Depois de descobrir que a poluição causada por uma indústria estava provocando casos de câncer numa pequena cidade da Califórnia, uma assistente de advogados entra na Justiça e consegue que a empresa pague uma indenização milionária. Esse caso verídico, ocorrido em 1993 nos Estados Unidos, rendeu roteiro para um filme de Hollywood (Erin Brockovich, estrelado por Julia Roberts) e serviu de inspiração para um ecologista mover recentemente uma grande batalha na China. O personagem em questão, o clínico geral Zhang Changjian, de 46 anos, também investigou um caso grave de contaminação provocada por detritos industriais, denunciou a companhia responsável e mobilizou os moradores da área atingida para brigar por seus direitos na Justiça. A longa história de sua luta e as represálias que ele vem sofrendo por causa dessa militância transformaram Changjian num símbolo de resistência no país que, em troca de desenvolvimento e progresso numa velocidade assustadora, transformou-se num dos maiores vilões do meio ambiente no planeta.
A história começou em meados de 1994, quando ocorreu a inauguração da indústria de produtos químicos Rongping, no município de Pingnan. Logo após o início das atividades da fábrica, o médico Changjian, que atende a população da re gião, constatou uma série de anormalidades. Primeiro, o aumento da mortandade de peixes dos rios da cidade e uma seca inexplicável que assolou a plantação dos lavradores. Em seguida, Changjian notou que o número de pacientes em seu consultório começou a crescer. Os sintomas mais comuns eram dores de cabeça, náuseas, irritações na pele e problemas respiratórios. Ao longo dos anos, o médico também observou que havia quadruplicado o número de mortes por câncer no município. Assustado com a situação, Changjian decidiu investigar o caso. Com alguns moradores, coletou amostras de resíduos despejados pela indústria nos rios que abastecem a cidade. Os resultados foram estarrecedores. Entre outros problemas, o nível de cromo contido na água estava dez vezes acima do padrão. "Eu tinha esperança de que, ao comunicarmos o problema, a Rongping tomasse alguma atitude", disse Changjian a EXAME. "Infelizmente, não foi o que ocorreu."
Indignado com a indiferença da fábrica, o médico iniciou uma intensa campanha com o objetivo de chamar a atenção da imprensa e do governo para o que estava ocorrendo em Pingnan. Chegou até a criar uma página na internet com fotos e detalhes da situação. Por fim, mobilizou 1 721 pessoas a entrar com um processo contra a Rongping, em 2002. A indústria negou qualquer responsabilidade sobre a poluição dos rios. Depois de uma longa briga nos tribunais, a sentença saiu, em março, condenando a empresa a pagar uma indenização de 85 000 dólares aos moradores de Pingnan e das redondezas. Embora seja um valor pequeno, decisões desse tipo ainda são raridade na China.
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