"John speaking." É assim que o fundador da Cyclades atende o telefone. Seu sobrenome é Lima e suas origens estão no interior do Rio Grande do Norte, onde a família planta café. Mas John Lima fala do rancho que comprou na Califórnia. Ele e seu sócio, Daniel Dalarossa, são um dos raríssimos casos de brasileiros que fizeram sucesso no coração da indústria tecnológica mundial, o Vale do Silício. A empresa que fundaram numa garagem paulistana há 18 anos foi vendida no início de 2006 por 90 milhões de dólares graças a um produto de qualidade reconhecida e a um senso de oportunidade apurado. Quando a internet começou a crescer, Lima e Dalarossa identificaram um mercado promissor, inovaram no modelo de negócios e fizeram da Cyclades referência em componentes usados nos bastidores da web. Com a venda para a Avocent, fabricante de equipamentos de rede, ambos ficaram milionários. Sua história de persistência e gosto pelo risco contém várias lições para os empreendedores brasileiros.
Das 100 maiores empresas do mundo segundo a revista Fortune, 85 usam os produtos da companhia criada por Lima e Dalarossa. No início dos anos 90, porém, era difícil encontrar um único cliente. O paulistano Dalarossa, formado em ciência da computação na Universidade de São Paulo, já nutria a vontade de tocar um projeto próprio desde a metade da década de 80. Bastou um pouco de conversa para convencer o pediatra de seu filho recém-nascido a adotar um software de automação de prontuário que ele mesmo desenvolveu em casa durante as férias. Na hora de bater o martelo, o jovem técnico fixou o preço no mesmo patamar de um bom carro zero -- e o médico preferiu investir num Santana. Naquele instante, Dalarossa desconfiou que jamais seria capaz de fechar um negócio importante. Retomou o emprego na Digirede, fornecedora de software de automação bancária. Foi na empresa que ele conheceu seu futuro sócio, que ainda se chamava João Lima (o nome foi alterado para facilitar a comunicação nos Estados Unidos). Um "eterno migrante", como gosta de se definir, Lima havia deixado a pequena cidade de São Miguel aos 16 anos em direção a Campinas. Foi cursar a escola de cadetes do Exército e, depois, entrou para o curso de engenharia da Unicamp.
AMBOS TINHAM POSIÇÕES de chefia na empresa, mas queriam ser donos de um negócio próprio. Alugaram uma garagem abafada e desprovida de qualquer estrutura no bairro da Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, na época uma região residencial. A escolha do local obedeceu a apenas dois critérios: era barato e ficava no meio do caminho entre as casas dos sócios. Foi lá que começou a tomar forma a idéia de uma placa que permitisse aos sistemas de agências bancárias comunicar-se com os grandes computadores centrais das instituições financeiras. O programa recusado pelo médico serviu de base para o desenvolvimento do software -- o trabalho não foi inteiramente perdido, afinal --, enquanto a parte física do equipamento ficou por conta de Lima. Como inicialmente ambos mantiveram seus empregos formais, o expediente na garagem começava por volta das 20 horas e por vezes estendia-se além da meia-noite. "Era tão puxado que eu dormia até mais tarde e fazia a barba na empresa", diz Dalarossa. Assim que as vendas começaram, as instalações da Cyclades foram transferidas para uma casa no bairro do Brooklin, também na zona sul de São Paulo. Mas não houve tempo para comemorar: o Plano Collor e um grave problema técnico quase mataram a companhia precocemente. Algumas noites em branco depois, o defeito foi resolvido, e a Cyclades engrenou. A montagem das placas, inicialmente feita à mão com a ajuda de familiares, foi profissionalizada e terceirizada.
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