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Produto certo na hora certa

Que mais é preciso para que Marcos Rochlitz e Daniel Turini façam a Crivo crescer? Os dois criaram uma tecnologia para análise de crédito que tem tudo a ver com o momento
 
Por Raquel Grisotto | 25/11/2008

A origem da roda é controversa entre os historiadores, embora se atribua aos sumérios o vestígio mais antigo de seu uso num veículo em 3 500 a.C. Não importa. Imagine que o inventor saísse de porta em porta para vender sua criação. Mas, ao abordar alguém, em vez de explicar a serventia revolucionária da novidade, ele abrisse um laptop e iniciasse uma longa apresentação, mostrando slide por slide como a idéia surgiu e explicando cálculos de coeficientes de atrito. Alguém compraria? Pois era mais ou menos assim que Marcio Rochlitz e Daniel Turini faziam no começo da Crivo para convencer um executivo ocupado a adquirir um software de análise de crédito que só eles tinham. "Levávamos 1 hora para explicar a tecnologia, em vez de ir direto aos benefícios", diz Rochlitz. Demorou quatro anos para aprender a falar a linguagem dos clientes e dizer logo como a ferramenta aumentaria a rapidez na concessão de crédito e diminuiria os riscos. "Quando fizemos isso, finalmente a Crivo cresceu", diz Turini. Neste ano, o faturamento deve chegar a 15 milhões de reais, o dobro de 2007. Já são mais de 100 clientes, como os bancos Panamericano e BMG, as seguradoras SulAmerica e Porto Seguro, o Wal-Mart e a operadora Claro. Os jurados do Prêmio Endeavor & EXAME PME de Empreendedorismo acham que a Crivo pode crescer muito mais - sobretudo agora, com o aumento da necessidade de ponderar os riscos de um crédito. Por isso, Rochlitz e Turini foram contemplados com o prêmio de Potencial de Crescimento. "A ferramenta da Crivo ajuda a analisar os riscos do crédito com inteligência, sem o engessamento típico dessas operações", afirma Stefano Bridelli, presidente da consultoria Bain&Company, um dos jurados que escrutinaram os empreendedores da Crivo. Diferentemente de instituições como Serasa e Equifax, a Crivo não tem um banco com informações sobre inadimplência e situação financeira de consumidores e empresas. A ferramenta é uma espécie de Google do crédito, que consulta até 150 bancos de dados. O número de fontes depende da necessidade e dos serviços a que o usuário tem acesso. A tecnologia da Crivo não é a única que permite a consulta simultânea a várias fontes, mas se destaca porque faz uma varredura muito ampla em instituições de natureza variada, como Receita Federal, Banco Central, INSS e Polícia Federal. As informações colhidas passam por critérios fornecidos pelo cliente - um consumidor pode não ser atrativo para um cartão de crédito, por exemplo, mas pode interessar a uma operadora de celular. Ex-alunos do Instituto de Matemática e Estatística da USP, onde se conheceram, Rochlitz e Turini eram vistos como nerds mesmo entre seus semelhantes. Enquanto os outros iam para a balada, eles ficavam em casa desenvolvendo programações. Durante um estágio na Vicunha Têxtil, no início dos anos 90, a dupla chamou a atenção de Marcel Yoshimi Imaizumi, o único chefe que tiveram na vida. "Nas horas vagas eles liam manuais e artigos sobre computação", diz Imaizumi. "Acho que sonhavam com aquilo." Em 1992, os dois começaram uma empresa de software. Funcionava na edícula da casa do pai de Rochlitz, em São Paulo. Quando a idéia da ferramenta de crédito surgiu, em 2000, eles abandonaram a atividade inicial e fundaram a Crivo. "Como éramos péssimos vendedores, ficamos quatro anos sem ganhar dinheiro", diz Rochlitz. "Minha mulher bancou a casa por anos." Até onde a Crivo pode ir sozinha num setor dominado por grupos fortes, como a americana Equifax e a irlandesa Experian, que controla a Serasa? "Os donos da Crivo precisam manter a expansão em ritmo acelerado e tornar os clientes fiéis para não ser um alvo fácil de aquisição", diz Mário Bethlen, conselheiro do fundo americano General Atlantic Partners, que também participou do júri. "Eles são anões em terra de gigantes."

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Para ele, um desafio e uma brincadeira O paulista Sidney Santos foi palhaço dos 3 aos 17 anos. Largou o circo para construir uma empresa que vai faturar mais de 50 milhões de reais neste ano Carla Aranha As luzes se acenderam, a cortina se abriu e Sidney Santos se viu no picadeiro. Ele tinha apenas 3 anos. Metido numa roupa de palhaço e com o rosto pintado, a platéia esperando que ele fizesse alguma coisa, Santos tinha duas opções - sair correndo chorando ou encarar a multidão. "Dizem no circo que se a criança foge uma vez nunca será um bom palhaço", afirma ele. "Como não me contaram que era possível fugir, fiquei." Santos gosta de contar esse episódio a quem lhe pergunta o que a vida de empreendedor, à frente do Grupo Sid - que deve faturar 53 milhões de reais em 2008 com a venda de produtos e máquinas para impressão -, tem em comum com o circo, onde trabalhou até a adolescência. "Depois que a gente começa uma empresa também não dá para desistir", diz ele. "Se algo não dá certo, é preciso tentar de novo." Filho caçula de uma família paulista, dona de um circo mambembe que faliu nos anos 80, Santos teve uma infância dura. "Eu vivia mudando de escola por causa das viagens", diz. "Cada vez que chegava a uma nova cidade, eu apanhava dos meninos até fazer amizade, mas aí já era hora de mudar de novo." Sua trajetória de empreendedor também é cheia de obstáculos, que incluem uma empresa que não ia adiante e dificuldade em arrumar dinheiro para investir. A determinação de Santos chamou a atenção dos jurados do Prêmio Endeavor & EXAME PME de Empreendedorismo, que o escolheram para o prêmio na categoria Histórico de Realizações. "Pouquíssimas vezes vi pessoas com tanta coragem, visão e poder de comunicação, que são características fundamentais num empreendedor", diz Walter Longo, diretor de planejamento da agência Young & Rubicam e um dos jurados. "Acho que o Sidney teria sucesso em qualquer empresa que resolvesse montar." Formalmente, a trajetória empreendedora de Santos começou em 1989 quando, aos 17 anos, criou uma serigrafia de adesivos para motos. Mas desde os 8 ele já ganhava o próprio dinheiro, montando fusíveis sob encomenda de um conhecido, que revendia o material. "O Sidney nasceu empreendedor", diz sua irmã Alexandra, que trabalha numa empresa de equipamentos para motos no interior de São Paulo. "Ele sempre fez tudo sozinho." Por isso, quando Santos comunicou à família que iria montar uma serigrafia, ninguém se surpreendeu. "Ele sempre dizia que queria ser empresário", diz Rosa Helena, sua mãe. Santos trabalhava num porão perto de casa, na zona norte de São Paulo. Fabricar adesivos para motos, porém, tinha muitas limitações - a principal era o pequeno número de clientes, que não trazia perspectiva de crescimento para o negócio. Em 1993, Santos fechou a empresa e abriu outra serigrafia, de adesivos promocionais. Como não conseguia financiamento, vendeu o que tinha - um carro e uma moto - para investir no novo negócio. Três anos mais tarde, os adesivos promocionais também pareciam ter dado o que podiam. "Eu queria ir muito mais longe", diz Santos. Assim, em 1996, o grupo passou a atuar como uma distribuidora de máquinas e produtos para impressão. Alguns anos depois, ele resolveu importar máquinas chinesas - e embarcou para a China, falando um inglês precário, à procura de um fabricante. Nos primeiros dias em Pequim, ele e o sócio se perderam um do outro ao descer do metrô. Só se reencontraram, 8 horas depois, porque o sócio esbarrou numa boa alma que o levou até o hotel onde estavam hospedados. "Foi uma aventura", diz Célia Branco, diretora comercial do grupo Sid. A inclusão de equipamentos chineses aumentou a competitividade e permitiu ao grupo exportar para 15 países, incluindo os Estados Unidos. Em apenas dois anos, a filial de Miami, por enquanto a única no mercado americano, se tornou responsável por 12% do faturamento. Até hoje, Santos se inspira nos tempos de circo para conduzir os negócios. Quando aparece uma dificuldade, ele se lembra de quando tinha de lidar com gente espírito-de-porco na arquibancada, como acontecia quando algum bêbado queria atrapalhar seus números. "Esse bêbado vive reaparecendo, disfarçado", diz Santos. "Pode ser um cliente chato ou gente que joga contra. Mas eu nem ligo."null
Inovação e paixão Ele era servente de pedreiro e inventou uma técnica para fazer casas populares. Ela continuou estudando - e ajudou a profissionalizar a construtora do casal Luciana Barreto O casal de empreendedores catarinense Eliane e Sidnei Borges dos Santos fundou a BS, construtora sediada em Mato Grosso que fatura 80 milhões de reais. A BS fabrica moradias muito simples. Mas as casas que hoje Borges e Eliane fazem aos montes são muito mais confortáveis que as do começo de seu casamento. Na primeira em que os dois moraram, em Sorriso, onde fica a sede da BS, havia uma fossa aberta e insetos passeavam pelo teto. "Se naquela época eu tivesse uma casa como as que fazemos hoje, eu já me consideraria um homem realizado", diz Borges. Da fábrica da BS saem cômodos inteiros, como numa linha de montagem, já com janelas, encanamento e instalações elétricas. Boa parte é vendida em grandes quantidades a empresas, como a Sadia, que precisam que os funcionários morem perto das fábricas ou das granjas, e por isso facilitam o financiamento para eles. O sistema criado para tornar isso possível deu ao casal o Prêmio Endeavor & EXAME PME de Empreendedorismo, na categoria Inovação. Borges entrou na construção civil com 16 anos, na função mais simples - a de servente de obras - e foi parar na parte de cima do organograma. Ele nem concluiu o ensino fundamental "Quando a BS me der algum tempo, vou fazer supletivo e, quem sabe, faculdade", diz. Filho de camponeses, o empreendedor começou a trabalhar na roça do pai aos 12 anos, em Xaxim, no oeste catarinense. Até hoje tem cicatrizes nas mãos, causadas pela colheita de trigo. Mais tarde achou que teria mais oportunidade em canteiros de obra. Aos 18 anos, já promovido a pedreiro, Borges recebeu proposta para se mudar para Sorriso, em Mato Grosso, e trabalhar na empreiteira de um primo que ele não conhecia. Teria um automóvel à sua disposição para vistoriar as obras. "Vá", disse-lhe o pai. "Você não tem nada, não vai perder nada." Rapidamente, as expectativas com o novo emprego se esvaíram. As finanças da empreiteira iam mal. O tal automóvel prometido não apareceu. Borges foi colocado na função de pedreiro, e não na de mestre-de-obras, como o combinado. Algum tempo depois, o primo desistiu e mudou-se de cidade, deixando incompleta a oficina mecânica que Borges estava construindo. Ele terminou o serviço em troca de um pequeno pagamento. Depois da experiência, ficou mais fácil para Borges pegar reformas, como profissional autônomo. Pouco depois, Eliane entrou em sua vida. Ela tinha 17 anos; ele, 20. Como amigos, já se conheciam há muito tempo, por intermédio da irmã dele. Numa viagem dela a Sorriso, se apaixonaram. Um ano depois, casaram-se, Eliane se mudou para Sorriso e, tempos depois, retomou os estudos. Em 1995, o casal montou uma pequena empreiteira. A empresa era uma bagunça. Borges não sabia fazer orçamentos e Eliane assumiu as finanças. Posteriormente, a formação de Eliane - ciências contábeis e especialização em administração - foi importante para ajudar na tomada de decisões. Houve um momento em que Borges quis diversificar os negócios, investindo em agropecuária. A mulher não deixou. "Era importante não fazer muitas coisas ao mesmo tempo", diz Eliane. Faltava, ainda, um passo essencial para o modelo de negócios inovador da BS, dado um ano atrás. Freqüentemente, grandes empresas precisam construir casas para funcionários quando investem numa instalação, como uma fábrica nova. Borges cogitou desenvolver um sistema de fabricação de casas pré-montadas, e chegou a criar protótipos. Um dia, por acaso, um diretor da Sadia comentou que estava com um problemão - a empresa precisava fazer um conjunto habitacional para funcionários para uma de suas instalações em Mato Grosso. Eram cerca de 1 500 casas de alvenaria, mas as construtoras não conseguiam apresentar propostas viáveis. Borges falou de sua idéia e apresentou seus protótipos. O pessoal da Sadia gostou de imediato. A habitação sairia pronta da fábrica, já com encanamento, rede elétrica e pintura, e as obras não seriam interrompidas nos meses de chuva. O uso de moldes permitia fazer até 15 casas de concreto por dia - velocidade cinco vezes maior que a do processo normal. Agora, Borges e Eliane esperam fazer a BS crescer, expandindo esse sistema. Eles estão negociando com grandes construtoras, que devem comprar as casas prontas e completá-las apenas com piso e cobertura. O casal também quer ganhar dinheiro com o licenciamento da tecnologia de fabricação. "Espero que, em breve, nossas casas estejam espalhadas por todo o Brasil", diz Eliane. null
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