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As capitais da excelência

Eis a nova dinâmica do século 21: a disputa por investimentos e mão-de-obra qualificada não se dará mais entre países, mas sim entre cidades
 
Por Malu Gaspar | 17/05/2007

A cidade indiana de Bangalore tem pouco em comum com seu entorno no empobrecido estado de Karnataka, no sul da Índia. Com 7 milhões de habitantes, a metrópole tornou-se a meca dos investimentos e de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo, um símbolo da força e do alcance da globalização. Não foi por acaso que o jornalista americano Thomas Friedman usou-a como inspiração para afirmar, em seu livro O Mundo É Plano, que há cada vez menos barreiras físicas para negócios e pessoas e é cada vez mais fácil para as empresas espalhar suas atividades pelo planeta em busca de mais produtividade e lucro. Nesse novo mundo, desenhado por Friedman, a emergência de "cidades globais" como Bangalore é uma evidência de que, quanto mais apátridas o capital e o talento, mais decisivo passa a ser o local onde os investimentos são feitos. "Há uma mudança importante na competição mundial por investimentos. São as cidades, e não os países, que vêm liderando esse processo", diz a economista Lamia Kamal, especialista em urbanismo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A OCDE analisou 78 metrópoles de seus 30 países-membros para avaliar o grau de competitividade dessas cidades. A principal constatação do estudo é que as cidades e as regiões metropolitanas estão se tornando tão ou mais importantes do que os países na disputa pelos investimentos das empresas. A tese fundamenta-se em dois pontos. O primeiro deles é que características como infra-estrutura de transporte urbano, rede de serviços e -- especialmente -- qualidade de mão-de-obra vêm ganhando relevância na lista de prioridades das companhias. Esses são atributos muito mais ligados a cidades que a países, normalmente mais heterogêneos. Além disso, tal cenário tem sido reforçado pela aproximação entre as condições macroeconômicas de vários países -- que, com raras exceções, caminham para câmbio flutuante, inflação baixa e ambiente favorável aos negócios. "É no microcosmo, portanto, nas cidades, que as diferenças serão mais marcantes", diz Lamia. Nessa corrida para atrair investimentos, inúmeras cidades estão se saindo muito bem. Em levantamentos como o da OCDE e de consultorias internacionais como McKinsey e KPMG, quatro grandes pólos de desenvolvimento são enfaticamente citados, ao lado de Bangalore, como referência de cidades com alto grau de competitividade. São eles: Dubai, nos Emirados Árabes, Suzhou, na China, a cidade-Estado de Cingapura e Bilbao, na Espanha. Essas metrópoles possuem uma trajetória em comum: cada uma delas transformou-se, rapidamente, em centro de excelência de determinada área -- seja na capacidade de atração de empresas multinacionais, seja na fabricação de produtos eletrônicos, seja em turismo.

Bangalore, por exemplo, concentra mais de 1 300 empresas e 160 000 técnicos e programadores em informática. É a capital da tecnologia da informação. A cidade abriga os centros de pesquisa e desenvolvimento de praticamente todas as companhias relevantes do setor, foi responsável por 40% das exportações de software da Índia e, por larga margem, tem a maior renda per capita do país. O grande trunfo de Bangalore foi oferecer as vantagens de custo de mão-de-obra que as empresas americanas de tecnologia procuravam no início desta década, imediatamente depois do estouro da bolha da internet. "A pergunta hoje é por que, entre tantos locais no mundo, uma empresa deveria colocar seu negócio neste ou naquele", diz o professor Christian Ketels, do Instituto de Estratégia e Competitividade da Universidade Harvard. Segundo ele, os melhores exemplos de cidades globalmente competitivas são as que souberam tirar proveito de sua vocação. "Não importa se são as universidades, a infra-estrutura ou uma política fiscal atrativa. O que importa é saber o que é que uma cidade ou região tem que nenhum outro lugar poderia reproduzir, e reforçar isso."

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