O impacto do dólar fraco
| 20/12/2004
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Por José Roberto Caetano
É possível que 2004 passe para a história das exportações brasileiras como um ano excepcional, no qual vários recordes foram batidos. De acordo com as projeções, o país deve virar o calendário com 95 bilhões de dólares em vendas internacionais e um superávit na balança comercial de 33 bilhões. Esse poderia ser um período apenas de boas notícias não fosse a crescente preocupação do governo e das empresas com o persistente enfraquecimento do dólar. Desde 20 de maio, quando atingiu a maior cotação no ano -- 3,21 reais --, a moeda americana entrou num ciclo de depreciação que derrubou a relação de troca para a faixa dos 2,70 reais em dezembro. Não é um problema específico da economia brasileira. O dólar, devido à apreensão com os déficits comercial e fiscal dos Estados Unidos, desvalorizou-se no mundo todo -- e os prognósticos de analistas indicam que essa tendência deve prosseguir em 2005.
É impossível prever o que acontecerá daqui para a frente. Mas já é possível, segundo vários exportadores, verificar o que a nova realidade cambial provocou até agora -- um estrago na margem de lucro daqueles que fazem negócios no mercado internacional. A Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) calculou em 4,1% a perda média de rentabilidade das exportações neste ano até outubro. Diante disso, várias empresas iniciaram um processo de revisão de planos para os próximos meses. O ímpeto de conquistar clientes no exterior observado nos últimos dois anos, motor do recente crescimento econômico do país, não será mais o mesmo. O ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, projeta para 2005 receitas de 100 bilhões de dólares, apenas 5% acima das obtidas neste ano.
Como as importações estão crescendo mais, o superávit deve cair para algo como 26 bilhões de dólares. Há quem considere que essa redução é até bem-vinda. "A balança comercial excessivamente positiva também é causa da apreciação do câmbio", afirma o economista Nathan Blanche, da consultoria Tendências. Não há previsão de que ocorra uma reviravolta drástica nas exportações brasileiras, como aconteceu após o Plano Real, quando o saldo da balança comercial do país, positivo até 1994, tornou-se negativo nos seis anos seguintes.
Nas empresas, o impacto do dólar fraco varia conforme o porte de cada uma, o setor em que atua e os mercados que atende. Dos 27 setores acompanhados pela Funcex, 19 registraram erosão da rentabilidade nos últimos meses. Ainda saíram ganhando os exportadores de produtos cujos preços internacionais subiram a ponto de compensar diferenças no câmbio, caso do aço. Os mais prejudicados foram os setores que tiveram ao mesmo tempo queda de preços no mercado mundial, como ocorreu com o de açúcar, ou aumento de custos -- por exemplo, o de automóveis, que enfrentou o encarecimento do aço, da borracha e do plástico.
A Volkswagen, com 200 000 veículos embarcados e 1,5 bilhão de dólares faturados com exportações em 2004, estima que sua rentabilidade tenha ficado 10% abaixo do número inicialmente projetado. "Fizemos nosso planejamento pensando que o dólar estaria hoje em 3,05 reais", diz Leonardo Soloaga, gerente executivo de exportação da VW. "Teremos de reajustar os preços e ver como ficarão os volumes no ano que vem." O alemão Hans-Christian Maergner, presidente da subsidiária brasileira da Volks, chegou a dizer que a empresa perde 3 000 reais por veículo exportado, em média, a cada valorização de 10% na cotação do real. É um problema e tanto para a montadora, já que neste ano 40% de suas receitas foram garantidas pela exportação. Outra dificuldade é o espaço limitado para renegociar diferenças de custo com clientes internacionais. "O mercado externo é muito competitivo e não há no mundo uma demanda aquecida por carros brasileiros", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors, cujas exportações são da mesma ordem de grandeza que as da VW. "É muito difícil repassar variações."
Nos grupos multinacionais, o que pode ocorrer é um remanejamento de parte da produção para outros países. Fabricante de máquinas agrícolas e tratores, a subsidiária do grupo americano Agco, instalada na cidade gaúcha de Canoas, recebeu investimentos nos últimos cinco anos para aumentar as exportações. A operação no país foi triplicada e a participação das vendas externas no faturamento subiu de 8% em 1999 para mais de 50% neste ano. "A Agco apostou no Brasil como base exportadora", diz Fábio Piltcher, diretor de marketing da empresa. "Agora, com nossa competitividade diminuindo, há outras fábricas do grupo no mundo esperando uma oportunidade para tomar nosso lugar."
Sem contar com as alternativas das grandes empresas, os exportadores de porte menor penam ainda mais com o impacto da variação cambial. No início de novembro, alarmado com a situação, o empresário Carlos Alberto Brigagão, presidente da Sândalo, uma fábrica de calçados de Franca, no interior paulista, resolveu escrever uma carta ao presidente Lula. Três semanas depois, Brigagão despachou outra correspondência ao presidente, dessa vez abrindo a planilha de custos de um dos produtos que exporta. Os números mostraram a inversão de resultado nas vendas ao exterior, responsáveis por dois terços de seu faturamento de 15 milhões de dólares neste ano. Num par de sapatos exportado pelo preço de 17,95 reais, a Sândalo lucrava 5,12 reais em abril de 2003. Em meados de novembro deste ano, a mesma venda, segundo o empresário, dava prejuízo de 4,79 reais. Para tentar resolver o problema da rentabilidade, a Sândalo está renegociando preços nos novos pedidos feitos por compradores europeus e latino-americanos. Mas não tem conseguido sucesso nas conversas com distribuidores e lojistas dos Estados Unidos, para onde seguem 70% de sua exportação. Três encomendas já foram canceladas. "Os clientes americanos não aceitam o repasse de nossa incapacidade de absorver os custos", diz Brigagão. Diante disso, ele já tomou a decisão de, no próximo ano, ser mais agressivo no mercado interno e tirar o pé da exportação.
| O ritmo de crescimento das exportações deve cair de 30% neste ano para 5% em 2005 |
| Quem está perdendo |
| Em diversos setores a rentabilidade da exportação caiu devido à valorização cambial e ao aumento dos custos. Veja de quanto foi a queda(1): |
| Eletrônicos | -30,7% |
| Automóveis | -18,3% |
| Tratores | -11,7% |
| Açúcar | -12,9% |
| Calçados | -5,6% |
(1) De janeiro a setembro de 2004, comparado ao mesmo período de 2003 Fonte: Funcex |
Com reportagem de Suzana Naiditch
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