O governo deu mostra, nas últimas duas semanas, de como interesses eleitorais misturados a uma forma míope de enxergar a realidade podem anuviar a racionalidade que se deveria esperar da gestão pública e atrapalhar a vida de empresas e trabalhadores. Com o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, à frente, mas contando com o engajamento do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo se meteu numa polêmica e inócua tentativa de intervenção no processo de reestruturação de uma empresa, a Volkswagen do Brasil. O anúncio de que a montadora, em apuros devido à valorização cambial e a dificuldades no mercado, deflagraria em suas fábricas uma série de demissões -- cedo ou tarde inexoráveis, ao que tudo indica -- já era conhecido há um bom tempo. Mas precipitou, no final de agosto, uma onda de resistência e de pressões que se estendeu muito além dos protestos dos sindicalistas e das lamentações de praxe por parte de autoridades. Raramente se viu um governo tão empenhado em impedir demissões numa empresa específica -- talvez por tratar-se de uma representante do ABC paulista, berço político do Partido dos Trabalhadores, do próprio Lula e do ministro Marinho. "Em vez de cuidar da Volks, o governo deveria se preocupar com um plano para tornar o setor todo capaz de competir com a China, que está cada vez mais desenvolvida", diz Corrado Capellano, especialista em indústria automobilística da consultoria Roland Berger.
Na tentativa de estancar prejuízos acumulados de quase 3 bilhões de reais nos últimos cinco anos, a Volkswagen havia comunicado desde maio que podaria 5 700 postos de trabalho em três de suas fábricas no país. O corte mais profundo, de 3 600 empregos, caberia exatamente à unidade de São Bernardo do Campo, no ABC. Dos sindicatos chamados a negociar as condições para a efetivação das demissões, o de Taubaté, no interior paulista, aceitou sentar à mesa e, um mês e meio depois, chegou a um acordo. Imediatamente, a matriz da empresa alemã confirmou, sem especificar o valor, que até 2009 a fábrica receberá investimentos para produzir dois novos modelos de carro. Em São Bernardo do Campo, porém, a estratégia sindical foi outra: rejeitar os cortes e empurrar o problema para a frente, provavelmente contando com a possibilidade de uma ajuda do governo. Premidos por uma ordem da matriz para resolver até meados de setembro o problema das demissões, os execu tivos da montadora emitiram uma lista de 1 800 empregados que serão demitidos -- o que levou à decretação de uma greve que se mantinha até o fechamento desta edição.
Desencontros entre patrões e empregados são parte integrante do sistema capitalista -- não há, portanto, nada de anormal nisso. O estranho dessa história foi a forma escolhida pelas autoridades brasileiras para se meter num assunto que deveria ser de interesse exclusivo do setor privado. Exorbitando de suas funções, o ministro Marinho veio a público dizer que um empréstimo à Volkswagen da ordem de 500 milhões de reais, aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) em abril deste ano, estava suspenso. O argumento: uma instituição pública não deveria soltar dinheiro para uma empresa que não está em expansão e pretende demitir. Constrangido, Demian Fiocca, o presidente do BNDES, confirmou que a liberação do dinheiro poderia mesmo ser reavaliada. "É um absurdo um ministro chantagear uma empresa dizendo que vai mandar cancelar um empréstimo do BNDES", diz Richard Dubois, especialista em indústria automobilística da consultoria A.T. Kearney.
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