipos de aço. Imediatamente os preços internos caíram e os fabricantes locais retomaram as vendas. "As importações foram irrisórias", afirma Marco Polo de Mello Lopes, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia.
| Os mais protegidos | |
| Diversos setores contam com tarifas de proteção(1) que restringem a competição com importados. Eis alguns dos mais protegidos: | |
| Automóveis e caminhões | |
| É o setor mais protegido. O corte da barreira criaria mais competição entre os carros médios e imporia a renovação mais rápida dos modelos. Na faixa dos compactos, as exportações poderiam crescer |
Tarifa de proteção
124% |
| Vestuário | |
| O Brasil é competitivo em tecidos de algodão e pode crescer na confecção de produtos como os jeans e a linha de cama, mesa e banho. Em malharia e tecidos sintéticos, a dianteira é dos asiáticos |
Tarifa de proteção
23% |
| Plástico | |
| Pulverizado em 7 000 empresas e convivendo com alta informalidade, o setor é vulnerável. A abertura forçaria a profissionalização da gestão e associações para formar grupos mais fortes |
Tarifa de proteção
21% |
| Eletroeletrônicos | |
| O país tende a voltar-se para nichos em áreas como telefonia celular e equipamentos médicos de baixo custo. O aumento da importação de produtos de grande consumo é tido como irreversível |
Tarifa de proteção
13% |
| Calçados | |
| A tendência das linhas de calçados baratos é ceder espaço aos chineses. O setor teria de se concentrar em desenvolver tecnologia, design e marca para competir em faixas mais sofisticadas do mercado |
Tarifa de proteção
16% |
| Máquinas e tratores | |
| A vantagem da abertura é facilitar o acesso a equipamentos de ponta, feitos em países como Alemanha e Japão. O custo do investimento cairia, favorecendo a modernização do parque industrial |
Tarifa de proteção
14% |
| (1) Tarifa efetiva, calculada sobre o valor adicionado Fontes: Ipea e empresas |
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