O estrondoso sucesso da Gol, segunda maior companhia aérea do país, deu origem a um novo lugar-comum no capitalismo brasileiro. Basta surgir uma empresa que cobra mais barato que as concorrentes para ser apelidada de "a nova Gol" do pedaço. Foi assim, por exemplo, com o Atacadão, no varejo, e com o grupo Iberostar, no ramo hoteleiro. Aparentemente, é na telefonia que surge o legítimo herdeiro da companhia aérea da família Constantino -- a Unicel, recém-criada operadora de telefonia celular que pretende cobrar 40% menos que as rivais. Essa legitimidade não nasce apenas do modelo de negócios de baixo custo e baixa tarifa. Segundo EXAME antecipou, os próprios sócios da Gol atestaram as semelhanças entre as duas empresas e estão em negociação para comprar 45% do capital da operadora, ao custo estimado de 50 milhões de dólares. Se a compra for consumada, a Unicel torna-se o mais novo membro do crescente grupo de empresas que receberam investimentos dos bilionários donos da Gol -- o grupo Áurea, a petroquímica Providência e a companhia de investimentos em rodovias BRVias. "As operadoras não sabem vender pequenas quantidades de minutos de forma eficiente", diz José Roberto Melo, presidente e fundador da Unicel.
As negociações com a família Constantino começaram no fim de maio e estão correndo a toque de caixa. Já ocorreram cerca de oito encontros com os controladores da Gol e o representante da família no negócio, o ex-ministro do Planejamento Antônio Kandir, que é membro do conselho de administração da Gol desde 2004 e administrador do FIP Asas, um dos fundos de investimento criados pelos Constantino. José Roberto Melo chegou aos donos da Gol por intermédio de Álvaro Simões, ex-executivo dos bancos Unibanco, Santander e Citibank e um dos primeiros investidores da Unicel. No dia 18 de junho, chegou-se a um acordo em relação ao preço e à participação que a família Constantino terá na nova empresa. No mesmo dia, os advogados dos controladores da Gol, do escritório Mundie, começaram a vasculhar os documentos da Unicel, na chamada due dilligence. Como a empresa não tem passivos, pois acaba de ser criada, o processo tende a ser célere.
A exemplo da Gol, o modelo de negócios da Unicel tem na simplicidade seu maior aliado. No caso da companhia aérea, bastou oferecer vôos em uma única classe, com apenas um modelo de avião, voando somente em rotas nacionais. Os concorrentes ofereciam três classes, tinham frotas assemelhadas a uma salada de frutas e voavam para o mundo inteiro. O que a Gol descobriu, e todas tentaram imitar em seguida, é que complexidade gera custos. A Unicel, com a providencial ajuda dos Constantino, vai tentar fazer parecido. Enquanto as grandes do setor oferecem diversos aparelhos, inúmeros planos de tarifas e, no caso da Vivo, duas tecnologias (CDMA e GSM), a Unicel venderá apenas chips de celulares pré-pagos com a tecnologia GSM. Sua rede será restrita à região metropolitana de São Paulo, que é atendida, atualmente, por Vivo, TIM e Claro (trio que atua em todos os estados e detém quase 80% do mercado brasileiro). Para tirar clientes das grandes, a Unicel pretende oferecer minutos de ligação a um custo 40% menor que a média do mercado.
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