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O império contra-ataca

Aconteceu o esperado: começou a guerra no Afeganistão. A dúvida agora é quando, como - e se - isso tudo vai acabar
 
Por Helio Gurovitz e Cláudio Gradilone | 17/10/2001
- Os afegãos são um povo corajoso, resistente e independente. Dedicam-se essencialmente à pecuária e à agricultura. Evitam o comércio, que abandonam com desprezo aos hindus e aos habitantes da cidade. Para eles, a guerra é estimulante e os alivia das ocupações monótonas e industriosas.

Era assim que o filósofo alemão e ideólogo comunista Friedrich Engels descrevia, num longo e detalhado verbete publicado em 1858 na New American Cyclopedia, as atividades econômicas do povo que habita as desérticas montanhas do Afeganistão, hoje palco da ofensiva militar de Estados Unidos, Reino Unido e aliados contra a Al-Qaida - a organização terrorista liderada pelo milionário saudita Osama bin Laden, considerada a principal suspeita dos atentados de 11 de setembro contra Washington e Nova York. Engels, como a história do comunismo comprovou, estava errado sobre muita coisa. Mas é importante prestar atenção no que ele dizia sobre a relação dos afegãos com a guerra. Terão os americanos, em sua ofensiva do século 21, mais sucesso do que tiveram os ingleses, derrotados por eles no século 19, ou os soviéticos, também vencidos no século 20?

Será que uma guerra prolongada contra um inimigo escorregadio e invisível como o terror internacional não pode piorar ainda mais a já combalida economia mundial - e, por tabela, a brasileira?

Não há muita dúvida de que uma guerra no Oriente Médio não fará cair o preço do petróleo, não aumentará o apetite dos investidores pelo risco dos países emergentes e nem diminuirá o medo e a ansiedade que se apoderaram dos mercados financeiros desde que eles redescobriram que a lei da gravidade continua em vigor. A dúvida, se dúvida resta, é: até quando isso tudo vai durar? "Não se sabe por quanto tempo a ação militar vai se estender nem qual efeito isso terá na economia americana - se vai aprofundar a recessão ou se, ao contrário, acelerará a recuperação", diz o embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa (leia quadro na pág. 26). "Um maior ou menor efeito sobre a economia brasileira dependerá de uma recuperação mais rápida ou não da economia internacional."

As conseqüências econômicas das guerras sempre foram ambíguas. Na conta fria dos economistas, a perda de vidas humanas e a destruição causada pelas armas sempre podem ser compensadas pelos esforços de guerra, alimentados pela indústria bélica, pelos maiores gastos do governo e pela necessária reposição dos postos de trabalho dos que partem para a batalha. Mas trata-se, agora, de uma guerra diferente. O FBI, a polícia federal americana, esperava, com 100% de segurança, uma retaliação terrorista, na forma de novos seqüestros ou atentados. O ingrediente novo desta guerra pode ser resumido por um conceito muito caro aos economistas: as expectativas são agora irracionais. Por isso, não dá para acreditar que, a exemplo da Guerra do Golfo, os bombardeios sobre o Afeganistão sejam necessariamente o prenúncio de um período de recuperação.

A irracionalidade, e o medo que ela provoca, é a maior fonte de apreensão. Não é a ofensiva americana o que mais preocupa, mas as eventuais reações. "O principal risco que o mercado corre hoje é que uma retaliação terrorista afete a confiança do consumidor americano", diz Graham Stock, estrategista-chefe para títulos públicos da América Latina do banco JP Morgan, em Nova York. Consumidores com medo não compram. Pessoas com medo no comando de empresas e bancos não investem e não emprestam dinheiro. Retaliações e revides de parte a parte também podem ampliar o conflito e tornar o cenário ainda mais sombrio.

A mudança de humor pode ser mortal para a economia americana, que viveu nos últimos cinco anos à custa do otimismo. "O crescimento dos Estados Unidos foi sustentado por uma explosão no crédito", diz Jim Walker, economista-chefe da CLSA, empresa do banco francês Crédit Lyonnais que atua nos mercados emergentes. "Os empréstimos ao setor privado subiram de 95% do PIB em 1996 para 140% no ano passado." Por isso, diz Walker, os Estados Unidos vão demorar para repetir os crescimentos anuais recentes, de 4% a 5%. "A economia americana deve crescer algo como 1% nos próximos anos", diz ele.

O efeito desse pé no freio sobre países emergentes como o Brasil varia de acordo com os economistas. Alguns, mais otimistas, dizem que até agora vai tudo bem. "O mercado já tinha colocado o ataque ao Afeganistão nos seus preços", diz Stock. Outros, porém, são mais céticos e acreditam que o esfriamento da economia americana terá um impacto mais profundo no resto do planeta. "Haverá menos comércio e um fluxo de capitais menor", afirma Arturo Porzecanski, economista-chefe para países emergentes do banco holandês ABN Amro, em Nova York. "Isso será especialmente danoso para os países que precisam de capital externo."

De acordo com Porzecanski, os países mais afetados são aqueles cujas economias estão mais ligadas aos Estados Unidos e ao Japão. "Quem exporta muito ou vive de turismo vai sentir um tranco mais forte do que quem tem um mercado interno mais forte, como o Brasil", diz ele. Apesar do pessimismo, Porzecanski diz que a situação econômica dos emergentes hoje é melhor do que há cinco anos. Depurados pela sucessão de crises que começou no México em 1994, os países acertaram suas contas, liberaram seu câmbio, acumularam reservas e procuraram aumentar as exportações. Do lado otimista, também não falta quem lembre que as taxas de juros americanas já caíram de 6,5% para 2,5% em um ano e que, na certa, isso deve aquecer os motores do crédito e do consumo. Finalmente, o governo do presidente George W. Bush tomou todo o cuidado necessário para manter a vida econômica em seu curso normal.

Prova disso é a discussão marcada para este mês no Congresso para conceder ao presidente a autoridade de negociar acordos de livre-comércio, o que pode acelerar processos de integração como a Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Será que tudo isso basta para afastar o risco de uma recessão global? As previsões mais recentes do FMI, publicadas no final de setembro, falam em crescimento de 2,6% no PIB mundial para o ano de 2001 e de 3,5% para 2002. Só que os cálculos foram feitos antes de 11 de setembro. De acordo com declarações mais recentes do presidente do FMI, Hörst Köhler, e do economista-chefe, Ken Rogoff, o fundo continua não acreditando numa recessão global, muito embora espere que a economia americana enfrente problemas. Os otimistas crêem na recessão e na recuperação mais velozes, com o gráfico em formato de V, enquanto os pessimistas falam na recessão em forma de U.

Entre tantas letras do alfabeto e tantos índices econômicos, a revista britânica The Economist preferiu acompanhar o número de vezes que a palavra recessão, que começa com R, aparece em reportagens nos principais jornais e revistas americanos. A Economist afirma que o índice R foi capaz de prever com grande precisão o começo das recessões de 1981 e de 1990 nos Estados Unidos. Agora, mesmo depois da alta que seguiu os ataques de 11 de setembro, o índice R continua abaixo do seu pico no início dos anos 90. Mas, levando em conta apenas as duas leituras obrigatórias no mercado financeiro, The Wall Street Journal e Financial Times, o índice R disparou em setembro e bateu quase no pico. Das duas uma: ou vem mesmo uma recessão por aí, ou então a imprensa sofre de um pessimismo incorrigível.

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