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O Chávez brasileiro

 | 17.11.2005

Com discurso anticapital e quebra de contratos, Roberto Requião, o governador do Paraná,
segue os passos do presidente da Venezuela

 

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Por Alexa Salomão

EXAME 

Apesar de liderar um governo tumultuado, o presidente venezuelano Hugo Chávez arregimentou uma legião de admiradores na esquerda brasileira. Conta com a simpatia de estrelas como o compositor Chico Buarque e o arquiteto Oscar Niemeyer, e é figura de destaque nos encontros anuais do Fórum Social Mundial, a meca dos militantes antiglobalização. Mas ninguém segue tão fielmente o ideário chavista como Roberto Requião, o governador do estado do Paraná. Dono de uma língua ferina à altura do comandante da revolução bolivariana, o ex-oficial de cavalaria Requião, de 64 anos, profere discursos espetaculares contra o capital e em defesa do estatismo. Enquanto o presidente venezuelano arregimenta apoio nas comunidades indígenas, o governador paranaense estabeleceu estreitas ligações com associações de classe e entidades populares, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Se Chávez colocou no governo amigos de confiança, Requião foi além -- deu postos-chave da administração aos próprios irmãos e se intitula um nepotista esclarecido, que só emprega "parentes capazes". O governador gosta tanto do presidente venezuelano que organizou uma caravana ao país vizinho com quase uma centena de empresários, sindicalistas e integrantes do governo. "O Chávez é muito bom para a Venezuela. Não me desagrada a comparação com ele", diz Requião. "Podemos aprender algumas coisas com ele e ensinar outras."

A faceta mais "bolivariana" de sua gestão é o tratamento que dispensa aos empresários. Com as grandes empresas, que respondem por quase 70% da arrecadação, o governador compra intermináveis brigas, sempre carregadas de inúmeras declarações bombásticas. Na mais recente, ao transferir as contas do estado do banco Itaú para o Banco do Brasil, aproveitou para espinafrar o sistema financeiro. "Os lucros dos bancos privados são um desvario", disse o governador. "As contas públicas devem ficar com bancos públicos que investem no Paraná, financiam projetos de saneamento e casas populares." Uma de suas marcas é o hábito recorrente de romper contratos. Requião tentou anular a isenção de ICMS concedida à Renault e reassumiu o controle da Companhia de Saneamento do Paraná, ignorando um acordo que delegava a gestão aos acionistas privados. "Serviços como geração de energia elétrica, fornecimento de água e construção de estradas são bens públicos que devem ser geridos pelo Estado", diz ele. A queda-de-braço mais dura ele trava contra as concessionárias de rodovias. Tentou retomar as concessões e derrubar reajustes previstos nos contratos. Foi impedido por decisões judiciais, mas encontrou apoio no MST, que já tomou as praças de pedágio diversas vezes e liberou o trânsito. "Temos um governador que luta contra a iniciativa privada e ainda acredita que o Estado seja capaz de tudo", diz João Chiminazzo Neto, diretor regional da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias. "O Paraná está na contramão da história." Já Requião apresenta uma versão diferente sobre seus atos contra o empresariado. "Não quebro contratos", diz Requião. "Apenas renegocio acordos criminosos feitos ao arrepio da lei contra os interesses do Paraná."

O estilo Requião de governar também se compara ao chavismo pelo clima de insegurança instaurado em sua gestão. Muitas empresas deixaram de discutir negócios do interesse do governo ao telefone ou por e-mail. "Todo mundo sabe que os políticos de oposição e os empresários têm seus telefones grampeados", diz o deputado Durval Amaral (PFL), um dos poucos que ousam fazer oposição aberta ao governador. O nervosismo no setor privado cresceu depois que uma megaoperação no início de novembro prendeu cerca de 20 empreiteiros acusados de formação de cartel. Na lista dos detidos estava a diretoria da Associação Paranaense dos Empresários de Obras Públicas, acusada de comandar o esquema. As provas foram justamente escutas telefônicas nas empresas e gravações de mais de 1 000 ligações. Requião afirma que gosta de impor respeito, embora negue qualquer ato ilegal de sua equipe.

Os amigos não se surpreendem com tais arroubos. Há quem ainda lembre do adolescente Requião pendurado na sacada do Colégio Estadual do Paraná gritando "o petróleo é nosso", no início dos anos 50. Para os adversários políticos, o estilo é anacrônico e temerário. "Chávez briga de dia com o Bush, mas à noite vende petróleo aos americanos", diz André Vargas, presidente estadual do PT no Paraná. "Requião briga com todo mundo e não tem petróleo -- quem vai pagar por isso é o Paraná." É uma conta que poderá sair muito cara ao estado, como indica o resultado da briga, promovida por Requião, entre a estatal Companhia Paranaense de Energia (Copel) e suas sócias na usina de gás Araucária, a Petrobras e americana El Paso. No mês em que assumiu, Requião mandou a Copel suspender o pagamento da obra para as sócias e também a operação da usina, alegando risco de explosão. El Paso e Petrobras cobram na Justiça indenizações estimadas em 1 bilhão de dólares.

Os efeitos do voluntarismo de Requião são particularmente visíveis no porto de Paranaguá, o segundo em importância para o agronegócio. "A situação por lá é absolutamente caótica", diz o consultor Luiz Antonio Fayet, integrante do Conselho de Autoridade Portuária. No início do mandato, Requião entregou a superintendência do porto ao irmão, Eduardo Requião. O porto havia sofrido uma reestruturação financeira na gestão de Jaime Lerner, seu antecessor no governo, e estava em situação confortável -- contava com três fundos mantidos com recursos privados, capazes de render sobras de caixa de quase 40 milhões de reais por ano. Eduardo decidiu suspender o pagamento de horas extras a estivadores e atracadores. Como resultado, os embarques, antes contínuos, passaram a ser interrompidos nas trocas de turno. Além disso, estabeleceu uma fila única de desembarque de mercadorias para os caminhões -- nenhum veículo pode passar à frente de outro, mesmo que seu navio esteja pronto para ser carregado e o do outro nem sequer tenha chegado. Suspendeu a reforma das instalações da Polícia Federal, hoje alojada de favor em um terminal privado. Essas ações acabaram por elevar os custos de exportação da soja e seus derivados, o principal produto de Paranaguá. As exportações do complexo soja caíram 9% no ano passado, enquanto em Santos cresceram 7% e no porto catarinense de São Francisco 27%.

Máximas de Requião
O Chávez é muito bom para a Venezuela. Vamos até lá aprender com ele e ensinar também
Nunca achei que o Lula fosse o gênio da administração pública
Defendo o nepotismo esclarecido a contratação de parentes com qualificações
Os empresários têm medo de mim porque sabem que eu não dou mole para ninguém
Não quebrei contratos, apenas renegociei contratos criminosos

 
Ricardo Amorim, diretor da Concórdia Corretora
 

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