Em 1975, saía dos laboratórios da Kodak em Nova York, nos Estados Unidos, o primeiro protótipo de uma câmera fotográfica digital de que se tem notícia (essa geringonça da foto ao lado). Dois anos antes, em Palo Alto, na Califórnia, um trio de cientistas da Xerox desenvolveu o primeiro microcomputador da história. No Brasil, em 1986, a Brosol projetou um sistema de injeção eletrônica para carros, uma novidade até então. Ironicamente, nenhuma das inovações acima foi posta no mercado por meio das empresas que primeiro dominaram essas novas tecnologias. A Sony lançou a primeira câmera digital comercial em 1981. No caso do microcomputador, o pioneirismo acabou sendo atribuído à Apple. No mercado brasileiro de automóveis, a Brosol também foi superada. A Bosch juntou-se à Volkswagen em 1988 e as duas lançaram um novo modelo, o Gol GTi, dotado de injeção eletrônica.
Por que essas boas idéias foram abortadas dentro dessas companhias? Não há uma resposta absoluta para essa pergunta. Inovar tornou-se um grande mantra dentro das empresas, mas poucas colocam esse discurso em prática. De acordo com um estudo recente da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, mais da metade dos projetos iniciados pelas companhias não chegam até o mercado. E os que chegam sofrem diversas modificações que vão tirando o caráter inovador do produto. Nesse caminho até o consumidor, as boas idéias vão sendo bombardeadas, ignoradas ou até mesmo ironizadas. "É muito difícil para as empresas quebrar a inércia e introduzir produtos ou serviços revolucionários", diz Richard Nelson, especialista em inovação da Universidade Colúmbia.
A inovação tem dois grandes inimigos dentro das empresas. Segundo 15 especialistas ouvidos por EXAME, os gargalos mais comuns são a burocracia corporativa e a aversão natural que as empresas têm ao risco. O primeiro fator é um alerta para as grandes empresas. Normalmente, quanto maior o faturamento, maior o número de pessoas, instâncias e processos para gerir toda a máquina. Muitas vezes, é exatamente nesse filtro que as boas idéias ficam presas. O outro fator pode afetar pequenas e grandes empresas -- por motivos diferentes. A pequena porque talvez não tenha cacife para agüentar uma aposta que exija altos investimentos. A grande porque, estabelecida na praça, prefere não abrir mão dos mercados que já domina (algumas vezes, porém, são os próprios mercados que desaparecem). "O resultado é a criação de uma atmosfera propícia ao comodismo", afirma Paulo Figueiredo, Ph.D. na área de inovação e tecnologia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.
Tomar decisão de lançar um produto inovador não é tarefa fácil. Algumas idéias exigem alteração brutal no modelo de negócios da empresa -- e nem todos estão dispostos a fazer isso. "Até que se provem um sucesso retumbante, idéias inovadoras não passam de tiros no escuro", afirma Richard Ford, diretor de marketing da Kodak para a América Latina. O caso da protelação da entrada da empresa no mercado digital consumiu um ano inteiro de discussões. Contra o protótipo desenvolvido pelo engenheiro Steve Sasson, em 1975, estava a pouca praticidade (era do tamanho de uma torradeira) e a falta de um ambiente propício para aquela tecnologia (os microcomputadores não estavam popularizados). Como o negócio de rolos de filmes crescia a um bom ritmo, a empresa optou por congelar o projeto. "Investir em imagem digital era um risco que a Kodak não precisava correr", diz Ford.
| Os inimigos da criatividade |
| Os problemas mais comuns que atravancam o andamento de projetos, segundo 15 especialistas em inovação ouvidos por EXAME |
| Burocracia A idéia tem de ser aprovada por diversos setores. No caminho, acaba modificada e perde seu caráter inovador |
| Aversão ao risco As empresas relutam em lançar produtos que de alguma forma se choquem com seu negócio principal |
| Disputas internas Brigas entre departamentos e seus respectivos diretores atravancam a aprovação ou a liberação de dados para novos projetos |
| Custos Companhias descartam projetos inovadores sob a alegação de que a tecnologia necessária para implementá-los é muito cara e, portanto, inacessível |
| Falta de comunicação Líderes não conseguem envolver todos os funcionários no processo inovador, inibindo a aparição de novas idéias |