A simples menção ao banco americano Goldman Sachs costuma suscitar nos concorrentes do mercado financeiro uma espécie de temor reverencial. Num setor extremamente competitivo e repleto dos melhores talentos saídos das escolas de administração, o Goldman consegue se manter no posto de maior, mais inovador e mais rentável banco de investimentos do planeta. Esse desempenho se reflete na remuneração dos funcionários. Só no ano passado, o Goldman distribuiu em média 622 000 dólares por empregado. Para seu presidente, Lloyd Blank fein, a bolada foi de 54 milhões de dólares, a maior da história de Wall Street. Ou seja, Blankfein ganhou mais de 12 000 reais por hora em 2006 -- isso se forem incluídas na conta as horas dormidas. A atuação do Goldman no Brasil, porém, é apenas um arremedo desse poder todo: desde que chegou ao país, nos anos 90, seu ganha-pão resume-se basicamente à assessoria de fusões e aquisições. Inúmeras vezes desmentidas pelos fatos, as promessas de operar para valer no país tornaram-se motivo de piada entre os rivais. Essa hora, porém, finalmente chegou -- está marcado para o dia 14 de março o tão aguardado (e tão adiado) lançamento do banco do Goldman Sachs no Brasil.
Os detalhes da estrutura do novo banco só serão revelados pelo Goldman às vésperas da inauguração (seus executivos negaram seguidos pedidos de entrevista para esta reportagem). Algumas informações obtidas por EXAME, porém, já ajudam a vislumbrar a nova estrutura. O banco terá diversas áreas que o Goldman nunca trouxe para o Brasil -- análise de empresas, distribuição de ações, gestão de recursos e negociação de títulos de renda fixa e derivativos. A equipe de análise de companhias brasileiras terá oito profissionais e será liderada por Stephen Graham, ex-UBS, americano que vive no Brasil e fez carreira como analista no setor de telecomunicações. Com a criação de um time de vendas e distribuição de papéis, o Goldman vai tentar surfar a onda das emissões de ações e aberturas de capital, grande gerador de receitas para os bancos de investimento brasileiros no momento e nicho em que a instituição americana é irrelevante atualmente. A meta é anunciar no dia 14 o diretor de uma nova área, responsável apenas por gerar negócios no mercado de capitais. A corretora, outro eterno projeto jamais concretizado pelos americanos, deve começar a funcionar ainda no primeiro semestre.
Até agora, a maior dificuldade enfrentada pelo Goldman tem sido justamente contratar banqueiros no pequeníssimo mercado brasileiro. Nas últimas semanas, executivos da área de recursos humanos do Goldman em Nova York, sob a coordenação do presidente do banco para a América Latina, Eduardo Centola, vêm disparando telefonemas para funcionários de concorrentes em escritórios no Brasil e no exterior. A data do anúncio do banco, nesse aspecto, não é mero acaso. Em fevereiro, todos os rivais já pagaram seus bônus, e os funcionários do mercado financeiro estão dispostos a conversar. "É impossível ganhar espaço sem formar uma equipe de primeira linha", diz o diretor de um banco de investimentos estrangeiro. "E, num mercado restrito como o brasileiro, essa é também a tarefa mais difícil." Dois desafios podem complicar ainda mais os planos do Goldman Sachs no momento. O primeiro é que o mercado nacional está mais aquecido do que nunca -- ou seja, é mais caro tirar um banqueiro de uma firma com a estrutura já montada, pronta para gerar negócios e, conseqüentemente, apta a pagar bônus atrativos no fim do ano.
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