Nas últimas semanas, uma questão que parecia já estar definitivamente enterrada voltou ao centro do debate econômico do país -- afinal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve ser um hospital de empresas? Ao anunciar que vai coordenar uma operação de salvamento da Varig, o banco fez renascer os temores de que o velho balcão de socorro a empresários falidos estaria sendo recriado. O caso da Varig soma-se a dois outros episódios recentes em que o BNDES optou por tirar do buraco companhias que agonizavam, aportando na Light e na Brasil Ferrovias 1,6 bilhão de reais. O próprio presidente do banco, Guido Mantega, viu-se obrigado a rechaçar tais temores. "O BNDES não é ambulância, ou pronto-socorro, nem faz milagre", disse recentemente. Trata-se de uma repetição do que o próprio Mantega afirmou ao assumir o cargo, há 11 meses, em substituição a Carlos Lessa, o maior defensor do papel "hospitalar" do banco. Mas só o fato de ter sido obrigado a voltar ao assunto é sinal de que pairam dúvidas a respeito.
O argumento comum para justificar a ajuda às empresas está na importância estratégica que elas têm para a economia do país. A idéia é que o governo precisa interferir se há risco de falência de alguma companhia considerada essencial -- mas a dificuldade está exatamente em saber quais são elas. Persiste no BNDES e em alguns setores do governo federal a visão de que a Varig pertence a esse grupo. "Não há quem chegue aos destinos que ela chega. Qualquer outra empresa nacional teria muita dificuldade em assumir as linhas para o exterior, o que seria prejudicial ao Brasil", diz David Zylberstajn, presidente do conselho de administração da Varig. Muita gente discorda dessa opinião. "A Varig não tem nada de especial que justifique socorrê-la com dinheiro público. Outras podem assumir esse mercado, assim como já estão assumindo parcelas do mercado nacional", diz Armando Castelar Pinheiro, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "Qual o argumento para não socorrer também a Vasp ou a Transbrasil?"
O fato é que toda a negociação com a Varig ainda permanece obscura. Demian Fiocca, vice-presidente do BNDES, afirma que o banco não está socorrendo a empresa, apenas emprestando 93 milhões de reais aos compradores da Varig Log e da VEM, subsidiárias de logística e manutenção de aviões. Os recursos totalizam 66% do valor necessário para pagar as dívidas da empresa-mãe com o leasing das aeronaves e estão vinculados ao pagamento dessas dívidas. Segundo Fiocca, as garantias dos empréstimos não serão ações das próprias subsidiárias, já que elas deixariam o banco descoberto em caso de falência. "Não estamos colocando um tostão na Varig diretamente", diz Fiocca. Mas há gente da própria equipe econômica do governo apostando no contrário. Para um assessor direto do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que participou das discussões, há risco de a conta acabar caindo no colo do governo. "Parece que estão criando um meio de seguir com a operação para depois acabarem pedindo que o Tesouro forneça garantias, ou mesmo um perdão da dívida", diz. Na Varig, existe a expectativa de que o banco, depois dessa primeira etapa, coordene uma segunda, de captação de investimentos para a compra da pró pria empresa. Fiocca nega as duas hipóteses. "Não há nada acertado além do que já foi divulgado", disse ele a EXAME.
| Operação salvamento |
| Casos recentes em que o BNDES atuou para salvar empresas em dificuldades |
| Light Em junho deste ano, o BNDES comprou 727 milhões de reais em debêntures conversíveis em ações da Light. Com a venda da empresa, passará a ser sócio com até 23% de participação |
| Varig O banco financiará dois terços do valor a ser pago à Varig pelos compradores das subsidiárias Varig Log e VEM. A Varig terá de usar o dinheiro para pagar 140 milhões de reais em leasing atrasado de aviões |
| Brasil ferrovias Com aporte em maio de 915 milhões de reais, o BNDES refinanciou parte da dívida da empresa. Em troca, ficou com 44% do capital e tornou-se sócio dos fundos de pensão Previ e Funcef |
| Fontes: BNDES e empresas |