Uma das mais marcantes características da cervejaria Schincariol é sua capacidade de surpreender. A primeira demonstração disso aconteceu em 2003. Na época, a empresa não passava de uma pouco conhecida fabricante de tubaínas da cidade paulista de Itu, que também produzia uma cerveja de qualidade considerada duvidosa. Essa empresa, então, anunciou que investiria 500 milhões de reais para lançar uma nova marca de cerveja, a Nova Schin. O produto não chegou a entusiasmar os consumidores mais exigentes, mas a Schincariol praticamente dobrou suas vendas e assumiu a vice-liderança do mercado nacional, deixando para trás a Kaiser (hoje nas mãos da mexicana Femsa). Dois anos depois, em junho de 2005, o talento para provocar surpresas manifestou-se novamente. Dessa vez, porém, misturado a uma antes latente vocação para arrumar confusão. Seus controladores, entre eles o presidente Adriano Schincariol, foram presos pela Polícia Federal durante a Operação Cevada. Eram acusados de comandar um esquema de sonegação de impostos. Após quase dois anos de silêncio, a companhia voltou a espantar aqueles que a consideravam um zumbi vagando num mercado amplamente dominado pela Ambev. No final de janeiro, a Schincariol anunciou a contratação do executivo Fernando Terni, principal executivo da subsidiária brasileira da Nokia, como seu novo presidente.
O estranhamento causado pela contratação de Terni tem dois motivos. Primeiro, porque o executivo deixou um cargo altamente visível numa das maiores multinacionais de tecnologia para assumir uma empresa imersa em problemas de reputação. Segundo -- e provavelmente menos importante -- porque Terni não tem experiência alguma no setor. Antes da Nokia, que assumiu em 2001, ele foi presidente da Intelig e passou mais de uma década na ABB, empresa suíço-sueca que fabrica robôs e equipamentos para usinas de eletricidade. Em nenhuma dessas ganhou fama de reestruturador, algo que poderia chamar a atenção de uma empresa que enfrenta os desafios da Schin. Quando contrataram a firma de headhunting Egon Zehnder para buscar um presidente, não era Terni que os donos da Schincariol tinham em mente. Ele foi o quinto da lista de sondados pela companhia. Pessoas próximas à família Schincariol dizem que, antes dele, Antônio Maciel Neto, ex-Ford e hoje na Suzano Papel e Celulose, Fernando Tigre, ex-Kaiser, Augusto Cruz, que foi presidente do Pão de Açúcar, e Dante Iacovone, ex-BCP, Motorola e Gradiente, foram procurados e recusaram a proposta. Para garantir que Terni aceitasse o convite e deixasse a prestigiosa posição na Nokia, a Schin ofereceu um pacote financeiro poderoso, que inclui participação numa possível venda da companhia. "A presença de uma figura como Fernando Terni na Schincariol é importante para dar credibilidade à empresa, mais até do que por sua capacidade de gestão", afirma um dos mais respeitados headhunters do país.
Sem experiência em fabricar, vender ou sequer beber cerveja -- Terni é um apreciador de vinhos e seus amigos dizem que ele faz cara feia para um copo de chope --, o executivo tem agora a mais difícil missão de sua carreira. Ele chega à empresa num momento particularmente difícil. A participação de mercado vem caindo de forma lenta, mas constante, desde o lançamento da Nova Schin. Do pico de 15,3% em dezembro de 2003, caiu para um patamar de 12% no fim de 2005. No ano passado, registrou a maior queda entre as cervejarias, atingindo 11% do mercado em dezembro. Em janeiro conseguiu uma leve recuperação de 0,4 ponto percentual. A situação é ainda pior se forem analisadas algumas das principais praças de consumo do país, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde houve quedas de 40% e 17,5%, respectivamente. Em São Paulo a participação do grupo está estagnada em cerca de 7%. "A Schincariol é extremamente dependente do Nordeste, principalmente Bahia e Pernambuco, e isso pode ser arriscado", diz um analista do setor. "Se um concorrente deflagrar uma guerra de preços nesses locais, a margem de lucro deles pode sumir." Em Pernambuco a cervejaria é dona de cerca de 35% do mercado, e na Bahia sua participação passa de 40%.
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