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Em questão, o mito da meritocracia

Para historiadora, mais que o mérito, é o cultivo das boas relações que serve de motor para o capitalismo americano
 
Por Álvaro Oppermann | 06/09/2006

De Henry Ford a Bill Gates, é formidável a galeria dos self-made men nos Estados Unidos. A explicação de tanto sucesso, no entanto, sempre foi curiosamente austera: tudo não passou -- segundo a versão clássica da história -- de fruto do mérito e da recompensa ao esforço individual. Os Estados Unidos, afinal, são por excelência a terra da me ritocracia. Talvez seja por esse motivo que as idéias da historiadora Pamela Walker Laird tenham gerado tanta polêmica e provocado convulsões na academia americana desde que ela lançou, no início deste ano, a obra Pull -- Networking and Success since Benjamin Franklin (algo como "Empurrão -- relacionamentos e sucesso desde Benjamin Franklin", ainda sem tradução para o português). Para a autora, que leciona história dos negócios na Universidade do Colorado, o mérito não explica tudo na construção de carreiras e fortunas no país. Longe disso. O lado menos espetacular, mas segundo ela muito mais efetivo do épico americano, foi o cultivo de relações sociais promissoras por parte dos empreendedores americanos. "Nas biografias de todas as pessoas que saíram da pobreza e fizeram fortuna, um fator é constante: a presença de conexões e bons relacionamentos para que tal coisa acontecesse", escreve. "A história americana negligenciou até hoje a evidência das dinâmicas sociais na construção da prosperidade. Isso fica claro no mito do self-made man." Para ela, aliás, é um erro chamá-lo assim. O correto seria o termo mutually-made men. Trocando em miúdos, para Pamela Walker Laird ninguém se faz sozinho, mas sim com muita ajuda alheia -- o que ela chama de "capital social". Segundo Pamela, existem aí dois processos separados (apesar de interdependentes): mentoring e networking. O primeiro, como diz o nome, é o da adoção de um mentor, responsável pelo aconselhamento na carreira e pela abertura de portas a um novato. O segundo, mais complexo, é o da formação de associações, de redes de amizade, de grupos comunitários, tendo em vista o benefício não só pessoal, mas de toda uma coletividade. Os objetivos das redes de relacionamentos sempre foram diversos: arranjar empregos para seus membros, angariar fundos, conseguir crédito bancário, e -- acima de tudo -- trocar informações para desenvolver negócios e profissões.

Até mesmo a hegemonia do cinema americano explica-se em parte pelo processo de networking. Em 1919, em Hollywood, um punhado de diretores de fotografia criou a American Society of Cinematographers. Não era um sindicato nem mesmo um grêmio, mas a organização teve desde o início o propósito da troca de informações sobre os truques da profissão, como técnicas de iluminação ou as melhores câmeras e lentes disponíveis no mercado. Em dez anos, o nível técnico americano -- que perdia feio para o alemão na década de 1910 -- deu um salto e nunca mais foi igualado.

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