Na última década, o Brasil deixou para trás o caos macroeconômico e hoje começa a colher bons frutos: a inflação está controlada, as exportações batem sucessivos recordes e o risco-país segue em queda. Esse ambiente de relativa tranqüilidade pode levar à conclusão de que a tarefa de recolocar a economia nos trilhos já está finalizada -- agora bastaria relaxar e aproveitar. Engano. Apesar de todos os avanços registrados, o sistema econômico brasileiro ainda representa uma importante barreira ao crescimento do país. Essa barreira manifesta-se principalmente pelo patamar atual dos juros, ainda os mais estratosféricos do planeta, e pela estarrecedora carga de impostos. São essas algumas das principais conclusões de um extenso estudo realizado pela McKinsey, uma das mais importantes consultorias do mundo, sobre os obstáculos ao desenvolvimento do Brasil. No estudo, que EXAME publica com exclusividade, os técnicos da McKinsey compararam as economias de Estados Unidos e Brasil e identificaram os fatores que explicam a fantástica distância entre elas. As deficiências macroeconômicas do Brasil surgem como um dos elementos principais nessa explicação (outras duas barreiras ao crescimento brasileiro, insegurança jurídica e infra-estrutura precária, serão objeto de reportagens nas duas próximas edições de EXAME). "O brasileiro acrescentaria 4 000 dólares à sua renda média anual se colocasse a economia em ordem", diz Heinz-Peter Elstrodt, sócio-diretor da McKinsey no Brasil. "Isso equivaleria a somar 230 bilhões de dólares ao PIB nacional." É como se o Brasil jogasse fora a cada ano um PIB da Suíça por sua incapacidade de concluir a arrumação no sistema econômico.
O que significa terminar esse ajuste? O principal passo consiste em atacar, afinal, a doença crônica que acometeu o Estado brasileiro -- a obesidade mórbida. A cada ano, o paquiderme estatal engorda um pouco mais. Os gastos do governo quase dobraram desde 1991 -- e nada indica que tenham parado de crescer. Tanta gastança obriga o governo a aumentar constantemente o aperto tributário. A carga de impostos, de 28% do PIB em 1995, já beira a faixa de 40%. Apesar de a arrecadação bater recordes seguidos, a dívida líquida do setor público subiu de 30% para quase 50% do PIB de 1995 para cá. Fecha-se, assim, o círculo que aprisiona o país: para saldar suas dívidas, o governo investe menos e aumenta impostos, o que drena a capacidade de investimento da iniciativa privada. "É por isso que o Brasil está se convertendo num exemplo mundial de crescimento medíocre", afirma o economista Fabio Giambiagi, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Qualquer programa sério de controle de gastos tem necessariamente de atacar o problema da Previdência Social, uma conta cujo rombo cada dia assusta mais. Os benefícios pagos pelo INSS são, de longe, a maior despesa do governo -- representam 41% dos gastos da União. O INSS deve fechar o ano com déficit de 43 bilhões de reais, que será o 11o rombo consecutivo. Algumas alternativas deveriam estar sendo formuladas pelas equipes econômicas dos candidatos à Presidência. Uma saída relativamente simples -- embora custosa em termos políticos -- é quebrar a vinculação existente hoje entre os benefícios pagos pelo INSS e o valor do salário mínimo. Nos 12 últimos anos, o mínimo subiu mais de 90% em termos reais. Como duas em cada três pensões são atreladas ao salário mínimo, o resultado foi um aumento brutal de gastos com aposentadorias. A desvinculação faria com que futuros aumentos do mínimo deixassem de pesar nos cofres da Previdência. "Uma coisa é proteger nossos pais e avós do efeito corrosivo da inflação. Outra é dar aumentos acima da inflação, que acabam comprometendo a saúde do próprio sistema de previdência", diz Giambiagi.
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