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 Idéias que viram dinheiro

Como as boas idéias morrem

 | 16.11.2005

Quais são os vilões que enterram mais da metade dos projetos nas empresas

 

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Por Carolina Meyer e Felipe Seibel

EXAME 

Em 1975, saía dos laboratórios da Kodak em Nova York, nos Estados Unidos, o primeiro protótipo de uma câmera fotográfica digital de que se tem notícia (essa geringonça da foto ao lado). Dois anos antes, em Palo Alto, na Califórnia, um trio de cientistas da Xerox desenvolveu o primeiro microcomputador da história. No Brasil, em 1986, a Brosol projetou um sistema de injeção eletrônica para carros, uma novidade até então. Ironicamente, nenhuma das inovações acima foi posta no mercado por meio das empresas que primeiro dominaram essas novas tecnologias. A Sony lançou a primeira câmera digital comercial em 1981. No caso do microcomputador, o pioneirismo acabou sendo atribuído à Apple. No mercado brasileiro de automóveis, a Brosol também foi superada. A Bosch juntou-se à Volkswagen em 1988 e as duas lançaram um novo modelo, o Gol GTi, dotado de injeção eletrônica.

Por que essas boas idéias foram abortadas dentro dessas companhias? Não há uma resposta absoluta para essa pergunta. Inovar tornou-se um grande mantra dentro das empresas, mas poucas colocam esse discurso em prática. De acordo com um estudo recente da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, mais da metade dos projetos iniciados pelas companhias não chegam até o mercado. E os que chegam sofrem diversas modificações que vão tirando o caráter inovador do produto. Nesse caminho até o consumidor, as boas idéias vão sendo bombardeadas, ignoradas ou até mesmo ironizadas. "É muito difícil para as empresas quebrar a inércia e introduzir produtos ou serviços revolucionários", diz Richard Nelson, especialista em inovação da Universidade Colúmbia.

A inovação tem dois grandes inimigos dentro das empresas. Segundo 15 especialistas ouvidos por EXAME, os gargalos mais comuns são a burocracia corporativa e a aversão natural que as empresas têm ao risco. O primeiro fator é um alerta para as grandes empresas. Normalmente, quanto maior o faturamento, maior o número de pessoas, instâncias e processos para gerir toda a máquina. Muitas vezes, é exatamente nesse filtro que as boas idéias ficam presas. O outro fator pode afetar pequenas e grandes empresas -- por motivos diferentes. A pequena porque talvez não tenha cacife para agüentar uma aposta que exija altos investimentos. A grande porque, estabelecida na praça, prefere não abrir mão dos mercados que já domina (algumas vezes, porém, são os próprios mercados que desaparecem). "O resultado é a criação de uma atmosfera propícia ao comodismo", afirma Paulo Figueiredo, Ph.D. na área de inovação e tecnologia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.

Tomar decisão de lançar um produto inovador não é tarefa fácil. Algumas idéias exigem alteração brutal no modelo de negócios da empresa -- e nem todos estão dispostos a fazer isso. "Até que se provem um sucesso retumbante, idéias inovadoras não passam de tiros no escuro", afirma Richard Ford, diretor de marketing da Kodak para a América Latina. O caso da protelação da entrada da empresa no mercado digital consumiu um ano inteiro de discussões. Contra o protótipo desenvolvido pelo engenheiro Steve Sasson, em 1975, estava a pouca praticidade (era do tamanho de uma torradeira) e a falta de um ambiente propício para aquela tecnologia (os microcomputadores não estavam popularizados). Como o negócio de rolos de filmes crescia a um bom ritmo, a empresa optou por congelar o projeto. "Investir em imagem digital era um risco que a Kodak não precisava correr", diz Ford.

Os inimigos da criatividade
Os problemas mais comuns que atravancam o andamento de projetos, segundo 15 especialistas em inovação ouvidos por EXAME
Burocracia
A idéia tem de ser aprovada por diversos setores. No caminho, acaba modificada e perde seu caráter inovador
Aversão ao risco
As empresas relutam em lançar produtos que de alguma forma se choquem com seu negócio principal
Disputas internas
Brigas entre departamentos e seus respectivos diretores atravancam a aprovação ou a liberação de dados para novos projetos
Custos
Companhias descartam projetos inovadores sob a alegação de que a tecnologia necessária para implementá-los é muito cara e, portanto, inacessível
Falta de comunicação
Líderes não conseguem envolver todos os funcionários no processo inovador, inibindo a aparição de novas idéias

Uma certeza sobre o mundo da inovação é que, se você não adotar a nova tecnologia, alguém vai fazê-lo. Um exemplo disso acaba de acontecer no mercado de aviação brasileiro. A TAM desenvolveu um projeto para oferecer checkin pelo celular aos clientes que não carregam bagagens. O protótipo do projeto está pronto há três anos, mas foi engavetado. De acordo com alguns profissionais que participaram do projeto, a idéia foi torpedeada pelo departamento comercial porque nasceu no departamento de marketing -- um daqueles casos que reúnem diversas instâncias, diversos processos e uma pitada de cizânia interna. "Diziam que não iria dar certo", afirma um ex-executivo da TAM. O checkin por celular acabou lançado pela Gol e a companhia aposta que o produto terá um crescimento rápido. Procurada para comentar o caso, a atual direção da TAM negou a briga interna. "O projeto foi engavetado por uma questão de custos", afirma Mauricélio Lauand, diretor de tecnologia da empresa.

Perder a dianteira de uma inovação pode não ser o fim para uma empresa. Existem boas histórias de recuperação de mercado depois que uma companhia deixou passar a oportunidade de inovar. A Kodak já é líder em fotografia digital. Mas ser o primeiro a lançar determinado produto sempre dá vantagens às empresas pioneiras. Foi o que aconteceu com a Philips no mercado brasileiro de CD players. A empresa holandesa inventou a tecnologia, mas, por uma questão de prioridade, demorou a trazê-la para o Brasil. A Gradiente lançou o produto em 1984, ficou três meses sozinha no mercado e ganhou a prerrogativa de ditar o preço do produto no país (o que os especialistas consideram uma vantagem considerável num mercado que se tornou bastante competitivo). Atualmente, as duas empresas dividem a liderança no segmento de áudio. Uma prova de que, às vezes, o mais difícil não é ter -- ou produzir -- uma boa idéia. Mas, sim, fazê-la ir adiante.

 
Ricardo Amorim, diretor da Concórdia Corretora
 

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