A escalada do luxo na China
| 20/12/2004
O consumo voltado para a classe A gira mais de 2 bilhões de dólares por ano. São 10 milhões de consumidores ávidos por novidades
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Por Ruth Costas
O tempo das bicicletas e dasroupas todas iguais definitivamente acabou. A China, que vive uma revolução em diversas áreas simultaneamente, também passa por uma transformação do consumo. Hoje, é cada vez mais comum deparar com Mercedes e Ferrari nas grandes cidades do país. Algumas das grifes de roupas e acessórios mais desejadas do mundo, como Gucci, Armani, Louis Vuitton e Dior, também estão presentes no cotidiano dos chineses. Segundo estimativas conservadoras de empresários da área, existem hoje de 10 milhões a 13 milhões de consumidores de grifes e produtos de luxo no país. Os números já são expressivos. De acordo com estudo da consultoria americana Mintel, o mercado de jóias, relógios finos, roupas e acessórios de luxo movimentou cerca de 2 bilhões de dólares no ano passado. Só as importações de relógios suíços atingiram a cifra de 150 milhões de dólares. Recentemente, foi realizada no país a Conferência Internacional do Luxo, um evento que acontece todos os anos e, pela primeira vez, foi sediado fora de Paris, na França. Até o Brasil tem se beneficiado do apetite chinês por objetos de valor. Os chineses importaram 20 milhões de dólares em jóias brasileiras no ano passado, o que representa crescimento de 20% em relação ao ano anterior.
O que mais impressiona, porém, é o ritmo de crescimento. Para as grandes marcas, o país tem se revelado uma aposta mais do que acertada. A China hoje já é o quar to mercado do mundo para a grife Louis Vuitton. O sucesso é tão grande que a marca vai abrir mais 13 lojas no ano que vem. A Prada, com investimento de 40 milhões de dólares, alcançará um total de 15 pontos-de-venda no ano que vem, o dobro do que tem hoje. E o estilista Giorgio Armani, que possui uma fábrica no país, pretende abrir cerca de 20 novas unidades nos próximos anos. Outro setor que vem crescendo bastante é o de automóveis de luxo. Em junho, a divisão de alto padrão da Toyota anunciou a inauguração de uma rede com 14 novas lojas no país. A Ford começará a vender dois de seus modelos mais requintados, o Aston Martin e o Jaguar, já no ano que vem. E a General Motors exportará para o país os elegantes carros da Cadillac (sua divisão de luxo), que em alguns anos passarão a ser fabricados por lá. "São tempos dourados para o mercado de luxo na China", afirma Linda Yueh, pesquisadora do centro de estudos asiáticos da London School of Economics.
A expansão desse setor vem a reboque de um grande processo de desenvolvimento e industrialização. Depois que a China resolveu abrir as portas de sua economia, na década de 80, e transformar seu 1,3 bilhão de habitantes em consumidores, o país tornou-se o maior pólo de atração de fluxos de comércio e investimento do mundo. Nos últimos 25 anos, a China vem crescendo a uma taxa média de 9% ao ano, ritmo que lhe permitiu dobrar o volume de seu produto interno bruto (PIB) em menos de uma década. Cerca de 270 milhões de pessoas já deixaram a pobreza e outros 100 milhões passaram para a classe média. Segundo estudo da Academia Chinesa de Ciências Sociais, em 2020 essa faixa da popu lação corresponderá a 40% dos habitantes do país. No caso da China, onde tudo é superlativo, isso poderá significar uma massa de mais de 600 milhões de pessoas com poder aquisitivo razoável. E o mesmo acontece nas esferas mais altas do extrato social. O número de milionários vem crescendo e, num recente levantamento, já se contabiliza o número de quatro bilionários -- um assombro para uma nação que oficialmente é comunista.
O público consumidor dos artigos de luxo é formado basicamente por jovens profissionais contratados por multinacionais e pelos novos empresários do país. No começo, essa turma só comprava nas viagens ao exterior -- e comprava bastante. Para ter idéia, as unidades da Louis Vuitton em Paris tiveram de contratar ajudantes de vendas que falassem mandarim para atender centenas de clientes chineses. O comportamento mais consumista apenas quando estavam fora do país tinha uma explicação. Era uma maneira de se precaver contra possíveis problemas com as autoridades do Partido Comunista. Com o passar do tempo, essa precaução tornou-se desnecessária. O governo chinês desregulamentou fortemente a economia e as grandes marcas fixaram-se nas cidades chinesas. Hoje, em Pequim, o sofisticado é viver em condomínios em estilo americano com nomes como Grand Hills e Riviera, ter uma Ferrari e vestir Armani (exatamente como em qualquer cidade do Ocidente).
A expectativa das empresas do setor é que se repita na China a febre do consumo de artigos de luxo que arrebatou os japoneses na década de 80. Por enquanto, há uma diferença de perfil entre os gastos dos dois países. O público chinês prefere artigos que não deixem dúvida a respeito do valor do produto. Diferenciar-se dos demais e reafirmar sua posição privilegiada na escala social é um comportamento comum. A elite, e mesmo parte da classe média, prioriza símbolos de status e riqueza que possam usar nas ruas (eles raramente desembolsam em produtos desse tipo para a casa). Logotipos enormes e etiquetas chamativas, que reforçam o requinte do visual, são os preferidos. No Japão, e em outros países onde esse consumo é feito há mais tempo, os ricos ostentam menos. Mas, a julgar pela rápida evolução na China, é só uma questão de tempo para que eles também adotem a discrição.
| O tamanho do mercado |
| Alguns dados da indústria do luxo na China |
2 bilhões de dólares Movimentação do mercado de jóias, relógios finos e acessórios em 2003 |
150 milhões de dólares Importações de relógios suíços no ano passado |
120 mil veículos Vendas de automóveis de luxo no ano passado |
10 milhões de pessoas Número estimado de consumidores de produtos finos |
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