Dubai é um alerta para quem investiu demais, diz ex-diretor do BC

Para Carlos Thadeu de Freitas, no entanto, o Brasil pode aproveitar a crise para recomprar títulos públicos com deságio
Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central
Márcia Foletto
Thadeu: Brasil está mais sólido para enfrentar a crise de Dubai
 
Por Márcio Juliboni | 27.11.2009 | 18h14

A crise da moratória de Dubai, que eclodiu nesta semana, pode significar uma oportunidade de bons negócios para o Brasil. Além de não sofrer fortes impactos, o país poderia aproveitar o nervosismo dos investidores internacionais e recomprar, com deságio, títulos da dívida brasileira. Seria uma forma de enxugar um pouco a entrada de dólares, conter o câmbio e lucrar com a turbulência proveniente dos Emirados Árabes. A avaliação é do economista Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central e atual chefe da divisão de Economia da Confederação Nacional do Comércio. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Portal EXAME:

Portal EXAME - Qual será o impacto da crise de Dubai no Brasil?
Carlos Thadeu de Freitas -
Eu não acredito que haja um forte impacto. O contexto brasileiro mudou radicalmente na última década. Quando o Brasil tinha um déficit enorme em conta corrente, uma crise dessas nos afetava muito. Lembre-se de que, em 1998, a crise russa foi detonada também por uma renegociação de dívidas, como Dubai está fazendo. E veja o quanto ela nos afetou naquela época. Agora, o Brasil está muito solvente. Estamos até evitando a entrada de dólares, para conter a valorização do real. A taxação com o IOF é um exemplo disso.

Portal EXAME - O megainvestidor americano Mark Mobius afirmou que Dubai pode levar a uma desvalorização de até 20% das bolsas de todo o mundo. Seremos tão afetados assim?
Thadeu -
É natural que ocorra uma turbulência no curto prazo, mas não acho que veremos uma fuga de capitais do Brasil. Dubai afetará o mercado de capitais de países com fundamentos piores, com desequilíbrios fiscais e grandes déficits. Ainda haverá volatilidade da Bovespa nas próximas semanas, mas não acho que será algo preocupante.

Portal EXAME - Há uma grande discussão sobre o surgimento de uma nova bolha de ativos, sobretudo nos países emergentes e na Ásia. A moratória de Dubai é um aviso de que os investidores podem estar muito eufóricos?
Thadeu -
Primeiro, não vejo uma bolha nos ativos brasileiros. Não estamos superalavancados em imóveis, por exemplo. As próprias medidas recentes do governo tentam inibir a entrada de capitais. Embora o IOF tenha um efeito limitado, a taxação ajudou a esvaziar um pouco o que seria uma bolha. Sem o IOF, é possível que o dólar já estivesse em 1,60 real. É claro que a tendência do dólar é de queda, mas essas medidas ajudam a freá-la. Dubai é um alerta para quem foi excessivamente otimista, e investiu demais. O governo de Dubai superestimou seu potencial, e a moratória ainda é um efeito retardado da crise que eclodiu no ano passado (Continua...).



 
 
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