Promovemos um debate muito interessante aqui na sede da Editora Abril, na terça-feira. O objetivo era discutir um tema que muita gente anda discutindo e que já abordei em alguns posts: com a crise financeira, a estratégia de sustentabilidade das empresas está indo para o brejo? Para buscar uma resposta, convidamos três pessoas de peso: Alessandro Carlucci, presidente da Natura, Marcos Bicudo, presidente da Amanco, e Marco Fujihara, diretor do Instituto Totum e da consultoria Key Associados. Carllucci e Bicudo estão à frente de empresas que são consideradas modelo pelo Guia EXAME de Sustentabilidade. Fujihara é um consultor que já há alguns bons anos monitora, com um olhar cético, o que as companhias fazem ou dizem fazer em prol do desenvolvimento sustentável. E qual foi a conclusão do debate? A óbvia (pelo menos pra mim): se o que a empresa tem é mesmo uma estratégia de sustentabilidade, ou seja, se o conceito está realmente incorporado ao negócio... a crise NÃO MUDA NADA! E tudo continua como antes. Se o que a empresa tem, porém, é uma estratégia para usar o termo sustentabilidade a favor de sua campanha de marketing... aí sim a coisa muda de figura!
Vamos pegar o exemplo da Amanco, que fabrica tubos e conexões hidráulicas. A empresa desenvolve há alguns anos um projeto bem interessante que se chama Doutores da Construção, que busca dar conhecimento de hidráulica para encanadores e pedreiros. E como a Amanco faz isso? Com a ajuda de uma rede de lojas de material de construção que vendem seus produtos Brasil afora. A loja entra com uma salinha que possa comportar uns 20 profissionais e uma TV. A Amanco, com as aulas - que são transmitidas ao vivo de um estúdio. Empresa e varejista racham os custos da formação e o mercado de construção civil ganha um profissional mais qualificado (coisa que não abunda no setor). Mas é só isso? Claro que não. Doutores da Construção poderia ser só o nome simpático para mais um projeto social se a Amanco também não estivesse vislumbrando que, com a capacitação, vai ganhar um profissional fiel à sua marca - e o varejista, um cliente fiel à loja. Espertinha a Amanco, né? Sim, e ainda bem. Doutores da Construção é um projeto social associado ao negócio da empresa e, por essa razão, não corre o risco de acabar por falta de recursos, ainda que o mar não esteja para peixe.
A história se repete na Natura, que, segundo palavras do próprio Carlucci, usa a sustentabilidade - e os desafios que ela coloca para as empresas - como motor para a inovação. E a linha Ekos de cosméticos espelha isso. Ou seja, a empresa compra, de comunidades tradicionais, castanha, piprioca e outros ativos da biodiversidade brasileira para seus cosméticos. E faz isso para ajudar essas comunidades a ganhar algum dinheiro? Sim, mas o Ekos não é um projeto de geração de renda - apenas. É negócio, e negócio que rende muito à empresa. Por essa razão, deve ter vida longa, e continuar gerando renda para essas comunidades.
A Global Reporting Initiative, mais conhecida como GRI, publicou recentemente um documento intitulado "Declaração de Amsterdã sobre Transparência e Elaboração de Relatórios". O objetivo é chamar a atenção dos governos para a necessidade de introduzir políticas que obriguem as empresas - e também órgãos públicos, empresas estatais, fundos de pensão e agências públicas de investimento - a abordar publicamente temas ambientais, sociais e de governança. Como? Por meio de relatórios. Isso porque, no documento, fica clara a posição do conselho diretor do GRI de que a crise financeira poderia ter sido amenizada - se houvesse m sistema de transparência global e de obrigação de prestação de contas baseado na diligência devida e na elaboração de relatórios públicos sobre o desempenho em termos ambientais, sociais e de governança.
É curioso que o GRI peça que os governos obriguem as empresas a ser mais transparentes. Afinal, a entidade - que tem sede na Holanda e define diretrizes para a publicação de relatórios de sustentabilidade para empresas no mundo todo - sempre foi uma adepta convicta da idéia de que as companhias devem adotar boas práticas porque querem e devem ... e não porque alguém lá em cima mandou. O que explica essa mudança? "A profundidade da crise atual", afirma Rodolfo Gutilla, diretor de relações institucionais da Natura. O executivo foi responsável por trazer o GRI para o Brasil em 2001 e hoje faz parte do seu conselho de stakeholders. A propósito: o tal conselho, que é formado por cerca de 40 membros - entre profissionais das empresas, de ONGs e trabalhadores - se reunirá pela primeira vez na América Latina, em junho, e a reunião será no Brasil. E, nesse período, Ernest Ligteringen, presidente da entidade, gastará parte do seu tempo no país visitando políticos e formadores de opinião para passar à frente a mensagem.
(não sabe exatamente o que é o GRI? Clique aqui)
As empresas usam das mais diferentes artimanhas para envolver seus funcionários nas ações sociais e ambientais que elas financiam. Uma estratégia bem comum é apoiar ONGs nas quais eles já atuam, muitas vezes como voluntários. Outra é envolvê-los no processo de escolha das entidades que receberão da companhia apoio financeiro ou de outra espécie. Bem, quem está nesse momento tentando fazer isso, no mundo todo - e isso inclui o Brasil - é o Google. Como? Quem entrar no banheiro da empresa - não para simplesmente se olhar no espelho ou escovar os dentes - vai encontrar atrás das portas esse panfleto aí do lado
Até pouco tempo atrás, a mensagem do anúncio atrás da porta era outro: o Google precisava contratar pessooas, e pedia ajuda aos funcionários para fazer isso.
Vi ontem de noite, no canal de TV GNT, a propaganda da campanha "One degree less" (Um grau a menos), do Green Building Council Brasil. Os comerciais começaram a ser veiculados há cerca de duas semanas e seu propósito é fazer com que as pessoas se convençam da importância de pintar os telhados de suas casas e prédios de branco. E antes que você me pergunte "a troco de quê", eu vou explicar.
De acordo com muitos estudos, dentre eles um da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, cerca de 25% da superfície das grandes cidades é composta de telhados - que em sua imensa maioria são escuros e refletem apenas 20% da luz solar. E como refletem muito pouco daquilo que incide sobre elas, essas superfícies ficam quentes, muito quentes. Junte isso à quantidade absurda de concreto usado na pavimentação de ruas e avenidas - que também absorvem muito calor -, mais a escassez de grandes áreas verdes e tchan tchan tchan ... temperaturas muito mais altas nos centros urbanos do que fora deles - um fenômeno que foi batizado de "ilhas de calor" (Urban Heat Island).
Então, para evitar que vivamos numa ilha de calor cada vez mais quente (acabei de chegar da rua e lá fora os termômetros marcam 33 graus) e os prédios possam consumir menos energia para manter ar-condicionados a todo vapor, tinta branca nos telhados é o que há! O estudo de Berkeley monitorou cerca de 10 edifícios nos estados da Califórnia e da Flórida e constatou que o uso de tetos brancos - que também são chamados de frios - pode gerar para os proprietários dos imóveis entre 20% e 70% de economia de energia de resfriamento. Não é pouco não. E quanto ao carbono que deixa de ser emitido com a redução desse uso de energia? Cada 100 metros quadrados de teto pintados de branco compensam 10 toneladas de C02. O site da campanha dá mais detalhes sobre o estudo e explica direitinho como essa prática simples de pintar telhados e tetos pode dar uma resfriada no planeta. Vale a pena.
(A iniciativa "Um grau a menos" é brasileira, e foi idealizada por Thassanee Wanick, uma ambientalista que também é cônsul geral da Tailândia no Brasil e coordena as atividades do GBC aqui. A propósito: o GBC é uma ONG que tem a missão de disseminar conceitos de sustentabilidade para a indústria da construção civil. Ela nasceu nos Estados Unidos e é quem concede o LEED, o único selo verde para construções aceito internacionalmente).
A despeito dos palavrões que cercam o tema, como inclusividade, materialidade ... e por aí vai, me diverti bastante fazendo uma reportagem sobre engajamento de stakeholders para a última edição da EXAME, que ainda está nas bancas. A propósito: meio que já nos acostumamos a ouvir o termo, mas "engajamento de stakeholders" também é feio de doer, né? Esqueçam então o xingamento e adotemos o "diálogo com partes interessadas", expressão que felizmente caiu nas graças do povo. Bem, o fato é que algumas das experiências interessantes de empresas que colhi para a reportagem tiveram de ficar de fora ( é sempre assim, histórias de mais, para páginas de menos), mas vou contá-las aqui. E vou começar com o Itaú:
Assim como o Bradesco, que foi retratado na reportagem, o Itaú também vem realizando painéis de stakeholders anualmente para avaliar seu relatório de sustentabilidade e, por tabela, a sua estratégia. Lembrando: a empresa realiza um "painel" quando convida seus principais stakeholders - funcionários, clientes, fornecedores, ONGs, órgãos reguladores e especialistas, entre outros - para que, presencialmente, exponham suas opiniões e anseios em relação a alguma política da companhia.
Em meados de outubro do ano passado, o Itaú convidou 50 stakeholders para opinar sobre o seu relatório. Apenas 32 compareceram ao painel (é gente, fazer as partes interessadas se interessarem não é nada fácil, mas eu vou falar sobre isso num outro post). O banco foi ousado e chamou até executivos dos concorrentes para participar da discussão. E o que o pessoal do Itaú escutou? Apenas um exemplo: "A gente acha o Itaú Cultural legal e tal ... mas usem o site pra descrever em detalhe o que ele anda fazendo e use o relatório para as ações mais estratégicas, que estão realmente relacionadas ao negócio do banco". ( O painel que o Itaú realiza para avaliar seu relatório é anual, mas no futuro, a idéia de Sônia Favaretto, superintende de sustentabilidade do Itaú, é promovê-los três vezes ao ano)
Em 2007, o Itaú também promoveu um painel para legitimar a sua política de risco socioambiental de crédito para empresas antes de lançá-la ao mercado. E como esperado, ela foi alvo de uma série de críticas. Conclusão: após o painel, o banco mexeu no texto da política para torná-lo mais claro - reformulando a apresentação dos compromissos, dos objetivos e de sua forma de aplicação -; trabalhou no aprimoramento da lista de atividades classificadas como proibidas de serem financiadas e uma lista de atividades classificadas como restritas; e criou uma ouvidoria específica para assuntos socioambientais, entre outras medidas.