O mundo cresce. Mas também preocupa
| 27/06/2005
As principais economias do planeta seguem em expansão, mas os desequilíbrios globais têm tirado o sono de muita gente
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Por Carlos Alberto Sardenberg
Estados Unidos, os países da União Européia, Japão e Canadá formam o clube dos ricos. Embora tenham apenas 13% da população mundial, respondem por aproximadamente metade de tudo que se produz no mundo. Há no grupo grandes exportadores, como Japão e Alemanha, e importadores líquidos, como os Estados Unidos, o shopping do planeta. Pode-se dizer, portanto, que o mundo vai bem quando esse seleto clube está em crescimento. E o quadro da página ao lado mostra isso mesmo: crescimento.
Não é a exuberância do ano passado, nem poderia. Afinal, 2004 foi o melhor dos últimos 30 anos, um raro momento em que todas as regiões, ricas e pobres, cresceram. Vê-se agora uma desaceleração, mas em relação a um período excepcional. Segundo o último relatório do Fundo Monetário Internacional, observa-se em 2005 um cenário de "crescimento robusto".
Mas desigual, mesmo no caso dos ricos. Os Estados Unidos, depois do extraordinário resultado do ano passado, continuam crescendo acima de sua média histórica de 3% anuais. Como se trata de uma economia de quase 12 trilhões de dólares, qualquer ponto percentual de crescimento se traduz em muita atividade econômica -- ainda mais quando a expansão projetada é de quase 4%. É um dado decisivo para a prosperidade global: a maior economia, responsável por 21% do PIB mundial, mantém-se em ritmo acelerado.
O Japão (7% do PIB mundial) e os países da chamada "zona do euro" (15%) vinham muito bem no ano passado, mas decepcionaram no segundo semestre. Recentemente, as perspectivas de crescimento para o Japão voltaram a ser revisadas, agora para cima. Na Europa continental, a marcha lenta é quase generalizada, especialmente no caso da maior economia, a Alemanha. Inglaterra (3,1% do PIB mundial) e Canadá (2%) vão bem -- com prognóstico de crescimento de 2,5% neste ano. Pode-se dizer, portanto, que há crescimento real entre as nações desenvolvidas, ainda que de maneira desigual, e que essa é uma boa notícia para o mundo.
O noticiário, entretanto, não reflete otimismo. Nem os relatórios das entidades internacionais, como o último da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as nações industrializadas. O título do documento pergunta: "Perdendo o equilíbrio e o momentum?" Esse é o ponto: o crescimento convive com desequilíbrios locais e globais. Tome-se o caso dos Estados Unidos, a grande locomotiva. Os americanos convivem com déficits superiores a 6% do PIB nas contas públicas e nas contas externas, simplesmente o dobro do que se considera o máximo tolerável. Significa que todos lá, governo, empresas e pessoas, estão gastando mais do que recebem. A poupança doméstica é zero. Assim, gastos e investimentos crescem com poupança alheia, e o país e os consumidores se endividam, aproveitando as baixas taxas de juro. Parece inevitável que os americanos façam, em algum momento, um duro ajuste -- cortando gastos e pagando juros mais altos. E quando isso acontecer, quando o shopping do mundo se esvaziar, o prejuízo será global.
Por outro lado, boa parte da prosperidade americana está no mercado imobiliário. Construindo e comprando casas, com empréstimos a juros mais do que amigáveis, as famílias mantiveram a economia em funcionamento, mas há fundadas suspeitas de que se forma uma imensa bolha especulativa. A revista britânica The Economist, que trata dessa ameaça há me ses, relaciona novos dados: em abril, as vendas de imóveis usados cresceram 4,5% e atingiram um patamar recorde. O custo médio de uma casa para uma família ultrapassou pela primeira vez a cifra de 200 000 dólares -- alta de 15% nos 12 meses concluídos em abril. Segundo muitos especialistas, se a bolha imobiliária furar, os preços vão despencar, os juros subir e a dívida das famílias explodir.
Perigo à vista? Não há nada tão grave no horizonte, acredita Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (o banco central americano). Em seu último pronunciamento, Greenspan disse não acreditar em bolha imobiliária -- vê apenas "espumas" em alguns lugares. Discorda que o déficit externo seja um problema sério, pois o próprio mercado é capaz de lidar com ele. Já o déficit fiscal, esse sim exige ação política -- leia-se corte de gastos --, algo que, acredita Greenspan, será necessariamente feito. Como a inflação segue bem comportada, o presidente do Fed não vê motivos para acelerar a alta da taxa básica de juro, o que colocaria uma trava no crescimento e afetaria o mundo todo.
A visão da OCDE é mais crítica. Segundo opinião expressa no último relatório, não será possível sustentar para sempre o atual desequilíbrio global, representado pela combinação de déficits elevados nos Estados Unidos e enormes superávits na Europa e na Ásia. Até quando europeus e asiáticos toparão financiar os gastos americanos, mesmo perdendo dinheiro com a desvalorização do dólar? Nem todos partilham essa visão mais pessimista. Muitos analistas afirmam que Japão e China vivem, em grande parte, de vender para os americanos. Ou seja, têm todo interesse em manter as coisas como estão. Parece lógico, mas nem sempre o racional prevalece na gestão dos negócios mundiais.
Tudo considerado, o resumo é o seguinte: as nações ricas estão em crescimento neste ano e devem acelerar um pouco em 2006 se não se materializar nenhum dos riscos. Estes não são desprezíveis -- forte desaceleração americana, estagnação na Europa e no Japão, aceleração da inflação mundial por causa do preço alto do petróleo ou desaceleração da China.
Qual o risco de ocorrer o pior? Para a maioria dos analistas, é menor do que a chance de que se consiga ir levando, uma crise aqui, um ajuste ali, mas sem desastres globais. Afinal, aqueles riscos não são de hoje. Estão aí há algum tempo, inclusive no ano passado, de crescimento mundial recorde. Há, portanto, argumento para pessimistas, otimistas e realistas. Escolha o seu.
| Ritmo mais lento |
| As estimativas mostram que as principais economias do mundo vão crescer menos neste ano |
| Estados Unidos |
| 2004 | 4,4% |
| 2005 | 3,6% |
| Japão |
| 2004 | 2,6% |
| 2005 | 1,5% |
| União Européia |
| 2004 | 1,8% |
| 2005 | 1,2% |
| Fonte: OCDE |
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