"Pow!", ouve-se o som de um soco ecoando ao lado de um bambuzal. Aos poucos, cada um dos 30 integrantes de um grupo vestido de quimonos brancos vai sendo convidado a desferir um golpe. É meio-dia de uma quinta-feira ensolarada, faz um calor infernal e todos estão suando muito. Na frente da turma, recebendo o impacto dos socos, estão os professores de caratê Wladimir Romic e Marcio Romero. Mas o objetivo dos mestres na bucólica fazenda Itahypá, localizada a duas horas de carro de São Paulo, não é exatamente ensinar artes marciais. O treinamento faz parte de um programa para ajudar essas pessoas a gerenciar conflitos com maior facilidade quando voltarem para casa - ou, mais precisamente, para o escritório.
Os participantes são engenheiros, vendedores, office-boys e diretores da subsidiária brasileira da Computer Associates, a CA, uma empresa de software americana que faturou 5,1 bilhões de dólares no ano passado. A meta para o final do ano que vem é incrementar as vendas em 1 bilhão de dólares com a expansão dos negócios para a área de serviços. No Brasil, estima-se no mercado que o faturamento da CA foi de cerca de 200 milhões de dólares. Outras empresas deverão ser adquiridas para duplicar as operações. Com seu quimono já sujo de terra, Elizabeth Dambock, vice-presidente para a América Latina, procura fazer uma associação entre o programa e os novos desafios. "Mudanças geram conflito e precisamos nos preparar para essa nova etapa de crescimento", diz Elizabeth.
Durante o encontro, porém, as novas estratégias e o nome da empresa não são pronunciados uma única vez. "Aqui, o foco é nas pessoas, na saúde e no equilíbrio emocional. Neste programa, não há expectativa de retorno imediato", diz Rodrigo Moura, vice-presidente de administração e recursos humanos da CA.
Mas afinal, o que se pode aprender em 16 horas de exercícios físicos, palestras e vídeos sobre a filosofia dessa arte marcial? A meta, fisicamente falando, é que todos os participantes consigam realizar um kata (pronuncia-se catá) no último dia do programa - uma combinação de movimentos que demora três meses para ser realizada em uma academia. É claro que as lições do treinamento são mais comportamentais do que técnicas - afinal, além de teclar o computador, alguns funcionários da CA não praticam atividades físicas com regularidade. "Por meio de exercícios acessíveis a todos, mostramos como as pessoas podem se posicionar diante de um conflito, avaliar a situação e decidir qual é a melhor forma de reagir", diz o professor Romic.
O treinamento começa com golpes de braço. Depois, cada um dos participantes analisa sua postura pessoal e o que predominou em seu comportamento, se foi ataque ou defesa. Na seqüência, os aprendizes de carateca são convidados a inverter seus papéis. Aqueles que se sentiram melhor atacando vão para a defesa, e vice-versa. No final, acabam aprendendo outras formas de tratar os conflitos, com movimentos de contra-ataque e esquiva.
Para avaliar o desempenho individual, cada integrante é convidado a dar um soco duas vezes, no começo e no final do treinamento. Os dois movimentos são gravados em vídeo para que cada um possa analisar suas potencialidades e como conseguiu desenvolvê-las por meio dos exercícios. "É uma busca individual. Nossa empresa já é bastante competitiva. Não queremos funcionários melhores, queremos pessoas melhores", diz Moura. Ele foi o primeiro cliente a encomendar o pacote de caratê empresarial à Target, uma consultoria de vendas, negociação e desenvolvimento gerencial de São Paulo, que presta serviços para empresas como BankBoston, Varig, Accor e Cargill.
A idéia de oferecer o caratê como um produto para incentivar o autoconhecimento e testar limites e potencialidades das pessoas nas empresas surgiu quando Luciana Dória, diretora da Target, acompanhou nos Estados Unidos o congresso da American Society of Training and Development, no ano passado. Durante o evento, ela ficou impressionada com uma palestra de um professor de aikidô que trabalhava para empresas americanas.
Ao voltar, comentou sobre o assunto com seu irmão, o diretor comercial Eduardo Dória, que é praticante de caratê. Ele explicou a Luciana como sempre utilizara os preceitos dessa arte na sua vida profissional. A partir daí, a dupla elaborou um projeto fazendo a conexão entre o caratê e o escritório. O projeto levou quase um ano para ficar pronto. A dificuldade era saber se, em tão pouco tempo, os participantes conseguiriam aprender a manejar suas reações emocionais e fazer as conexões necessárias entre a luta e a vida real - e assim tomar as decisões corretas. O ensinamento do kata parecia perfeito para transmitir essa simbologia. "Em momentos de estresse, as pessoas estão condicionadas a reagir de uma certa forma. O caratê pode ensinar outros caminhos", diz Luciana.
Muito bonito na teoria, mas na prática realmente funciona? Sergio Yamassaka, que é gerente na área comercial da CA, pensa que sim. Ele é descendente de japoneses mas nunca tinha lutado caratê. Quando assistiu em vídeo o conjunto de exercícios que teria de aprender em dois dias, achou que seria impossível. Yamassaka gritou, suou e rolou na grama. No final, como todos os outros participantes, também conseguiu completar seu kata. "Na área de vendas, ter autocontrole, dominar a ansiedade e o nervosismo são fundamentais. Acho que aprendi boas lições com o carat", afirma Yamassaka.