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Restam menos de 1 000 garrafas

O Château Margaux 1900, considerado o melhor vinho do século passado, está acabando
 
Por Tiago Lethbridge | 15/06/2006

Algumas das maiores obras-primas da humanidade são, felizmente, imortais. Ella Fitzgerald jamais errará o tom de Anything Goes, Gene Kelly sempre sapateará alegremente na chuva e, ao que tudo indica, as mil e poucas páginas de Guerra e Paz continuarão sendo lidas por todos que quiserem. Até as pirâmides do Egito, embora longe da melhor forma, estão firmes, de pé. A má notícia é que uma dessas obras-primas está acabando. É o Château Margaux da safra 1900, considerado pela conceituada revista americana Wine Spectator o melhor vinho do século passado. Naquele ano, a produção da vinícola francesa chegou a 300 000 garrafas. Segundo cálculos dos especialistas, porém, apenas 0,3% delas ainda estão fechadas. Ou seja, faltam menos de 1 000 garrafas para o vinho do século se tornar definitivamente uma lembrança gustativa e olfativa de uns poucos felizardos. Uma das conseqüências da escassez do Château Margaux 1900 é a escalada dos preços. No dia 20 de maio, um leilão da britânica Sotheby's vendeu uma garrafa de 1 litro e meio por 147 000 reais, um recorde. "Poucos vinhos chegam aos 100 anos de idade em perfeita forma", disse a EXAME Paul Pontallier, diretor da Château Margaux, ele mesmo um bebedor de 12 exemplares da safra 1900 em toda a vida. "Infelizmente, hoje até mesmo o nosso estoque tem apenas oito garrafas."

O ano de 1900 (quando a rainha Vitória ainda liderava o império britânico e Santos Dumont começava a fazer experiências com balões) foi mágico para os produtores de Bordeaux -- cidade francesa que abriga vinícolas como Château Margaux e Château Lafite. O calor do verão e a falta de chuvas na época da colheita, características essenciais para uma boa safra, fizeram com que os vinhos da região atingissem níveis de qualidade raramente vistos. O Margaux logo despontou como o melhor daquele ano. Curiosamente, o vinho foi considerado tão bom na época que os produtores duvidavam de seu potencial de envelhecimento -- ou seja, ele pioraria com o passar dos anos, até se tornar intragável. As décadas seguintes provaram que esse foi um grande erro de avaliação. Anos atrás, Robert Parker, o crítico de vinhos mais influente do mundo, decidiu tirar a dúvida. Conseguiu uma garrafa, abriu, serviu, cheirou, provou e deu nota 100 (a nota máxima) para o Margaux 1900 -- que se tornou o tinto mais antigo de sua lista de vinhos perfeitos. Segundo ele, o exemplar tem um equilíbrio perfeito e um perfume que preenche uma sala inteira. "É um vinho imortal, um dos mais extraordinários que já provei", escreveu.

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